Crise econômica no Brasil é assunto em Conferência sobre a América Latina

Fátima Lacerda

02 Outubro 2015 | 15h05

WP_20151001_09_31_27_Pro.jpg(©Fátima Lacerda

A Conferência América Latina é promovida por organizações da economia alemã, especialmente pela Câmara de Indústria e Comércio (IHK, na sigla em alemão) e que está representada em 36 cidades por toda a América Latina, além da Iniciativa América Latina (LAI). Para ratificar a importância do evento, que acontece anualmente e teve sua 14a edição, vários representantes do Ministério da Economia estavam entre os palestrantes e entre os presentes.

A Conferência, que aconteceu na “Casa da Economia Alemã” e foi excelentemente concebida e preparada, tem o intuito de estimular os empresários de pequenas, médias e grandes empresas em investirem na região, das quais os principais critérios de atratividade (e isso foi repetido várias vezes também em filmes exibidos no telão) são a diversidade cultural, de recursos naturais e, bem ao contrário da Alemanha, uma população jovem.

Consequências da crise econômica no Brasil

Já no início de seu discurso de boas-vindas, Dr. Reihold Festge em tom muito diplomático, escolheu a dialética do copo meio cheio e não, como tradicional na Alemanha, a do copo vazio. Optou por citar os problemas, e nesse quesito, o Brasil foi o primeiro país a ser citado, porém Festge ressaltou aspectos positivos como a experiência de quase 100 anos de empresas alemães no Brasil e a certeza de que “tempos melhores virão”.

O tom de mais ou menos otimismo variava de acordo com o cargo ocupado. O representante do Ministério da Economia,, ao contrários dos palestrantes anteriores, teve um discurso altamente burocrático e cansativo e ainda cometeu a gafe de chamar o Ministro da Indústria e Comércio do Paraguai de Laite, usando a pronúncia alemã e não Leite . Bem depois, um discursante visivelmente mais entrosado nos países da região ratificou a extrema importância de investidores falarem a língua dos países: “Não pensem que vocês vão chegar em algum lugar com inglês. Não contem com isso. E mesmo que vocês encontrem pessoas que falem inglês, o dominar do idioma local vai lhes abrir muitas portas”. A velha questão: para se adentrar a cultura (como manifestação de hábitos e costumes) de qualquer país, é indispensável dominar o idioma. A mediadora da última roda antes da pausa do almoço desacelerou o ímpeto do participante e tentando consertar e mandou: “Mesmo quem não souber o idioma, poderá contar com equipes bilingues da Câmara Brasil-Alemanha no exterior (AHK). Saiu bem. Vendeu o peixe, mas a mensagem com ímpeto ficou cravada na memória de quem pretende investir.

Paraguai como referência econômica

O Ministro da Indústria e Comércio do Paraguai, Gustavo Alfredo Leite Gusinsky chegou ao palco com uma autoestima de quem tem um grandes projetos pela frente. “É a primeira vez que o Paraguai é convidado para um evento desses. O fortalecimento democrático, exemplificado nas recentes revindicações de forma pacífica dos paraguaios por uma melhor educação, mostram isso“, declarou logo no início de seu discurso em Berlim, de onde vai iniciar uma verdadeira turnê por cidades da Alemanha para fazer vender seu peixe paraguaio.

WP_2012.jpg

Brasil, a presença na ausência

Entre os membros das mesas-redondas, estavam o embaixador do Uruguai na Alemanha, Alberto Antonio Guina Amarilla, que não perdeu a oportunidade de mostrar seu conhecimento da língua de Schiller e Goehte e fez um discurso bilíngue. Dieter Lamlé,  uma espécie de membro do departamento “Inteligência” do Ministério da Economia para checar os lugares onde as condições de investimento são favoráveis e atrativas. O Brasil esteve representado no segundo Fórum pela Embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, que antes de chegar a Berlim, era representante do Itamaraty na ONU.

Durante todos os discursos, longos ou breves, era mencionada a crise econômica e política do Brasil. Johannes Häuser, em seu discurso de boas-vindas foi direto e realista: “A Crise vai durar mais tempo do que pensávamos. Será necessária muita paciência até que ela se resolva“, assim o prognóstico.

A tradição que em 2016 comemora o centenário de empresas alemães no Brasil, com especial concentração na capital paulista é incomparável com qualquer outro país da América Latina e mesmo que nessa edição da conferência, os “países menores” como Uruguai, Chile, Colômbia e Paraguai tenham estado em foco, o Brasil, mesmo sobre forte crise, é um tipo hors-concours e a Embaixadora, em seu discurso, fez o seu papel e não se deixou abalar pela palpável insegurança causada nos presentes à conferência. Ela optou por um discurso ressaltando os aspectos positivos. Nenhuma surpresa. Faz parte do ofício. 

