Convenção do G20 em Hamburgo: entre Marketing, uma Filarmônica de custos astronômicos e desobediência cívica

Convenção do G20 em Hamburgo: entre Marketing, uma Filarmônica de custos astronômicos e desobediência cívica

Fátima Lacerda

23 Junho 2017 | 07h28

No preâmbulo da convenção do G20 que acontece nos dia 07 e 08 de julho em Hamburgo (norte da Alemanha), cidade portuária, denominada de “O Portão para o mundo” (Das Tor zur Welt) será palco da estreia da Alemanha ao organizar o G20.

O semanário “Der Spigel” publica na capa da edição do início da semana: “Capital Hamburgo”. Finalmente (!) sair das sombras de Berlim, capital da república e se tornar, mesmo que seja por somente 2 dias, o centro das atenções midiáticas do mundo.

O objeto mais fotografado durante os “dias de glória” de Hamburgo será a recém-inaugurada “Filarmônica. A famosa foto em grupo será tirada em frente à obra dos arquitetos Jacques Herzog e Pierre de Meuron. A Filarmônica também terá um concerto especial para os chefes de estado e de governo. Na visita guiada para jornalistas, eu quis saber o programa a ser tocado: “Ainda não está decidido”, dise um tanto sem jeito, Guido Neumann, o chefe do setor de imprensa da empresa de turismo oficial da cidade, o Hamburg Media Service. Poucos minutos antes desse artigo ser publicado, chegou uma nota do próprio Neumann que divulga o programa musical da noite: “O concerto durante o G20 na Filarmônica terá obras de Beethoven: “Ode an die Freude”, o hino da UE” além da nona sinfonia. Os solistas na noite de prestígio serão: Christiane Karg (Soprano), Okka von der Damerau (Mezzosoprano), Klaus Florian Vogt (Tenor) e Franz-Josef Selig (Baixo).  Se a inconstetável  beleza desta composição irá conseguri inspirar membros da UE e membros da comunidade internacional para instigar mais democracia e liberdade de expressão e de imprensa, é bem improvável. Se as músicas escolhidas foram “sugeridas” pela chanceler, nao se sabe. O que, sim, é conhecido, é o seu amor pela música clássica.

A construção que atrasou 7 anos e teve custos dez vezes mais caros do que anteriormente planejado foi um imenso fiasco até janeiro deste ano, quando foi inaugurada. Ao todo, a obra arquitetônica de gosto bem duvidoso, somou 866 milhões de euros, incluindo doações de pessoas físicas. Na lista nada prestigiosa dos edifícios mais caros do mundo, a Filarmônica de Hamburgo ocupa do décimo segundo lugar. Mesmo assim: Ao ser aberto o portal para compra de ingressos, o sistema quebrou. Segundo Natalie Ruoß, que ocupa o cargo de porta-voz quando se trata da Filarmônica, enquanto estávamos a caminho para conhecer o objeto de prestígio ela disse: “Agora não são mais 500.000 pessoas que entram paralelamente. Agora sao “somente” 250.000″ que tentam angariar um ingresso. Nem mesmo os Rolling Stones podem superar esses números. Em suma: o programa a ser exibido, é secundário.

Os convidados

Entre os chefes de estado e governo estarão o imprevisível atual morador da Casa Branca, Erdogan, o presidente turco que acaba de tornar seu país uma autarquia e que mantém, atualmente, 150 jornalistas presos chutando e pisando na liberdade de imprensa e o Persona non Grata, Vladimir Putin, que atualmente está em boa fase devido aos holofotes resultantes de seu país, sediar a  Copa das Confederações evento de preparação para a Copa do Mundo de 2018.

A anfitriã Angela Merkel estará no seu elemento preferido: o de mostrar por onde anda a carruagem, em sentido concreto e metafórico. Afinal, a tia da chanceler mora em Hamburgo, cidade onde Merkel nasceu e viveu antes de seu pai, pastor luterano ser transferido por outro lado da Alemanha.

Também entre os convidados estará o presidente do Brasil país que, no momento (e as manchetes de injecao de otimismo não fazem efeito) se encontra em estado convulsivo entre a operação Lava Jato, quebra de tabus, insatisfação com o povo nas ruas e com a pergunta que ocupa grande parte da nação: qual será a hora que a jararaca amanhecerá atrás das grades?

