Derby entre arquirivais Borussia Dortmund e Schalke 04, o “Campeão por 4 minutos”

Fátima Lacerda

09 Abril 2016 | 23h31

As últimas semanas estiveram tão intensamente focadas no “Jogo do Ano”, no “Jogo dos jogos” entre Borussia Dortmund e FC Liverpool valendo uma vaga nas quartas de final da Europa League, que o Derby entre os arquirrivais Borussia Dortmund e Schalke04, que acontece nesse domingo (10), caiu no esquecimento.

No intervalo do jogo na última quinta-feira, no Respectbar, reduto dos borussianos que vivem na capital, conversava-se e se regozijava sobre esse aspecto inusitado quando se trata de Derby. O último duelo entre os clubes geograficamente vizinhos foi em 08.11.2015 com o Borussia saindo do campo com 3 pontos.

Regionalidade

Para quem está fincado em Berlim e por algum motivo se tornou borussiano, demora para entender a rivalidade entre o BVB de Dortmund e o Schalke04 de Gelsenkirchen. A rivalidade tem tradição. Já uniu, separou, causou brigas homéricas na luta para ser o número 1 da região de Ruhrport que abrange, entre outras, as cidades de Bochum, Bottrop, Dortmund, Duisburg, Essen, Gelsenkirchen, Hagen, Hamm, Herne. A disputa acirrada é sobre quem é o número 1 da região. “O número 1 da região somos nós“, diz uma frase bordada nos casados do Borussia, à venda no Shop do site do clube ou em plásticos colados na traseira de carros. A rixa fica ainda mais pesada quando os plásticos alfinetam : “Scheisse04”, trocando o nome do clube pela palavra “m…04.”. O que da perspectiva de hoje parece totalmente infactível, já foi realidade num passado muito remoto, por volta de 1920. Muitas pesquisas divulgadas em estudos sobre o futebol alemão afirmam que os dois times já foram até amigos, até que em 03 de maio de 1925, na primeira partida entre os dois, com o Schalke saindo vitorioso de 3 X 2, em êxtase comemorou logo no centro de Dortmund, extrapolando o “território”e ferindo o orgulho do time amarelo e preto. Muitos analistas esportivos veem nesse jogo o início de uma rivalidade que dura até hoje e é expressado na violência que envolve, sempre, esse Derby. Um esquema policial especialmente para apartar dos dois grupos de torcidas, que por vezes ainda possuem sub-segmentos como os Ultras do Dortmund, se faz necessário em todos os Derbys.

É tabu mencionar o nome do time azul e branco, da cidadezinha de Gelsenkirchen, retórica que tira a legitimidade, ratificando uma das pilastras da dialética alemã: o que você não conhece, não existe. Um fazer vista grossa bem proposital.

No Brasil, quando quando torcedores de outros clubes se referem ao Clube de Regatas da Gávea, fala-se de “mulambos”. É por aí.

Na rivalidade dos dois times da região de Ruhgebiet, mais popularmente chamada de Ruhrpott e suas peculiaridades e idiossincrasias, quando o coração bate pelo time amarelo vermelho, não se pronuncia o nome do arqui rival.: o que da ainda mais cerol para a rixa entre Dortmund e Schalke é que, que em 60 anos de campeonato da Bundesliga, o timeco de Gelsenkrichen nunca conseguiu levantar a taça da Federação Alemã de Futebol, a DFB Pokal. Em suma: nunca foi campeão desde o início da Bundesliga (1962/63) da forma que ela existe hoje. Como “agravante” também tem os campeonatos conquistados pelo Schalke nos anos cinzentos da história política da Alemanha: 1934, 1935, 1937, 1939, 1940, 1942 e 1958). Como se nada disso bastasse, esse currículo (para dizer ao mínimo) infeliz ,o Deus do futebol, mais lá na frente, seria implacável com o clube de Gelsenkirchen.

Eterna ferida e similaridades com o 7 x 1

Era uma vez uma tarde de sábado do dia 19 de maio de 2001, quando no último dia do campeonato, o Schalke poderia, finalmente, ser campeão da Bundesliga. Para isso, dependia do da partida do FC Bayern contra o HSV Hamburgo, esse, ocupando o décimo terceiro lugar da tabela do campeonato.

O FC Bayern ainda não gozava da hememonia que conquistou nos últimos anos, tornando o campeonato algo previsível e, por vezes, muito chato, quando semanas antes do final do campeonato, o FC Bayern já soma confortável número de pontos que é impossível alcançá-lo na briga pelo troféu de campeão da Bundesliga.

Em tempos de outrora, para alegria e também desespero dos torcedores, o campeonato de futebol alemão era decidido, por vezes, no último dia. Naquele 19 de maio, para aumentar ainda mais o suspense e a dramaticidade, o campeonato foi decido nos últimos minutos da prorrogação do jogo entre FC Bayern e HSV, Hamburgo.

