Festival “11 mm”: dobradinha Cinema e Futebol com homenagem a Johan Cruyff

Festival “11 mm”: dobradinha Cinema e Futebol com homenagem a Johan Cruyff

Fátima Lacerda

03 Abril 2017 | 12h40

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No centro de Berlim, atrás de Alexanderplatz, o cinema Babylon exercita teimosa resistência à era dos Multiplex e cinema de Shopping. Inaugurado em 1929, com um filme mudo chamado “Fräulein Else” e 1.400 expectadores presentes na fase final dos efervescentes “Anos Dourados”, o cinema serve, desde então, de palco para pequenos e médios festivais de cinema com uma programação para berlinense nenhum botar defeito.

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Pela décima quarta vez acontece no cinema Babylon o festival „11mm“, na super dobradinha cinema e futebol, o único nesse formato na Alemanha é, nesse formato, o maior do mundo.


Hefte

A edição 2017 faz homenagem ao mito, jogador e treinador holandês, Johan Cruyff (1947-2016), aquele que, quando na ativa, resgatou o orgulho catalão na partida contra do FC Barcelona contra o arquirrival Real Madrid e isso durante a ditadura de Franco, que proibia os catalães de falarem seu idioma e praticar suas regionalidades. A vitória do Barça de 5 x 0 contra o Real Madrid na temporada 1973/74 em plena ditadura foi a resposta, o Underdog Catalônia contra o centro da Ditatura, Madri e o que faltava para que Johan se tornasse mais do que um Deus do Futebol, mas virasse um santo, adorado até hoje na Catalônia.

17554003_10155373013268690_6488256064050099409_n©Stephanie Fiebrig

O „11 mm“ que tem uma equipe de 3 curadores (da esq. para direita Christoph Gabler, Birger Schmidt, Andreas Leimbach-Niaz) é evento obrigatório no calendário cultural de Berlim, para aqueles que amam a irresistível dobradinha cinema & futebol.

Na edição 2017 houveram erros e acertos na programação e, inusitadamente, só contou com 1 filme de produção brasileira, „Barba, Cabelo & Bigode“, vencedor do festival primo do 11mm, o Cinefoot, do qual diretor é Antonio Leal, há anos, parceiro do „11mm“ .

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A noite iniciou com os Vikings islandeses e o filme “Como um vulcão: a ascensão do futebol islandês”. O diretor Saevar Gudmundsson teve permissão de acompanhar a seleção dos Vikings durante o período de jogos classificatórios para a Copa do Brasil (2014) e para a Euro Copa na França (2016). Ninguém sabia que aquele filme teria tal importância depois de dois anos.

O embaixador da Islândia, Martin Eyjólfsson, prestigiou o evento e, junto com o treinador, saciou o desejo de todos os presentes: não o de fazer o La Ola, coisa do passado, mas de fazer o ritual que ficou mundialmente famoso durante a passagem triunfal do país do eterno gelo, pelo torneio na França. “Vamos fazer só duas vezes, porque já estamos cansados”, disse o treinador em tom de tá avisado! Na foto abaixo, o técnico e o diretor do filme no saguao do cinema.

17553902_10155373015668690_390524488399434770_n©Stephanie Fiebrig

Pela sua expressão do rosto de Heimir Hallgrímsson que também é dentista praticante, não foi difícil imaginar quantas vezes esse ritual já teve que ser repetido. Naquela noite em Berlim, fomos todos Islândia, o país que até bem pouco tempo era somente conhecido por ser o Habitat da cantora de elektro-vanguarda Björk e por vulcões em erupção.

WiedieIsländermacheb_n©Stephanie Fiebrig

Erros

Barba, Cabelo & Bigode“(120′)

Um dos maiores erros da programação do festival foi agendar para domingo às 22:00 horas, a exibição do filme, dirigido por Lucio Branco e também vencedor do Cinefoot em 2016“.

Pelé, o início de uma lenda”(107′)

O filme dos diretores americanos Jeffey Zimbalist e Michael Zimbalist tem como produtor o próprio Rei Pelé, o qual os alemães, até hoje ainda continuam teimando na pronúncia errada de “Pelê!”, assim como o ator Rodrigo Santoro como produtor associado. Lendo os créditos depois do filme e descobrindo quem está por trás do financiamento da obra, ficou claro porque tanto equívoco e tanta falta de brasilidade no desenrolar do argumento. O maior paradoxo de todos num filme insuportavelmente mal resolvido é que o Plot principal é sobre a discrepância entre a forma dos europeus e os brasileiros jogarem futebol, esses com a “Ginga”, e que como explica o olheiro do Santos Futebol clube, vivido por Milton Gonçalves. Os atores falam inglês com muito sotaque e as falas não convencem.

