Filarmônica de Hamburgo: seis anos de atraso, valores astronômicos e a busca da perfeição acústica para “Elphie”

Filarmônica de Hamburgo: seis anos de atraso, valores astronômicos e a busca da perfeição acústica para “Elphie”

Fátima Lacerda

07 Outubro 2017 | 14h30

©AFP

A Filarmônica da cidade portuária de Hamburgo, popularmente apelidada de “”Elphie” era para ser a menina dos olhos no Skyline da linda cidade hanseática e, popularmente, devido sua tradição de comércio, chamada de “Porta para o mundo” (Das Tor zur Welt).

Em julho de 2005, o plano era que a cidade de Hamburgo entrasse no empreendimento de parceria público-privada com a quantia de 77 milhões de euros. Hoje se sabe que a Elbphilharmonie, com esse nome porque está à beira do Rio Elba, construída num ex-armazém de condimentos, custou à cidade 789 milhões. O dossiê formado por uma CPI, contém incertezas, erros crassos e números astronômicos. Nele constata-se que, ao todo, juntando os valores do setor público e privado, a obra de igreja que foi inaugurada com seis anos de atraso, teve seus custos explodidos para 866 milhões de euros. Hoje, a construção ocupa o décimo segundo lugar da lista dos prédios mais caros do mundo.


A mistura de erros de planejamento e orçamento se deu num triângulo infeliz composto pelo Senado de Hamburgo como construtor representado pela empresa ReGe, pelos arquitetos do escrito na Basileia e construtora Hochtief. Como os contratos eram separados, cada um trabalhava por si, sem unidade na hora de constatar e resolver problemas. Foi preciso uma comissão parlamentar de inquérito para constatar que ReGe não estava dando conta do abacaxi e a cabeça de seu chefe, na época, rolou. O ápice do perrengue e daquilo que tornara Hamburgo chacota em todo o país, ocorreu quando a empresa Hochtief interditou o terraço, alegando “falta de segurança”. Depois disso, a obra parou durante um ano, enquanto empresas, de trabalhavam de forma contraprodutiva fato que possibilitou o caos, brigavam nos tribunais.

Com seis anos de atraso, o prédio ficou pronto no final de 2016 e no dia 11 de janeiro de 2017, a acústica tinha sua primeira prova na abertura oficial com a presença do Presidente da República, do prefeito de Hamburgo e dos arquitetos, além de vários convidados especiais. Na programação, entre outros, obras dos grandes Mestres, Ludwig van Beethoven, Felix Mendelssohn Bartholdy e Johannes Brahms.

©Oliver Heissner

O complexo histórico

Além da Filarmônica a construção que fica em cima daquela do então maior armazém do porto de Hamburgo com 19.000 metros quadrados de superfície de uso esse armazém era o único que podia ser acessado diretamente pelos navios. Desde 1875, nele era armazenado chocolate em pó, chá e tabaco. Depois de severamente atingido pelos bombardeios da II Guerra Mundial, ele foi implodido em 1963.

©Maxim Schulz

Arquitetura

A assinatura da construção assim como o acompanhamento durante o longo período que a Filarmônica precisou para se tornar uma realidade é dos arquitetos suicos, Pierre de Meuron, Jacques Herzog e Ascan Mergenthaler.

Dois deles abriram o escritório de arquitetura na Basileia em 1978. Em seu Portfólio, além da Filarmônica de Hamburgo, estão o a Galeria de Arte Contemporânea Tate Modern em Londres, a Arena Allianz em Munique (Estádio-Casa do FC Bayern) e o Estádio das Olimpíadas de Pequim de 2008.

A entrada já é uma aventura. A escada rolante e seu demorado trajeto é o só o início de uma longa viagem de ida e de volta à saída.

©Michael Zapf

Acústica

O japonês Yasuhisa Toyota, um dos mais renomados do mundo nesse setor e que também é responsável pela acústica do Suntory Hall em Tóquio e do Walt Disney Hall em Los Angeles se eternizou também na concepção e realização da acústica da Filarmônica de Hamburgo. A parte externa, dependendo da luz, espelha partes da cidade e do porto em sua superfície e o prédio “respira”.