Eu diria que a história da presença alemã no Brasil, por si só, é um grande estímulo para novas empresas investirem no país. Essa parceria é uma história de sucesso, uma história de investimento de longo prazo e isso mostra que o Brasil é uma país atrativo e continuará a ser um grande mercado: por suas dimensões geográficas, pela sua economia interna, pelo seu fator demográfico, pela diversificação de sua economia, por ter uma população jovem ávida por inovação e mudanças tecnológicas, em suma, um país onde as empresas alemães poderão crescer e nos ajudar a crescer”, declarou.

Mudança de paradigma para alemão ver

Com o foco especial no Paraguai e a abordagem superficial dos atrativos do Chile, Uruguai e Colômbia, a conferência pecou pela falta de horizonte mais abrangente. Logo de início, a Argentina já foi posta de escanteio, quando no discurso inicial se falou: “Só teremos clareza na política econômica na Argentina, depois das eleições”. En passant, se falou no Peru. Não se falou no México, nem na Bolívia e nem na Venezuela. Quanto a Cuba, só foi comentado o passo histórico diplomático com os EUA. Jorge Jurado, embaixador do Equador em Berlim, estava presente no evento, mas entrou mudo e saiu calado. Seu país não foi mencionado em qualquer momento no pódio. Surpreendentemente, já que pela pouca relevância geo-política, o pequeno país ter um marketing da agenda cultural muito agressivo, se fazendo onipresente com insessante agenda na capital.

O foco da primeira parte do evento esteve voltado para o país que “antes não existia no mapa”, assim o tom ao mesmo tempo de ironia e orgulho do Ministro Leite. Em filme de 4 minutos e meio, foram exibidas “as qualidades do Paraguai” com um locutor falando em perfeito alemão em OFF. Durante a exibição do filme, as luzes permaneceram acesas. O gesto do Ministro em direção a técnica para apagar a luz e criar um melhor clima, ficou sem resultado. “Pedidos especiais” desse cunho romântico, não tem lugar em solos alemães. Nada extra. No local também não havia lugar reservado para jornalistas. Nem mesa, nem tomada e nem mesmo um lugar com vista livre do palco. Aos jornalistas só sobrou a última fileira, com o background sonoro dos tradutores na cabine logo atrás.

Para ratificar a sua tese do Paraguai como um país promissor, o Ministro paraguaio exibiu um apresentação Power Point mostrando as diferenças nas condições para investimento usando o antagonismo Paraguai X Brasil. Entre os itens mais dicotômicos entre os 2 países que na realidade são impossíveis de comparar, foi a taxa de impostos que, no Brasil, se mostrava imensamente mais alta do que no Paraguai. Decerto que os impostos vigentes no atual governo e o aumento anunciado e que está pra vir, não são atrativos para investimento de firmas estrangeiras, muito menos das alemães. A tradição quase centenária é uma pilastra importante. Sem dúvida.. Mas na hora do dinheiro, o alemão não brinca em serviço e os cálculos são destrinchados na ponta do lápis. Amizade é amizade. Dinheiro é dinheiro. Colocar o Paraguai num patamar econômico totalmente infactível e ilusório, não funcionou. Não foi propaganda enganosa, mas foi ingênuo. Além do mais que, para a minha geração, é no mínimo absurdo que o Paraguai chegue perto do Brasil em qualquer quesito que seja. Sentimentos de pátria à parte, mas os fatos falam por si.

Um clima de lástima pela atual situação do Brasil acompanhou todo o evento. No final, com um filme da Câmera de Comércio de Indústria Alemã (IHK) foi, mais uma vez, colocado o dedo na ferida. Ao exibir cenas do gol de Mario Götze na Final da Copa do Brasil no Templo do Futebol, a voz em OFF e em perfeito alemão, garantia: “Já mostramos que podemos obter sucesso perante a adversários difíceis”. Um tímido “Uhhhhh!!!” pairou pela sala e pelo visto, os presentes acharam a comparação um tanto demais da conta do político correto.

No intervalo da conferência, a Embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti falou exclusivo com o Blog:

FL: Estamos aqui em Berlim numa conferência de grande importância no âmbito da economia e do empresariado alemão. Nesse contexto, foi muito falado da crise político-econômica do Brasil. Qual é a relevância desse evento nesse contexto?

MLRV: Foi uma satisfação muito grande pra mim, notar que o empresariado e o governo alemão, tem uma perspectiva muito positiva do Brasil, apesar das dificuldades pelas quais que estamos passando. A presença de mais de 1400 empresa no pais, há quase 100 anos, é uma evidência muito clara disso. Os investimentos não são feitos de curto prazo, mas com uma visão de futuro. Membros do governo e do empresariado tem reiterado a manifestação de confiança no país, e da certeza que vamos superar as dificuldades e mostram a disposição de investir no Brasil. Essas são mensagens que ouvimos muito claramente hoje, no encontro Brasil-Alemanha em Joinville (SC) na semana passada e também durante as consultações do governo alemão recentemente em Brasília que levou 6 Ministros. É com grande alegria que vemos que a Alemanha é um parceiro estratégico para nós. São nesses momentos, difíceis, que nós vemos o significado dessa parceria estratégica.