Ed Motta em Berlim: sereno, de musicalidade sofisticada e sem “Manuel”

Ed Motta em Berlim: sereno, de musicalidade sofisticada e sem “Manuel”

Fátima Lacerda

15 Julho 2017 | 19h25

O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído” diz uma música do universo e cosmos titânico.

Sexta-feira, dia 14, tinha uma outra agenda que não era o show de Ed Motta em Berlim. Porém uma co-incidência, tanto bem-vinda como matemática, me fez me deixar levar pela inusitada reviravolta que o dia tomou. E não me arrependi.

No mês de julho, vários artistas marcam presença na capital:

Além de Ed Motta, sábado (22) tem Emicida e domingo (23) Nação Zumbi.

Dessa vez, o show de Ed Motta não foi na Casa das Culturas do Mundo (2014), nem no clube de jazz mais elitista da capital, o A-Trane (abril de 2015), mas no “Quasimodo” no contexto da “Summer Jazz Week” (11-16.07.) semana que iniciou com a saxofonista Candy Dulfer, passa por Ed Motta e Stanley Clark.

Tempos de outrora

Na época da cortina de ferro o “Quasimodo” era o Olimpo musical de Berlim no tantinho de cidade que era a parte ocidental. Quem ali se apresentava, lugar pertinho da ex-Estação Central de Trem, tinha “chegado lá”: Carlos Santana, Mílton Nascimento, Nils Landgren, Mick Taylor, Marcus Miller, Marisa Monte, Danilo Caymmi foram alguns que presenciei no palco.

Na Berlim capital e reunificada, o “Quasimodo” não é mais o Top local, mas ainda um porto a ser procurado por amantes do jazz, da música de qualidade e Insiders da cena musical da cidade.

Voltando ao “acaso”

Depois de presenciar singela e linda cerimônia de troca de jóiais musicais em forma de Vinil (!) entre Ed Motta eo radialista alemão, Thorsten Bednarz, esse obcecado pela música brasileira e para quem eu traduzi a entrevista de Caetano Veloso numa tarde de verão muito fria na cidade portuária de Hamburgo, norte da Alemanha lá atrás em 1993. Foi um reencontro em dobradinha. Com o famoso tijucano, com Torsten e tudo, nada planejado. Pedi permissão para “eternizar o momento”. Torsten quitou a pergunta com um imedidato “Claro!”. De Ed Motta, bastou um sorriso solícito.

Talento de peso

Você pode achar o que quiser do sobrinho do mais famoso síndico do Brasil. Porque ele posta no Instagram fotos de deleites culinários, ou porque ele, em vídeio, se declara “deprimido” pelo terremoto político pelo qual passa o Brasil ou porque ele bate pra patota que não vai tocar “Manuel” na turnê do exterior. Vamos combinar: talento de Ed Motta é incontestável: na voz, interpretação, sonoridade e sim, raízes tijucanas e que, de vez em quando, sim, embarcam na Conexão Japeri, mas quando ele quer.

Seu projeto do início de 2017 tocando com a Big Band da Radio da região de Hessen (Hessischer Rundfunk), da qual a capital é a metrópole financeira Frankfur, é um, especial aval de qualidade para o seu trabalho e que lhe da especial referência na Europa. A imensa tradição das Big Bands, o caráter hermético de um “Clube de Excelências musicais” das formaçoes que gozam de subsídio de cofres públicos dos respectivos estados, torna restrito a lista de nomes convidados para cantar ou tocar. Maior legitimação musical para solos alemães, impossível.

Claro que pode-se ficar frustrado, ansioso e um tanto seco e desesperado para ouvir “Manoel” ou (a minha preferida), “Fora da Lei” para “matar a saudade da terrinha”, mas Ed Motta não é embaixador cultural no senso estrito. Ele é artista. É também de opinião e, não são poucas as vezes, joga pra fora do gol, joga tudo no ventilador, polemiza, se redime e a bola volta pro campo e o jogo continua. Faz parte.

Os músicos – Uma babilônia

O quinteto de Ed Motta enquanto em turnê pela Europa forma um Melánge musical geográfico, interessante, para dizer ao mínimo, com destaques especial para os músicos Matti Klein, de Berlim, com seu habitual boné de francês de quem volta da padaria com uma baguete debaixo do braço é matemático. Que suingue, tem esse cara !!! Ele dá uma pincelada de requinte à sonoridade, digo, é a camada do bolo musical do tijucano se desdobrando entre piano, teclados e também direção musical. Outro destaque do quinteto é Yoràn Vroom, holandês e que estudou bateria no Conservatório de Amsterdã e, de tal forma introsado, que parece que já toca com Ed a vida inteira. O guitarrista é da Finlândia. O baxista, francês.