FC Bayern precisava somente do empate para “pegar a taca”. Em casa, Schalke jogava com o Unterhaching, que precisava da vitória para não cair para a segunda divisão. Devido à possibilidade do imprevisto, a Federação Alemã de Futebol (DFB) mandou fazer dois troféus pra garantir que o time que se tornasse campeão naquela tarde, pudesse receber a tão cobiçada Schalle, assim denominado devido ao formato de bacia dado ao troféu.

Na tribuna do jogo do FC Bayern, juntamente com 55.280 torcedores, Beckenbauer, sentado ao lado do ex-presidente da Federação, contava os minutos para o fim do jogo em que o FC Bayern administrava o empate. Enquanto em Gelsenkirchen, com torcedores sentado até mesmo em cima de árvores para não perder o jogo, o Unterhaching fez dois gols logo nos primeiros 30 minutos. Ao contrário da seleção de Felipão na partida contra a Alemanha na Copa de 2014, o Schalke manteve os nervos.

Com gols de Nico van Kerckhoven e Gerald Asamoah num período somente de 89 segundos, o Schalke voltava ao jogo de aço. Nos 70 minutos do segundo tempo, Schalke marcava mais dois gols de Joerg Boehme. Ebbe Sand, então artilheiro da temporada fez o gol número 5 do Schalke no último minuto da partida que terminava com o placar de 5 X 3 para o Schalke contra o Unterhaching, que da forma mais paradoxa possível, é uma cidadezinha da Baviera, um primo pobre do FC Bayern. Os 64.999 torcedores do então chamado Park Stadion, hoje, Arena Veltins, juntamente com os torcedores pendurados em árvores, explodiram. Schalke, finalmente, seria o número 1 da região de Ruhrgebiet, colocaria o arquirrival Borussia “em seu devido lugar” e ainda entraria, finalmente, para a lista de campeões da Bundesliga.

HSV faz um gol contra o FC Bayern poucos minutos antes do juiz apitar o fim do jogo do Schalke contra Unterhaching. Na arquibancada, Karl-Heinz Rummenigge sussurrava no ouvido de Franz Beckenbauer: “Já deu!”, apostando no irremediável.

A determinação do “Titã

Ao mesmo tempo em que o memorável, então emblemático então empresário do Schalke, Rudi Assauer, comemorava dando socos no ar no meio do campo e a torcida não se segurava mais nas arquibancadas e, como um formigueiro humano se espalhava e os fogos de artifício já haviam acionados pela direção do estádio, ainda rolava no campo no jogo entre FC Bayern e HSV, exibido no telão do estádio. Nos 89 minutos do segundo tempo, Sergej Barbarez marca para o HSV. Oliver Kahn, o Titã, corre para o juiz Markus Merke para saber quanto tempo haverá de prorrogação: 3 minutos.

Antes do início do jogo, Kahn havia declarado à imprensa algo que, desde então, se tornou um lema da torcida bávara: “O estádio será todo contra nós. Fora os torcedores do Bayern, toda a Alemanha será contra nós e nós vamos ganhar”, não há nada mais lindo do que isso“.

Kahn, inconformado com o aceitar da derrota do seu time e, mais uma vez se mostrando motivador-mór da equipe, corria alucinado pelo campo, puxava a camisa dos companheiros e gritava: “Continua! Continua!” O FC Bayern tinha 3 minutos para reverter o aparentemente inevitável: a derrota do campeonato da temporada 2000/2001.

Matthias Schober, goleiro do HSV, e como o Deus do Futebol não tolera o acaso, estava emprestado ao clube hanseático exatamente pelo Schalke 04. Por ter pego com a mão a bola de um jogador companheiro na área de penalidade, o juiz marcou o tiro livre indireto. Com aval de Steffen Effenberg, o então capitão do time de Munique, é o sueco Patrik Andersson, que até então não havia marcado NENHUM GOL na temporada, o escolhido. Marca o gol e torna o FC Bayern campeão, ao mesmo tempo em que assina o testamento, aniquila o sonho de 4 minutos do Schalke 04, que até hoje é conhecido e infinitamente zoado pelo título: “O clube que foi campeão durante 4 minutos“, um destino bem parecido com o da seleção brasileira, que por muitas gerações ainda terá que amargar o carma do placar final de 7 x 1 contra a Alemanha na Copa do Brasil.

3 semanas antes dessa partida que marcou para sempre a história do futebol alemão, o suíço Ottmar Hitzfeld, na época o treinador do FC Bayern, havia ganho de um aposentado e torcedor ferrenho do time, um boné de 70 anos que deveria servir como amuleto e que cumpriu o seu papel.

Na coletiva de imprensa na tarde de sábado, o Thomas Tuchel, técnico do Borrusia, declarou: “Nós vamos para a Gelsenkirchen para ganhar”. Dissesse ele outra coisa, a torcida não perdoaria. A retórica no preambulo de Derbys entre os dois rivais tem que ser muito cuidadosa. Qualquer deslize, pode ser fatal e instigar a ira das torcidas. Não importa qual será o placar final do Derby Schalke X Borussia no jogo de domingo (10). A rivalidade permanece.

Links relacionados:

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