O único motivo (se é que há algum) para entrar no cinema e assistir a esse filme é pela atuação de Seu Jorge, como pai de Pelé e figura-chave em sua tragetória. Jorge abdica dos longos diálogos. Por sorte, num filme por demais enfadonho, mal resolvido como obra cinematográfica, previsível e que ainda tem o verdadeiro Rei Pelé numa cena que lembra uma imitação mal feita dos filmes de Hitchcock, que de vez em quando, “deslizava” pela câmera, o filme fica devendo no quesito autenticidade. Somente as cenas finais projetadas do lado esquerdo da tela, enquanto os créditos são exibidos no lado direito, instigam o interesse faltante durante toda a projeção. Essas imagens são documentárias dos dribles e jogadas fenomenais do jogador do século.

PELE

PELÉ

No cinema de uma tarde ensolarada de sexta-feira (31.03) haviam somente 15 pessoas. Não houve apresentação antes nem discussão depois do filme. Também nenhum dos diretores nem ninguém do festival apareceu. A repercussão entre jornalistas não poderia ter sido pior. Pergunta-se como que um filme desses pode parar na lista do “11 mm”, um festival que brilha pela qualidade na programação.

Como se não bastassem os inúmeros defeitos que o filme apresenta, a trilha sonora se deixa seduzir pelo aspecto do “exótico” colocando, de forma inflacionária, batuques de tribos ou algo que os americanos acham que se pareca com o Brasil.

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O Deus Johan!

A homenagem ao ídolo do Barcelona tem pompas e circunstâncias na apresentação e na discussão no final da exibição, mas não convenceu com os filmes apresentados, a nao ser com o curta-metragem “Horacio & Johan” de 10 minutos, sobre o fotógrafo Horacio Seguí (87) que passou a vida inteira eternizando os momentos do jogador e acabou se tornando a memória fotográfica do FC Barcelona. 

Um escultura, exibida no hall de entrada do cinema, relembra o ídolo.

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Acertos!

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The Other Kids”, (85′) é o primeiro filme do diretor espanhol Pablo de la Chica e conta a história sobre crianças de Uganda, vivendo em total miséria e conta sobre a determinação de um treinador, Anthony, que decidiu dar uma “casa” a essas crianças, conduzindo-as pela vida e pelo campo de futebol, em sua maioria, um terreno usado como lixão no país africano.

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Reagan, na época com 5 e hoje com 9 anos, tem o sonho de ser como Fernando Torres.

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As crianças, que treinam com fome e só comem arroz quando um dinheiro extra entra no caixa sublinham (com a delicada cinematografia do diretor) que futebol já deixou de ser um jogo de campo, mas é sinônimo de dinâmica de grupo, de inclusão, participação e reconhecimento social.

A jornada pela qual De La Chica nos leva é de uma dureza incomensurável, ao mesmo tempo uma lição de humanidade e de teimosia e com a triste notícia no final do filme que o técnico Anthony foi vítima de uma de uma avalanche e foi carregado pelo rio em Uganda e faleceu em 2016.

No filme, os aspirantes à jogadores de futebol estão sob cuidados de outro treinador, informou De la Chica. Mesmo com tanta miséria e uma tragédia real, o filme é inspirador pela teimosia dos protagonistas de uma história de luta e superação e que ainda está longe de ter um final promissor. De la Chica anunciou que irá viajar para Uganga, onde terá exibicao do filme para as comunidades que participaram. 

Pabloüberarbeitet©Stephanie Fiebrig

“The Other Kids” é um dos favoritos para levar o troféu “11mm” na cerimônia de prêmios a ser realizada na noite de segunda-feira às 19:30 horas (14:30 horário de Brasília).

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Chutando por Sócrates” (91′)

Era chegado o dia em que a Irlanda do Norte disputaria as quartas de final contra o Brasil na Copa do México. Durante o jogo os canhões cessaram. O futebol uniu católicos e protestantes frente a TV. A ideia era fazer história, só que no time da Seleção Canarinho tinha um fumante convulsivo um atento filósofo e um brilhante jogador. O Dr. Sócrates. O menino protagonista do filme de um roteiro enxuto, um argumento coerente além de um cuidado absurdo com o figurino da época, incluindo o do assento da poltrona que leva à equipe da Irlânda do Norte para o estádio coleciona, meticulosamente, figurinhas da Seleção Canarinho em seu álbum, onde a do Dr. Sócrates, claro, não poderia faltar. Todo o cotidiano no preâmbulo do dia do jogo é sobre as peripécias futebolísticas em todos os âmbitos. Apesar do trauma do 7 x 1 é sempre um colírio perceber como o futebol brasileiro influenciou inúmeras gerações e países, independente de crenças, normas e convicções políticas.