O ódio em toda a parte

Se é Seu Jorge que vem pra Berlim fazer o show “Aqua Life” e, ao invés da “Burguesinha” e das deliciosas “Músicas para Churrasco” 1 &2 ele performa músicas em inglês, você não ouve nenhum alarde, ninguém sai fazendo motim contra ele na internet. Pelo contrário. O público se alegra com a presença do artista e chega lá aberto para descobertas musicais e se supreenden quando ele da uma palinha de Bossa Nova. O efeito colateral resultante da declaraço de não tocar “Manuel” foi a ausência da cena brasileira de Berlim que permanece depois de 2 anos da discussão polêmica.

Muitos, dentro e fora do Brasil, perceberam em 2015 (e ainda hoje percebem) a negação de tocar “Manuel” nos shows como uma negação da própria brasilidade, como um “virar as costas” para a pátria amada (ou menos amada), Brasil. Definir critério de “o que é ser brasileiro?” e e “brasilidade”, da perspectiva de solos brasileiros e da perspectiva de solos estrangeiros não poderia ser mais dicotômico e mais complexo. 

O conflito aflora certeiro, principalmente na diáspora e ainda mais numa sociedade hermética como a Alemanha, que torna a ânsia de ouvir “joias musicais da terrinha” totalmente entendível! É uma necessidade muito orgânica. O que não tem cabimento, é dar ao artista, seja ele qual for, a responsabilidade pelos próprios anseios e saudades e crucificá-lo quando ele não corresponde às expectativas.

Quando, nos últimos dias, frente a uma linda praia da Costa Azul francesa, Ed Motta postou um vídeo se dizendo “muito deprimido” com a barganha de cargos e com a situação política do Brasil ele foi, imediatamente tachado de “petista”. Começava uma lavação de roupa suja que ele se viu tendo que se justificar, com um outro video, alegando que nunca votou “no PT” e que não é “nem de direita, centro ou esquerda” e está mais para “um anaquista”.

Don’t worry…

No momento em que uma outra voz privilegiada, Bobby McFerrin, decidiu, em definitivo, nunca mais cantar “Don’t worry, be happy” a irritacao foi grande, mas Robert Keith Mc Ferrin Junior, manteve posição e pode, assim, deslanchar todo o seu perfil de acrobata da voz (já também delineado em “Don’t worry”, faixa na qual ele fez, na voz, todos os instrumentos, mas sem o compromisso com a indústria do disco e sem a predominância da língua americana. Com essa decisão, Mc Ferrin quis se libertar de correntes de mercado, de “ditaduras culturais” e da imagem reduzida e unilateral. O que veio depois, foi, nada menos que gigante. Um Mc Ferrin livre, solto para voltar às suas raízes africanas e para passear em sua convencida percepção de que cantar, todos podem. Simples assim.

O que “desqualifica” o sobrinho de Tim Maia, seja não seguir rigidamente a linha do tio ou mesmo não querer ser mais um artista brasileiro no exterior de dialética previsível e (por vezes fatigante), mas falar de suas influências resultantes as séries de TV, falar do “Casal 20” e do seu amor pela culinária e pelos vinhos. Quem vai ao show de Ed Motta sabe disso. Esses Takes estarão sempre ali. Faz parte do Portfolio. Quem não gosta não vai. Assim fez a cena brasileira de Berlim que está, em peso, em outros shows.

©A. Ferreira

O público alemão adora exatamente a desestruturação do “previsível exótico brasileiro” e Ed Motta o consegue fazer, sem que o valor cultural de seu trabalho fique comprometido. As risadas não são solícitas para protocolo, são autênticas e o vozeirao também tem seu talento de um Entertainer frustrado.