Ao contrário da época em que Celso Amorim era Ministro das Relações Exteriores e o pré-sal da Petrobras tornara o Brasil uma potência econômica juntados à teimosia e cara de pau do ex-presidente Lula colocava o país-continente, “nas cabeças”.

O Brasil será “representado” no G20, num momento em que se encontra à beira da isolação internacional, um ostracismo que relembra os tempos antes da globalização. Os desmembramentos desse ostracismo para a exportação e tantos outros fatores econômicos, sociais e como também políticos são incomensuráveis.

Há poucas semanas, a chanceler Angela Merkel partiu para viagem oficial para Argentina e para o México, passando ao largo pelo país-continente chamado Brasil. Foram tempos em que 2015 Merkel partiu de Berlim com vasta delegação para as primeiras “Consultações governamentais Alemães-Brasileiras” dando o Brasil um selo de qualidade, sim, um Upgrade ao Brasil e a impagável oportunidade de marcar presença naquilo que o jargão denomina de “sinteco político internacional”.

G20 como prêmio de consolo?

Em coletiva de imprensa num dia de calor histórico de 30 graus na cidade hanseática, à beira de um navio ancorado, o porta-voz do Senado de Hamburgo, o porta-voz da polícia e um representante do governo alemão ouviram perguntas dos jornalistas estrangeiros em viagem de um dia à cidade hanseática. O vice-porta-voz do governo alemão Georg Streiter se mostrou acometido da mesma mazela que acomete políticos: a falta de sentido de realidade e da vida real. “Essa convenção já é um sucesso”, anunciou exibindo um sorriso arrogante. Perguntado pelos correspondentes estrangeiros sobre uma possível passeata dos curdos contra a presença de Erdogan em Hamburgo e confrontado com o argumento de que as diferenças entre os chefes de estado e de governo são imensas, Streiter não pestanejou: “O mundo se tornou um lugar muito melhor. Veja a questão da fome na África. Nós conseguimos reduzi-la radicalmente” e embargando numa retórica de que o G20 seria só pra constar. Um tipo de chá das 5 para políticos famosos e com fetiche midiático, como o atual habitante da Casa Branca demonstrou recentemente no encontro da OTAN em Bruxelas, quando, sem pestanejar, usou o cotovelo para empurrar o premiê de Montenegro para ficar melhor na foto. Não é o empurrão que entrará para a história, mas o ajeitar do paletó de Trump, na sequência. A linguagem corporal vale mais do que uma enciclopédia.Vale lembrar da primeira visita da chanceler Merkel aos EUA, na qual Trump a negou o aperto de mão até Merkel capitular frente à imprensa mundial, irá ficar nas nossas retinas como humilhação sem precedentes. O estilo de humilhação (de dar o troco) de Merkel é sempre sutil e caracterizado pelo seu prestigioso ignorar de quem não ela gosta e sublinhada pela plena certeza de que vingança é um prato que se come frio.

©dpa/Daniel Reinhardt

Também na coletiva dentro no barco ancorado e sob um sol e mormaço de 30, ambos extraordinários para a cidade, onde sempre chove ou o céu está nublado, estavam o representante do Senado de Hamburgo e o porta-voz da política, Timo Zill, o único que forneceu informação de conteúdo, mas claro, estritamente respeitando a linha corporativa e sempre astuta dialética de que o “menos é mais”. Simpático, muito bem-vestido, mas sempre injetando a frase em cada resposta: “Nós estaremos preparados” além de dizer “se alegrar” com os protestos pacíficos. A polícia (daqui e de lá e de qualquer lugar) se alegrar com protestos é tão provável como não poder conter a felicidade ao ver uma tigela de jiló no jantar na casa da sogra.
Segundo às más línguas, a convenção acontece em Hamburgo como prêmio de consolação pela derrota na candidatura de sediar os Jogos Olímpicos de 2020. Em referendo, os hanseáticos votaram contra e o über-plano de marketing se dissolveu nas águas do porto.

