Cinema, retiro e carnaval entre Rio e Berlim

Cinema, retiro e carnaval entre Rio e Berlim

Fátima Lacerda

10 Fevereiro 2018 | 13h13

Enquanto meus amigos cariocas me enviam fotos da barraca do uruguaio no Posto 9 em Ipanema, o Cordão do Bola Preta, guiados por Maria Rita e Leandra Leal levam 1,5 milhões de foliões para o centro do Rio, comemorando 100 anos de carnaval, Antonio, meu tio, guitarrista da banda “Os Selvagens” manda o roteiro da banda para os dias durante e depois do carnaval. Meu amigo tricolor e diretor de alegoria da Vila Izabel, manda, em áudio via Zap, o samba do bloco “Que merda é essa?” de Ipanema, eu passo a maior parte do tempo no escuro do cinema. Um lugar, ao mesmo tempo de refúgio e confrontação com histórias alheias. Com ou sem efeito Dejá Vù.

As cabines dos filmes que irão ser exibidos na Berlinale, em sua sexagésima oitava edição, já estão sendo assistidas por jornalistas que residem na capital. Todo o ano é o mesmo ritual. É como um retiro. As mesmas pessoas, sua idiossincrasias, suas merendas que são abertas enquanto o filme está rolando e as pessoas que já se aposentaram, nem mais trabalham como jornalistas e continuam marcando presença nas cabines. Esse “retiro” que inicia na metade do mês de janeiro, é bem diferente dos 10 dias de fato do festival. Neles, os colegas do estrangeiro (mais perto ou mais longe) chegam a Berlim e o retiro, formado com a mesma turma de sempre, angaria uma dinâmica efervescente  com uma boa dose de adrenalina, na qual coisas mundanas como dormir, comer colocar roupa na máquina de lavar ou passar aspirador na casa, se tornam irrelevantes e indispensáveis.

Os filmes das mais diferentes mostras vão se multiplicando. As estagiárias esperam na frente dos respectivos cinemas para anotar na tabela quem assistiu qual filme. Tudo é, meticulosamente, protocolado. Às vezes uma ou outra responsável pela divulgação do filme chega para se apresentar para os jornalistas. Esse “retiro” que dura um mês como um hibernar dentro de filmes, telas, salas de cinema e cadeiras mais ou menos confortáveis. Um japonês na minha frente, sempre na minha frente, estica as pernas as apoiando na poltrona da frente. Uma outra, durante a exibição do filme “Cuba Food Stories” da mostra “Cinema Culinário” (Kulinarisches Kinno) tinha um topete tão alto que cobria a metade da tela. Nesse “retiro” essas coisas tem um importância imensa! O filme é dirigido por Asori Soto, natural de Havana e que volta ao páis em ebulição para procurar suas raízes pelo prisma das especialidades culinárias.

©Berlinale

As carinhas já conhecidas de anos, às vezes cumprimentam, às vezes fingem que não veem. Isso é muito Berlim. A impaciência e o fato de não gostar de gente. Ficar junto com uma turma durante quatro semanas é para qualquer berlinense um grande desafio. Porém, mais para a disciplina do Must Do do que por gosto. No cinema se está sozinho intelectual- e mentalmente, mas acompanhado referente ao espaço físico.

©Berlinale

Quando o inverno lá fora, mesmo excepcionalmente ensolarado, não deixa dúvidas na temperatura de 0 grau e sentida de -5, me dou ao luxo de vislumbrar o mundo através das lentes do diretor português João Salaviza com seu filme “Russa”, com a imagem mais linda de todos as cabines que já vi, me deliciar com o filme “Los Bando  Immortale”, um Road Movie com imagens transcendentes da Noruega até a fronteira com a Suécia e um trio que se junta em alta adversidade e segue um caminho tortuoso para realizar um sonho.

©Berlinale

Um toque de Kaurismäki

A dinâmica insana dos fatos no mundo evitou um “linha temática” aplicável em todas as mostras. Visível é o Plot do filme ganhador do Urso de Ouro em 2017 e dirigido pelo excêntrico finlandês Aki Kaurismäki.

Uma turma de 4 pessoas, vindas das maiores adversidades de de Backgrounds, se juntam em estilo de um por todos e todos por um, também para se legitimarem, carimbarem seus lugares no mundo e poder seguir de cabeça erguida. A propósito cabeça erguida. Não esperar Happy End também é a cara da cidade de Berlim e é cara da Berlinale.

No filme brasileiro, “Tinta Bruta” dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher assim como no “Russa” do português João Salaviza (já anteriormente premiado na Berlinale) o Happy End é substituído pela superação e pela rua sem saída que é continuar a viver. Apesar das mágoas. Dos atropelos e, sim, das despedidas. Ainda mais quando elas são para a Alemanha. O continuar pode ser voltar para cumprir o resto da pena na prisão ou simplesmente voltar a dançar na pista da balada.