©DPA

Entre todos os outros, esse é o ápice da construção. Um verdadeiro deleite auditivo. Também o aspecto visual não deixa a desejar. No teto da sala principal está pendurado no teto uma composição gigante com o formato de um disco voador e do mesmo material que se usa na caixa de ovos. Cada parte, cada parede da sala teve seu recorte de papelão feito especificamente.

©AFP

Não é “somente” um efeito visual vislumbrar as nuances e as “ondas pontudas”. Uma sensualidade, literalmente, à flor da pele é escolher um cantinho e sentir com a palma da mão a delícia acústica, de aparência nada espetacular, mas de concepção e realização sofisticadas pelo esmero na forma e conteúdo do papelão considerando a predisposição acústica de cada cantinho do salão principal.

Quando vislumbrei, pela primeira vez em visita guiada em junho deste ano, a roupagem acústica, rudimentar e sofisticada ao mesmo tempo, me instigou profundamente. Nathalie Ruoß, responsável pelas relações midiáticas e que acompanhava os jornalistas na visita “seca” com somente o som do ensaio dos músicos, foi meu alvo de fonte de informação. Quis saber de tudo em torno da “instalação com a textura de caixa de ovos”.

O salão principal

2.100 pessoas cabem no salão que oferece a mais modera técnica de acústica existente no mundo atualmente.

A minha primeira experiência auditiva sensorial na Filarmônica de Hamburgo foi em 08.09. num concerto protagonizado por Bill Murray(1950) e atuante em “Encontros & Desencontros” & ”Vida Aquática”,e o violoncelista Jan Vogler, com quem Murray teria feito amizade em Nova Iorque, assim a info divulgada no prospecto do evento daquela noite de 08 de setembro.

Uma noite com Murray recitando versos de poetas americanos (M. Twain, E. Hemingway, W.Whitmann, A. Miller) e raríssimas vezes cantando com o acompanhamento da banda é, de fato, um desperdício para uma das melhores acústicas do mundo. Ao interpretar “”It Ain’t Necessarily So” de George Gershwin entre outras pouquíssimas canções, ficou ainda mais claro, o desperdício desse tipo de show na Filarmônica. A música no video foi o Bis do eventoque durou uma hora e meia.

Para o ator foi, decerto, um Up em seu vasto currículo que agora exibe uma apresentação em palco europeu que é um templo de música clássica. Para a plateia presente, um toque de Hollywood em plena cidade hanseática. Usando de tom diplomático e sabendo de todo o escândalo envolvendo os custos astronômicos da “Elbphilharmonie”, Murray acariciou a ferida dos hamburgueses na plateia, em tom de incentivo: “Vocês podem ficar orgulhosos. Essa sala é realmente sensacional, angariando uma brisa de alívio, palpável, no ar.

Westin Hamburg

Do lado leste da construção fica o hotel Westin Hamburg, que além de 224 quartos e suítes, oferece um bar, um restaurante, espaços para Spa e congressos.

A plataforma “Plaza”

Mesmo com o tempo, tradicionalmente, nublado (senao chuvoso) da cidade hanseática, a plataforma de 37 metros é acessível para todos: hóspedes do hotel, visitantes da Filarmônica, mas acima de tudo um Must para quem visita a cidade portuária.

O acesso é gratuito, porém é preciso pegar um ingresso no “Centro de Visitantes”, (Besucherzentrum) do outro lado da calcada da Filarmônica. A vista sobre toda a cidade assim como poder constatar o aspecto gigantesco do porto é, para dizer ao mínimo, de tirar o fôlego, incluindo o cantinho reservado para fumantes, lugar obrigatório em visitar, mesmo para quem nunca fumou como eu. A vista é a mais linda de todas: o Porto de Hamburgo e a Skyline aos seus pés em altura estonteante.

 

 

https://www.elbphilharmonie.de/en/