Preparar um G20 em tempos de terrorismo é um desafio, mas fazê-lo com a presença de um dos políticos mais temidos e odiados no mundo, Trump, é ainda mais difícil. Uma palavra constante na retórica do porta-voz da polícia naquela manha de segunda-feira era “um grande desafio”. O objeto mais focado é o chamado “corredor” que levará os chefes de governo e de estado para o galpão de feiras e congressos da cidade de Hamburgo. A cidade foi dividida em “Zona de Segurança I e II”.

© Axel Heimken/DPA

 Karsten Broockmann, o porta-voz da Hamburg Feiras & Congressos marcou presença na hora do almoço, mas se disse “impedido” de fornecer mais informações. Do trigésimo quarto andar do complexo de escritórios EMPORIO em combinação com o Hotel Scandic, vislumbrávamos, da perspectiva do pássaro, o céu sobre Hamburgo, incluindo o planetário e a prisão onde ficaram, outrora, membros da Fração do Exército Vermelho (RAF, na sigla em alemão). O jornalista do jornal local “Hamburger Abendblatt” (A Folha noturna de Hamburgo) estava presente e contava sobre a aprovação e não aprovação dos moradores de Hamburgo.

Números

Os números concernentes aos valores disponibilizados pelo Governo Federal para garantir a segurança do evento diferem. Alguns falam de 32 milhões de euros somente para o departamento da Polícia Federal. Timo Zill, o porta-voz da polícia, anunciou que “haverá reforço de policiais de vários estados alemães” e mencionou o valor de 50 milhoes de euros só para garantir a segurança. Segundo outras fontes, o que passar desse valor, será de responsabilidade da cidade de Hamburgo, ou seja, dinheiro do contribuinte. Quanto à abranjência da operacao policial, será “a maior da história de Hamburgo”, declarou na quarta-feira (22) Ralf Martin Meyer, presidente da polícia à revista “Stern”. A convenção inicia somente em duas semanas, mas a operação policial já inicia sábado (24)” devido a mais 30 requerimento de passetatas registrados pela polícia. A primeira delas terá aproximadamente 500 participantes em frente ao abrigo de refugiados em conteineres, no bairro de Harburg.

“A polícia federal, responsável pela segurança nas trilhas da ferrovia e nos aeroportos inicia sua operacao dia 30 de junho com a participação de 3800 policiais, 3400 deles na cidade de Hamburgo”, declara um porta-voz da polícia em matéria veiculada, quarta-feira (22), na revista Stern.

Resistir é preciso

Seja realista, exija o impossível“, diz uma frase de Rosa-Luxemburgo.

A sociedade civil de Hamburgo, assim dizem as estatísticas, é, em sua maioria, contra o G20. Alguns moradores pensam em estar fora da cidade durante o evento que criou muitas “zonas proibidas”. Nelas é proibido fazer demonstração. A polícia, juntamente com a cidade de Hamburgo proibiu passeatas e protestos na parte sul do Campo Espírito Santo (Heiligengeistfeldes, em alemão), local planejado para ser o ponto final da passeata. O grupo “Aliança para solidariedade ilimitada” emitiu mandado de segurança alegando ser “inaceitável” que o direito de “liberdade de se unir em lugares públicos” esteja sendo dizimado por completo. 38 km da chamada “Zona Azul” (Blaue Zone, em alemão) foram declarados pela polícia e pela prefeitura como “zonas proibidas” para fins de protesto.

A ONG Attac Alemanha, além da fração do partido esquerdista Die Linke são somente alguns dos membros do painel no início da tarde do Centro Cultural e político, Kampnagel. Ali acontecem shows, debates e durante o G-20, uma convenção alternativa.

Werner Rätz, porta-voz do grupo de manifestantes explica que é “inadmissível” que a polícia e a cidade de Hamburgo suspendam o direito de manifestação. “Nós não vamos deixar Hamburgo inteiramente nas mãos deles e vamos recorrer à justiça“. A dinâmica dos fatos não parou nesses 4 dias.