“As séries “Magnum” e “Casal 20” que em alemão se chama” inicia a “apresentacao” enquanto para e lança um olhar para o pianista berlinense Martin que, como diretor musical que se preza, levanta do banquinho se curva em direção à figura estática e lança “Hart aber herzlich”. Com o barulho não da pra ouvir, mas tanto faz. A seriedade com que ele fala sobre o penteado de Robert Wagner, e ressalta o sobrenome tanto com sotaque inglês como com sotaque alemão, leva a plateia, em sua esmagadora maioria composta por alemães, a momentos de entretenimento, numa mistura de zoar a forma de fazer Show business dos americanos que enchem o saco com o tal “I love You” toda a hora e um humor sempre no nível top. Ao mesmo tempo, Motta tem seu momento antropofágico, ou seja, usa dos instrumentos do “colonizador” ou de sua referência e influências para criar a sua própria dialética, seja através da ironia, do humor ácido, da caricatura, do sarcasmo ou qualquer outro discurso ou mesmo, durante o “Momento Merchandising” infiltrando, de forma linguísticamente adaptada e reduzida, um velho Slogan da Sears: “Satisfação… garantida” , arrancando risadas do püblico .

Brasilidade e Antropofagia

Na mesma entrevista com Caetano Veloso, mencionada no início desse texto, ele delineou em duas frases a brasilidade em sua forma emancipatória. É mais um desses deliciosos acasos, que exatamente essa entrevista, na qual eu fui a tradutora ao lado do radialista que, depois de 27 anos reencontrei, serve de fonte para descrever a brasilidade, tao questionada na pessoa e no artista Ed Motta: “Quando o índio comeu o português colonizador, ele fez a sua antropofagia. Ali nascia a brasilidade“. A brasilidade de Ed Motta não é a minha, nem a sua e nem aquela que vem pra Berlim e acha que as hierarquias da classe alta carioca continuam imperando numa cidade de tradição revolucionária e avessa à hierarquias como Berlim.

O repertório

As músicas do show tem uma ordem de apresentação ousada. Lá pro final do show, especificamente umas 4 músicas antes do término, foi tocada uma música difícil, de caráter super intimista e com orquestração econômica e reservada. Lá no canto do bar o barulho era grande. Ed Motta deu uma de Caetano Veloso que não pestaneja em parar o show para chamar atenção, do tipo “ai, ai, ai!”. Olhando para o lugar de onde vinha o burburinho e ANTES de iniciar a execução da música, em inglês para berlinense nenhum botar defeito, ele mandou: “Desculpa ai, se a nossa música está atrapalhando vocês” e enquanto está ajeitando os teclados diz: “É mais barato ir para um bar!“. A execução da música, de aproximadamente 5 minutos foi o momento mais ousado e também mais difícil do show. Depois de passado mais de uma hora num ambiente de porão, um calor e abafado do tipo do Amazonas e um ar bem fino, dá para pensar em capitular ou ativar a disciplina prussiana.

Ao todo foram 3 músicas em português. O resto todo em inglês, incluindo o obrigatório gag sobre as diversas maneiras de se pronunciar o nome Ed Motta. Pacientemente e sem esconder o deleite em fazê-lo, o sobrinho de Tim Maia ressalta as particularidades da pronúncia em carioquês, em francês (Ed Motá), em italiano, acrescentando e não escondendo o orgulho “a gente tem origens italianas na família”, enquanto elevava o tom para o agudo máximo e espaçoso, tão imprescindível para o uso autêntico da língua italiana. Por fim, não poderia faltar num período de tempo XXL, a zoação dos americanos. Entre os muitos jovens músicos espalhados pelo “Quasimodo”, um música atrás de mim, gritou “E como os berlinenses pronunciam o seu nome?”, mas o volume não chegou até ao ouvido do tijucano.

©Jorge Inácio

Comida & Música

Quem conhece as contas do Instagram e do Facebook de Ed Motta sabe que, além de um músico de talento, literalmente, estrondoso, ele é crítico de música e também Gourmet. Vinhos, iogurtes, pratos principais etc. Tá tudo ali. A cozinha berlinense é rústica, pesada e na tem nada de sofisticada. Entre uma das palinhas culinários, contextualizadas, claro, ele mandava de vez em quando: “Boulette, eu adoro boulette”, o bolo de carne de boi à moda berlinense, que pode ser acompanhada de chucrute ou de um pão branco duro e dormido. Vale lembrar que Berlim foi solo de guerras e de extremas miséria e por isso, não há frescura de comer só o recheio do biscoito ou deixar a metade do prato cheio. Da Boulette, Ed falou umas tres vezes, sempre enquanto ajeitava os teclados preparando os efeitos a serem usados na próxima música. Num país infestado de gordo fobia como a Alemanha, Ed Motta usa da estratégia que o ataque é a melhor defesa ou simplesmente para “quebrar o gelo” e faz o coquete consigo mesmo. Em tom perto do filosófico, na última menção do bolinho de carne à moda berlinense, ele mandou: “Salsicha curry” (Currywurst) é Eric Clapton. Boulette é Jeff Beck!” e ainda complementou: “Eu gosto do Clapton, sim, o Jeff Beck…”.

