Copa de 2006: o sumiço de 6,7 milhões de euros e muitas perguntas sem resposta

Fátima Lacerda

31 Outubro 2015 | 19h11

 AFPimage-910559-panoV9free-ihle-910559.jpg ©AFP

O escândalo envolvendo a Copa de 2006 quase sucumbiu no momento de terremoto político que a Alemanha está vivendo. Merkel, tendo a faca no pescoço por um “Rei da Baviera”, sequestro seguido de assassinato dos meninos Elias e Muhamed, sumidos durante semanas e mortos de forma bárbara. Entretanto, a Alemanha é um país que tem o futebol na veia. Por isso, nem mesmo frente à tanta turbulência e tragédia, o tema pode passar desapercebido. Não pode haver certeza de impunidade: corrupção não é um delito light, mesmo tendo se passado 9 anos. 

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Na manhã de quarta-feira, 28, o Professor de Ciências do Esporte e Filósofo, Professor Dr. Gunter Gebauer, concedeu uma coletiva com a sua percepção do caso para correspondentes estrangeiros na Alemanha. 

O escândalo vazado sobre a possibilidade de corrupção concernente à Copa de 2006 não vai estragar a percepção do que esse evento causou no país”. Gebauer é ex-jornalista exportivo. Como eu pude constar em conversa informal minutos antes do início da coletiva, ele também é exímio conhecedor do futebol brasileiro. Duas semanas antes do início da Copa do Brasil, ele foi convidado para ser o primeiro de vários palestrantes em evento realizado no Museu do Futebol, na capital paulista.

Antes de detalhar aspectos resultantes do escândalo pesquisado e desvendado pela revista DER SPIEGEL em 16 de outubro, ele ousou uma reflexão de cunho filosófico.

Houve corrupção no contexto da Copa de 2006, mas o „Conto de fadas do verão”, de fato, existiu. Finalmente os alemães tiveram a experiência de serem bons anfitriãs e tiveram a chance de consolidar sua imagem como nação”, disse ele, citando a tese do também filósofo e sociólogo Helmut Plessner sobre a Alemanha como uma “nação atrasada”, Segundo Plessner, ao contrário da França, a Alemanha demorou muito até encontrar a sua identidade nacional e Gebauer está completamente convencido de que a Copa de 2006 contribuiu para “fechar” a “percepção de quem somos”.

Essa postura do simpático e comunicativo professor me fez pensar sobre a consequência da vitória da Alemanha em 1954 para a autoestima de um país que acabara de ser fundado (1949). “O Milagre de Berna teve um impacto na população de, no máximo 6 meses”, constatou Gebauer. “Já a Copa de 2006 provocou uma profunda mudança de mentalidade, especialmente da geração mais jovem” e citou como momento-chave a partida da Alemanha contra a Polônia realizada na cidade de Dortmund e que teve o gol de Oliver Neuville, um suiço nascido em Locarno e que mal falava alemão, na prorrogação do segundo tempo. “O meu vizinho, um cara comedido, de repente, pendurou uma bandeira da Alemanha na varanda. Ai veio o outro, mais o outro. Eu não sei de onde eles tiraram tantas bandeiras! Com essa vitória dramática, houve a erupção”, do qual auge, assim a minha percepção empírica, foi no final no jogo contra a Argentina. Foi impossível não constatar isso frente à massa humana germânica que saia da Fifa-Fan-Fest em Berlim. O nó havia sido desatado. A euforia era sem fronteiras, sem limites.

Ao invés de focar na dinâmica com novos detalhes do escândalo, acrescentados diariamente, Gebauer preferiu uma listagem de aspectos que, ao longo do tempo, contribuíram para que alguém como Franz Beckenbauer, topasse entrar no jogo sórdido da FIFA.

A rivalidade entre os patrocinadores Nike e ADIDAS, esse último, patrocinador generoso da equipe do Bayern de Munique. Segundo Gebauer, o na longa rixa entre os dois gigantes do esporte, a diretoria do clube de Munique teria exercido pressão insuportável sobre a Federação Alemã de Futebol, para ter ADIDAS como patrocinadora da seleção. Caso contrário, tiraria todos os jogadores do Bayern que atuavam na seleção e isso, apesar da oferta da Nike ter sido “consideravelmente maior” garante o experto.