A cidade de Hamburgo havia proibido “Campos de acampamento”, por alegar que os mesmos servem de “esconderijo” e “abrigo” para os autônomos de esquerda, “para os vândalos”. Na área verde Stadtpark (Parque da Cidade(, a mesma em que a melhor banda do mundo, os Rolling Stones, dará o pontapé da turnê europeia no próximo dia 09 de setembro, o grupo de ativistas e os que se definem “contra a globalizacao” queria fazer o acampamento e a justiça deferiu positivamente. Uma vitória entre tantas lutas num Estado de Direito, que ao contrário da (por muitas vezes) percepção de políticos profissionais, totalmente alienada e fora da realidade, funciona, a concepção do grupo Bündnis mostra meticulosidade, mas também teimosia inegociável em se manifestar e se mostrar presente em espaço físico como também, claro, fazer muito barulho, que não será ouvido pelos manifestantes devido à distância garantida pela polícia, mas será visto nas mídias tradicionais.

Mídia alternativa 

“O Centro Midiático FC MC é um “polo de mentes críticas e corações empenhados” durante a convenção do G20 em Hamburgo. “De 04 a 09 de julho o site irá disponibilizar acesso em formato ao vivo, coletivas de imprensa, informação sobre os protestos, além de um arquivo de áudios produzidos”, divulga a informação no site de gráfica rudimentar.

Siri Keil estava presente na coletiva informal, sem água mineral nem café. Eu quis saber como o pool é financiado: “Através de doações”, responde ela abaixando a voz. As doações também são pleiteadas na Home do site do centro. O caráter alternativo do grupo não para por aí. As dependências, temporárias, do centro midiático serão dentro do Estádio Millerntor, o estádio do legendário time St. Pauli, a voz política, esquerdista e revolucionária no olimpo futebolístico da Alemanha, desestrutuando todos os critérios que fizeram do futebol, aquilo que ele é hoje.

Uma exposição na Biblioteca Central sobre o futebol hanseático durante o nacional-socialismo de Hitler mostra que nem mesmo o time, outrora, surgido da burguesia, conseguira fugir dos “princípios de Hitler”. Hoje, St. Pauli é símbolo de resistência no negócio de milhões que se tornou o futebol.

Rote Flora 

Falar somente de “intervenção urbana” ao se referir ao centro “Rote Flora” no bairro convulsivo chamado de Sternschanze, um “primo” do bairro de Kreuzberg em Berlim, seria desonestidade intelectual e política. A condição para a conversa com correspondentes foi que, no interior do centro, não seriam feitas fotos. Ao lado, um cinema, um restaurante. Do outro lado da rua é inflacionário o número de cafés e restaurantes resultando em movimento contínuo nas ruas e muito barulho nas calçadas.

Andreas Blechschmidt foi o único a receber os jornalistas. A sala era escura, também aqui não tinha água nem café. Os ativistas radicais não se importam com essas coisas mundanas. Nem mesmo quando lá fora rege um calor das arábias. Lá dentro, além de Andreas que garantiu estar no “comando” desde o início do centro cultural e político, dois colegas. Um deles delineava sua raiva sobre o G20 acontecendo em Hamburgo. O outro, bem mais jovem e sem fazer sequer um movimento, tinha também a mesma dialética: incomodar o evento o máximo possível.

Nas paredes do local, assim como dentro do banheiro, imagens, grafitis e adesivos contra o G20 e contra quase tudo que remete à um posicionamento de liderança da Alemanha, seja no contexto europeu ou no contexto da política mundial ou até mesmo a Alemanha como Estado de Direito.

A intensidade entre o Centro Kampnagel e o Rote Flora é bem diferente e não menos estopim para discussão, mas as duas encontram o denominador comum na vontade não deixar que decisões aleatórias e que atingem os moradores da cidade sejam tomadas á revelia. Além disso, soma a opinião de que é injusto que 20 nações se tornem “porta-voz do resto do mundo”, disse um ativista na ponta da mesa do Rote Flora.

O que sobrou do céu…

Depois do final do segundo dia, Hamburgo terá adquirido ainda mais turistas, terá tido seus dias de glória para os que veem com bons olhos no fato da cidade sediar a convenção, porém Trump continuará governando através de tuítes, Erdogan continuará deportando os refugiados sírios de volta pra a guerra para garantir as divisas que o governo alemão lhe paga para manter os refugiados longes das fronteiras germânicas em ano de eleição. E o Brasil seguirá na agonia de um país ansiando para virar a página da história.

http://www.kampnagel.de/de/home/

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