Na conversa informal antes do show entre Torsten, Ed Motta e Fátima Lacerda , falamos de momentos com os gigantes da música, entre tantos eu com B.B.King em Montreux, o Torsten com Toots Thieleman e Ed Motta com o guitarrista a quem falta adjetivos para descrever sua genialidade: Jeff Beck.

A imprensa brasileira me pediu para entrevistá-lo. No início, ele foi um tanto reservado, mas eu cheguei lá mostrando discos dele antes do Yarbirds e ele ficou instigado!”, revela com voz de uma paixão por discos que, provavelmente, vem desde os tempos de miúdo.

Necessidade de rótulos

Os rótulos ajudam a muitas pessoas a encachotarem melhor seus mundos. Alguns deles, medíocres, outros amedrontados e inseguros. É natural do ser humano. Mas especialmente no Brasil, a necessidade de rótulos e de comportamentos previsíveis é uma mazela que vem crescendo ainda mais depois do intransponível antagonismo entre quem é a favor e quem é contra o PT.

Ed Motta se permitiu e se permite ser diferente do síndico e ter uma individualidade, o que, sem qualquer dúvida, é muito mais realizável na Europa, lugar onde se respeitam limites de espaço físico e metafórico. Enquanto os europeus se deliciam com esse cara brasileiro porra-louca e que gostava do “Magnum” e canta músicas de fossa dos anos 70, a fração radical da internet continua teimando, apostando nos rótulos.

Entre os, ao todo, 5 shows que presenciei de Ed Motta

1996 em Paris acompanhado da tecladista Delia Fisher em sua banda e dividindo o palco em shows com Geraldo Azevedo e Luis Melodia

2012 no restaurante do Hotel “Stue” SPA e de 5 estrelas, na área verde de Tiergarten em Berlim

2014 na Casa das Culturas do Mundo, no dia fatídico do 7×1

2015 no A-Trane

Em casa show, Motta exibia uma fase diferente de sua carreira e nuances em forma (guarda-roupa, equipe de produção) e conteúdo.

O show no Quasimodo em 2017, surpreendentemente, revelou um Ed Motta mais descolado, centrado sem estar sendo monitorado por ASPONES ao seu lado, ou aqueles “produtores” que acham que devem servir de “muro”do artista aproveitando a onda para darem um Up na auto-estima.

O próprio Ed deixava seu laptop com a recepcionista do Hotel, cumprimentava amigos que chegavam, conversava sem risadas compulsivas de outrora e o melhor de tudo expressava além da natural inquietude de um artista, serenidade e pé no chão mesmo confessando estar um pouco nervoso antes do show.

No final do show, já depois da meia-noite, eu tive que sair de imediato. Ao passar pela porta de saida, já vislumbrei Ed Motta sentando no canto para, logo, iniciar a sessão de autografos e (claro) Selfies com o público: “Temos um material de Merchandising ai, super baratinho, que me faz chorar“, disse ele, em tom sarcástico, durante o show .

Geralmente, aconselha-se ao artista, um mínimo de uma pausa no camarim antes de ir até aos fãs.

Em seu recente show “Aqua Life” na capital, Seu Jorge deixou a galera brasuca esperando por mais de uma hora. Já Ed Motta, estava lá, firme e forte. Eu passei rápido por ele, agradeci e, mesmo meus ouvidos sentidos falta de um sinistro solo de guitarra que tem em “Fora da Lei”, me alegrei com surpreendente acaso de um dia, inusitado.

Durante todo o sábado, se fosse em disco Vinil, a faixa “Fora de lei” da minha biblioteca do I Tunes teria furado.

Na fileira de trás, na hora do Bis, um brasileiro ousou pedir: “Fora da Lei!”. De olho nos teclados e nos efeitos, Ed respondeu: “Você vai me desculpar. Mas essa não está ensaiada, mas a próxima vez…” .Se a música estava ensaiada ou não. Se ele quis tocar ou não, não interessa. Ed Motta saiu elegante e o brasuca que pediu, respeitou. Sem mimimi.

As próximas estações da turnê na Europa são:

19.08.2017: Hollanda – Rotterdã (Arp Frique / Festival MAGIA)
22.08.2017: Londres (Jazz Café)
26.08.2017: Suíça – Auvernier (Auvenier Jazz Festival)

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