A cronologia:

16/10

O Portal Der Spiegel divulga que houve um caixa 2 no Comitê de Candidatura para que a Alemanha sediasse a Copa de 2006. Segundo „Der Spiegel“ esse valor seria para „comprar 4 votos de membros do Comitê executivo da FIFA“.Franz Beckenbauer queria „adiantar“ esse valor da sua fortuna pessoal, o que seu ex-empresário, Robert Schwan, impediu. Ao invés de providenciar o valor através de um empréstimo no banco ou mesmo da caixa da DFB, o Comitê de Organizacao, do qual Franz Beckenbauer era o presidente e Wolfgang Niersbach, hoje diretor da DFB, vice, o valor acabou sendo „emprestado“ pelo então chefe da ADIDAS, Robert Louis-Dreyfus. Esse mesmo Dreyfuss foi, durante anos, membro da diretoria do Bayern de Munique, na época em que Uli Hoeness era o presidente do clube. Hoeness está preso em regime semiaberto por sonegação de impostos. Teria também sido Dreyfuss, amigo unha e carne de über-Chefe do clube de Munique, que o teria emprestado dinheiro para especular na bolsa de valores e teimado em mantê-lo na presidência do Bayern, mesmo quando o processo já estava rolando.

A DFB desmente, com veemência total, o conteúdo da matéria divulgada pelo portal Spiegel Online.

17/10

Em coletiva de imprensa, a DFB, na pessoa de seu presidente Wolfgang Niersbach afirma “com certeza que não houve caixa 2, nem na DFB nem no Comitê de Organização”.

18/10 Franz Beckenbauer reage à matéria: „Eu não enviei dinheiro para ninguém, para conseguir a realização da Copa na Alemanha e eu estou seguro de que ninguém do comitê o fez“. Foi o mesmo Beckenbauer que, perguntado sobre o escândalo envolvendo a Copa de 2022 no Catar e a acusação do Comitê fazer uso de “mão de trabalho escravo”, o Kaiser declarou frente a repórteres: “Eu não vi nenhum escravo no Catar. Os operários andam livremente. Não estão acorrentados nem amarrados. Eu não sei de onde surgem esses boatos”, disse o Kaiser com olhar inocente.

https://www.youtube.com/watch?v=ZUPfm4zsVNQ

Theo Zwanziger, antecessor de Niersbach na presidência da DFB declara na imprensa que „Quem quiser obter uma Copa do Mundo, tem que se submeter às regras da FIFA. O Niersbach sabia disso, o Franz (Beckenbauer) também. É claro que existe caixa 2!“, diz ele sorridente e com a tranquiidade que só aqueles que não nada a perder.

19/10

O Ministério Público junta provas para avaliar se é possível abrir inquérito devido com acusações fraude e corrupção.

Niersbach desmente, mais uma vez. Confessa, entretanto, que „existe um item em aberto, que suscita perguntas: para que foram usados os 6,7 milhões de euros?

Theo Zwanziger  mostra cético quanto vontade de esclarecimento da DFB em âmbito interno“.

20/10

O técnico da seleção alemã, Joachim Löw, expressa sua solidariedade com o chefe da DFB. „A palavra dele é 100%“.

21/10

Niersbach começa a sofrer pressão interna. Escritórios regionais exigem „rápida investigação das acusações de corrupção“.

A mídia alemã divulga que, por trás da coxia, a DFB já procura um sucessor para Niersbach. Com isso, a demolição do ex-porta voz e agora chefe da organização, vai de vento em popa.

