Dilma Rousseff em Berlim

Dilma Rousseff em Berlim

Fátima Lacerda

14 Novembro 2017 | 11h05

Dilma Rousseff com o ex-presidente Joachim Gauck na abertura do Ano da Alemanha no Brasil (2014)

No final da tarde desta terça-feira (14) a ex-presidenta estará presente no prédio Henry-Ford Bau da Universidade Livre de Berlim (FU Berlin). Nesse mesmo lugar, em 1999, o ex-presidente FHC recebia o título de Honoris Causa. A FU Berlin foi fundada 04. de Dezembro de 1948 no então setor controlado pelas forças militares americanas e marcou o início do conflito Leste-Oeste, a Guerra Fria.

Convidada pelo o Instituto da América Latina da FU Berlin jutamente com  Fundação Friedrich-Ebert Stiftung ligada aos social-democratas alemães e, há décadas, atuante no Brasil em prestigioso endereço na Avenida Paulista, a ex-presidente conversa em estreita janela temporária com a ex-ministra da justiça, Däubler-Gmelin (75). O título do evento que aconte bem fora do centro da cidade foi agendado para o pacato bairro de Dahlem, parte sudoeste da capital, promete uma discussão ou uma conversa. Segundo informações concedidas por Claudia Freimann, pessoa de contato da Fundação Friedrich-Ebert para assuntos relacionados à imprensa, haverá a possibilidade de perguntas do público, algo que não ficou claro no cartaz de divulgação. Considerando a estreita janela temporária de somente duas horas (17-19hs), não é preciso ter bola de cristal para saber que será tudo muito corrido. “Da escorregada da política para a direita e da politização do Poder Judiciário” é o que consta na divulgação. Consderando as últimas medidas tomadas por Gilmar Mendes, o evento ganhou uma porção extra de atualidade.

Relevância


A visita da ex-presidente a Berlim da seguimento a sua visita aos EUA, na Universidade de Harvard em abril deste ano. Considerando as viagens de Dilma Rousseff acompanhando o também ex-presidente Lula, especialmente pelo Nordeste do Brasil em pré-período de campanha para 2018, a visita de Dilma pode também ser interpretada como um auxílio eleitoral e um intuito de remobilização de ativistas e grupos de esquerda, radicados em Berlim e muito bem articulados nas redes sociais e além das fronteiras da Alemanha. 

Nas redes sociais a mobilização já vem sendo intensa desde o anúncio da visita da ex-presidente. Brasileiros que moram em outros estados do país, também estarão marcando presença no pacato bairro de Dahlem no final da tarde de hoje (horário berlinense +3 hs).

Em conversa ao telefone com Claudia Freimann, ao perguntar como se a ideia da viagem da ex-presidente, ela desconversou: “Nós ajudamos a realizar a viagem”. A ideia teria sido da ex-presidente que teria recebido uma ajuda da Fundação, que sempre foi muito ligada ao Partido dos Trabalhadores no Brasil. “Houve suporte em forma de passagens e hospedagem?”, quis saber. “Detalhes internos como esses, não podemos divulgar”. Aha.

Destino político 

É irônico, para dizer ao mínimo, ter a ex-ministra da justiça, Däubler-Gmelin como anfitriã e parceira de conversa com Dilma Rousseff. A ministra com o nome quase impronunciável ocupou a pasta durante o governo Schröder e caiu em desgraça quando, no contexto da Guerra do Iraque, numa ocasião em que discutia com 30 sindicalistas e em presença de um jornalista do jornal regional “Schwäbisches Tagesblatt”, esse, documentando tudo em seu caderninho, ela teria comparado os métodos de Bush, com os de Hitler.

Däubler-Gmelin desmentiu e garantiu numa ter feito tal comparação, mas teve que renunciar. Foi a palavra do jornalista e de alguns sindicalistas presentes na roda contra a da ministra. Ela, que assim como Dilma, já andava na mira da mídia. Nesses casos, um erro pode ser fatal. No caso de Dilma, os erros e a falta de soberania foi incontáveis.

A ex-presidente brasileira tinha a legitimidade do voto e cometeu o erro capital em se banhar na zona de conforto e fazer vista grossa com a oposição que estava sendo articulada para lhe esfaquear. Dilma, cercada por péssimos conselheiros se sentiu segura demais pela força do voto enquanto na câmera e no senado as articulações para derrubá-la iam de vento em popa.

As duas mulheres une o destino certeiro de mulheres que querem se manter no alto escalão da política. Däubler-Gmelin por falta de cuidado e frequente destempero e Dilma Rousseff pela teimosia como também pela perda da chance de unir os movimentos sociais resultantes dos protestos de 2013 para fortificar seu respaldo na base da sociedade.

Para se manter, longamente, no alto escalão da política, mulheres precisam fazer uso do método merkeliano: formar um grupo em torno de si que é fiel até os dentes, articular o tempo todo, ter certeza de que o inimigo mora ao lado e dormir de olhos abertos

Nas duas últimas visitas do ex-presidente Lula a Berlim (2012 e 2015) o parceiro de diálogo foi, respectivamente o social-democrata Frank-Walter Steinemer, na época Ministro das Relações Exteriores e hoje Presidente da República e pela Secretária Geral do Partido Social-democrata (SPD, na sigla em alemão) em visita em dezembro de 2015 à central do partido, quando prometeu “ir às ruas para defender Dilma da aventura golpista”, que viria na sequência, numa intensidade e velocidade jamais vistas na recente história do Brasil. Outra ironia é que Lula foi a desgraça de Rousseff e a esquerda brasileira, que nunca conseguiu se emancipar do seu mentor e do seu mais eficiente cartão-de-visitas. A prova mais incontestável disso, foi a tentativa de colocá-lo como Chefe da Casa Civil em março de 2016, quando seu governo já agonizava e respirava por aparelhos. Gorbachev já havia ensinado poucas semanas antes da queda do Muro de Berlim: “Quem chega tarde demais, é punido pela história”.

Links relacionados:

http://www.fes.de/de/referat-lateinamerika-und-karibik/artikelseite-lateinamerika-und-karibik/einladung-zur-veranstaltung-mit-dilma-rousseff-und-herta-daeubler-gmelin-141117-1700-h-fu-berlin/