©Berlinale

A trilha sonora do “Tina Bruta” é um êxtase para os ouvidos. É difícil continuar sentado na poltrona. A vontade de levantar, de imediato, e tomar o espaço físico da sala de cinema, chega no limite do incontrolável.

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Relacionamentos

Aquilo que se mostra difícil na cidade berlinense, entre as mazelas prussianas e uma outra metade, exatamente dicotômica a ela, é expressado, cuidadosamente em “La enfermidad del Domingo” do diretor espanhol Ramón Salazar. Mãe e filha, depois de uma década separadas, se encontram e passam 10 dias juntas, ousando a novidade da convivência e se atropelando em incontáveis diferenças.

©Berlinale

Também aqui o Happy End é bem pouco convencional. Convivência depois de um longo tempo ter se passado também é o Plot do filme de um emergente talento do cinema europeu: a diretora nascida em Barcelona: Meritxell Colell Aparicio. Mãe, filha, irmã e sobrinha tentam, literalmente, se encontrar depois da uma grande perda na família: Um filme de mulheres, suas ternuras, idiossincrasias, desejos, planos e questionamentos com um desempenho brilhante de Mónica Garcia. O cenário natural da Castilla não poderia ser melhor metáfora para o Plot.

©Berlinale

Pernambuco na Berlinale

O banho de água fria, mesmo no cinema com ar seco, vem com um filme que será exibido na mostra dos “Curtas-Metragens”:“Terremoto Santo” foi rodado em Pernambuco e mostra a “nova geração” de cantores, pastores e suas práticas religiosas radicais.

©Berlinale

Outro desafio para o cinéfilo é também o filme sobre o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. 137 minutos, muito diálogo e alimento dificilmente digerível para alemães que não conhecem a realidade brasileira e também não estão dispostos a fazê-lo da forma profunda que o filme exige. Ao sair da sessão, pouco antes do término, colegas me olhavam com teimosamente instigados com um toque interrogativo por eu ter saído pouco antes do filme terminar. Isso, porém por uma razão mundana e não por ter rejeitado a obra que é uma produção Brasil-Alemanha-Holanda. Ao indagar o motivo de um olhar tão interrogativo, eles balançaram a cabeça expressando decepção com um filme e nenhuma disponibilidade em adentrar universo tão caótico como foi o processo de impeachment. Uma das jornalistas disse: “Além da legenda muito rápida, eles gritavam muito”. Com a dose necessária de ironia, sem a qual não se sobrevive na Alemanha, eu retruquei: “Brasileiros são assim mesmo, acalorados. Ainda mais quando se trata de poder”. Ela quitou meu comentário com um sorriso como quem acaba de entender estar à frente de quem entende do assunto.

Alemães já falem de crise, mesmo depois de eleições, o governo demora mais de cinco meses para ser formado. Depois das eleições de setembro de 2017, só agora que está se delineando uma formação de governo, mas não sem a trágica figura do chefe dos social-democratas. Mesmo com toda a penúria do SPD, ela não se compara com o significado mil-folhas que tem a operação Lava Jato.

Ouvir falar da “Operação Car Wash” (Operação Lava Jato), pela primeira vez, e ainda ter que ler o abundante texto em inglês é exigir demais dos alemães.

Nem é preciso ter bola de cristal para saber que o filme dirigido por Maria Augusta Ramos servirá de plataforma política para simpatizantes do partido dos trabalhadores assim como da esquerda brasileira e alemães que querem se mostrar solidários com o Brasil. Especialmente neste contexto (mas não só nele) a Berlinale ratificará, mais uma vez, seu caráter político. Representantes da ONG SOS Lula distribuirão panfletos avisando do protesto a ser realizado durante o festival.

Num sábado de carnaval, onde o céu berlinense faz jus à estação do inverno e toda a equipe do festival faz plantão no escritório e os jornalistas se organizam para obter o melhor do festival, a pauliceia tem seu momento carnaval antes de, como atesta o portal Spiegel Online, “a maior festa do do mundo: o carnaval do Rio.

http://www.spiegel.de/fotostrecke/karneval-in-rio-die-spekatkulaersten-bilder-fotostrecke-158388.html

Apesar da Febre Amarela, de Crivella, e apesar da tese, expressa em texto de Arnaldo Jabor que meu primo, indiscutivelmente adepto do neoliberalismo e que acredita piamente no caráter determinante do capital, me enviou por What’s App. Jabor não entende como brasileiro pode, apesar de tudo, festejar o carnaval. Até mesmo em Berlim, que tem nesta noite, seu sexto baile à fantasia.