22/10

Visivelmente esgotado, Niersbach convoca uma coletiva, apesar de não ter nada a dizer e se torna o meme do dia nas redes sociais. A DFB, que até então constava como um oásis no pátio de corrupção que se tornou o futebol profissional, tem sua reputação consideravelmente abalada e sem perspectiva de recuperação enquanto uma nova equipe não assumir e “arrumar a casa”, iniciando uma outra política corporativa. A falta de soberania na postura do atual chefe em colocar panos quentes, torna a DFB, sobre a  atual gestão, um paciente em estado terminal. É preciso um milagre para que Niersbach consiga se manter no cargo.

23/10

O vice-presidente da DFB, Reinhard Rauball (68), que também ocupa o cargo de presidente do time Borussia Dortmund, expressa solidariedade com seu chefe dizendo acreditar „que o escândalo será esclarecido com toda a transparência“. Até mesmo um presidente de um clube da dimensão e importância do Borussia, acredita em Papai Noel ou está cercado de uma péssima equipe de assessores ou está levado pelo medo ou por uma mistura de tudo isso.

23/10

Antecessor de Niersbach, Theo Zwanziger, parte para a última batalha na sua vingança fria e joga tudo no ventilador, acusando seu ex-chefe de “mentir” além de confirmar a existência de caixa preta no contexto da candidatura da Alemanha para sediar a Copa de 2006 e ainda afirmou que Niersbach não sabia „disso desde há poucos meses“, mas „pelo menos desde 2005“.

O esclarecimento do escândalo é infactível. Não “somente” pela falta da vontade da DFB já que poderia ter sido aberta uma investigação interna, mas porque importantes atores desse espetáculo sórdido, Robert Schwan (ex-empresário de Franz Beckenbauer) e Dreyfuss, o chefão da ADIDAS entre 1993 e 2001, já passaram dessa pra melhor. O que se suspeita: Dreyfuss depositou o valor diretamente na conta da FIFA. Em 2005, ele cobrou o valor a DFB. Pensando em convencer Dreyfuss a desistir de cobrar e “deixar por isso mesmo”, Theo Zwanziger, acompanhado de Günther Netzer, ex-jogador, figura de grande influência no business do futebol ex- parceiro de Dreyfuss na Kirch-Midia, de propriedade de Leo Kirch, o Roberto Marinho alemão, empresa essa que regulava os direitos de transmissão das partidas de futebol da Bundesliga,  foram até o escritório do “Mr. ADIDAS” e ex-proprietário do time francês Olympique Marseille, para convencê-lo a perdoar a dívida. Sem sucesso.

Perguntas que não querem calar:

Dreyfuss recebeu o valor de 6,7 milhões de euros de volta?

Quando?

De quem?

Qual o papel de Mohamed bin Hammam , “o cara da FIFA” na Ásia, nesse trâmite todo?

Quem saiba sobre a caixa preta da FIFA e quando?

Qual foi o papel real de Beckenbauer nesse trâmite, quando ocupava a chefia do Comitê de Organização?

O que sabia Niersbach?

O que sabia Theo Zwanziger? Ele só se possiciou agora, contando com o delito estar prescrito?

Houve a conversa entre Sepp Blatter e Beckenbauer, onde foi confessado ao Kaiser que a FIFA só concederia o valor 250 milhões de francos suíços (já concedidos anterioremente para a Copa de 2002, na Coréia e no Japão) para “a organização de uma cerimônia de Gala no contexto da abertura da Copa de 2006”, se a DFB “adiantasse”, como um tipo de “seguro”, a quantia de 6,7 milhões de euros (10 milhões de francos suiços). A festa acabou não acontecendo. Blatter, atualmente suspenso e neutralizado em seu tráfico de influência, declarou à imprensa suiça que “não é de praxe da FIFA, acoplar injecões financeiras como garantia” e nega que a conversa com Beckenbauer tenha acontecido.

Marcas que ratificavam a eficiência alemã pelo mundo, já nao são mais as referências de outrora. Uma caricatura publicada nas redes sociais, resumiu a situação de forma mais enxuta possível. A imagem mostra refugiados recém-chegados no país e que assistem à uma aula sobre o tema “Cultura alemã de referência” (Deutsche Leitkultur).

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 Pontual como os trens da Ferrovia,

Limpa como os carros da Volkswagen

Honesta como a DFB