Luiz Melodia: nesta noite, o meu coração está na Lapa, no Circo Voador

Luiz Melodia: nesta noite, o meu coração está na Lapa, no Circo Voador

Fátima Lacerda

08 Novembro 2017 | 22h27

Na noite de quarta-feira (08) no antro musical da boemia carioca haverá uma noite Memorial. O Circo Voador na época da ditadura um oásis e ligar de intervenção urbana e resistência já promovia shows que entraram cara a história da capital carioca. Pra mim, em tempos muito remotos, presenciei um show do Capital Inicial. No final do show, fui ao camarim já “armada” com um cartaz de divulgação da Radio Cidade e peguei autógrafos de toda a banda. ‘Qual e o seu nome?” perguntou Dinho antes de se eternizar no cartaz que hoje.” Fátima”, respondi coma timidez característica daquela época.” Nesse momento o camarim era só festa e confraternização. Tantos outros shows voltaram. E um ritual, sempre que estou para voltar para Berlim, ter uma despedida musical (de preferência na Lapa). Seja na Fundição Progresso ou na tenda do Circo. Nando Reis, Maria Rita, Lenine, Paulinho da Viola e Titãs ou os Engenheiros do Hawai no palco estéril  e frio do Vivo Rio.

Hoje, o Circo estará sob a luz e aura de Melodia, o Negro Gato, o Rei do Estácio, o Magrelo que personificava a voz do morro de São Carlos e que, com imprescindível teimosia sublinhada no verso “Nunca mais vou parar de cantar, nunca mais! Nunca mais. Nunca mais vou parar de cantar!“” O reconhecimento merecido, em âmbito nacional e internacional veio bem tarde. O sonho de ser chamado pelo “Rei” para participal do “Especial de fim de ano”, nunca se concretizou.

A primeira lembrança que tenho de Luiz é do som que vinha vitrola da minha Mãe. Dessa mesma vitrola vinham sons de Belchior, do Maluco Beleza. Nos sábados pela manha era certeiro e obrigatório, as musicas do Rei Roberto Carlos para o desespero de Iara, a senhoria que morava no andar de cima. Cresci entre músicos. Meu primo foi uma talentoso baterista, meu primo Patrick iniciou super bem e foi no Circo Voador que pude me convencer de seu talento. Depois ele desbancou para o setor de finanças. O meu tio e guitarrista da memorável banda “Os Selvagens” da Aeronáutica e que continua balançando os bairros da periferia do RJ. A minha carreira de cantora iniciou no karaokê dos domingos na casa de um dos meus tios, que comprara o equipamento para treinar sua própria voz, ele que sonhava um dia, ouvir sua voz nas rádios e liderar as paradas de sucessos. Para isso cogitava pagar até jabá. “Eu vou chegar na rádio e vou perguntar. Quanto é que custa para tocar a minha música?”. Ele nunca chegou lá, mas continua tentando.

Paris 1996

Foi na capital francesa que conheci Luiz Melodia pessoalmente. Viajei especialmente de Berlim para Paris para conhecê-lo. Na época conhecia Kátia, assistente de produção. Eu estudava Gestão Cultural e meu sonho era empresariar artistas. Melódia (como o chamam os mais chegados) seria o primeiro artista da nata brasileira, mas logo notei que o caminhão era muito grande pra minha carroça naquela época.

Lá conheci Guto França, o produtor do Luiz e aquele no comando da produção da noite de homenagem que acontece hoje, no centro boêmio do RJ, na tenda e nos pé dos Arcos da Lapa, no Circo Voador.

Como nada é por acaso e a vida é um circulo de coincidências, Cassia, a produtora que, na época levou três artistas para shows na capital francesa num clube de Jazz pertinho da Estação de Metro La Villette, chegara em Paris com gás que havia armazenado em suas atividades anteriores no Circo Voador. No Portfólio de Cassia estavam também Ed Motta, na época com Délia Fischer na bagagem para comandar os teclados e Geraldo Azevedo.

Desde Paris eu nunca mais perdi o Luís de vista, especialmente através de Guto, que se tornara um elo e um amigo e o continua até hoje. No início da manhã já logo enviei mensagens recheadas de nostalgia e choramingando dizendo estar com o coração no Rio de Janeiro e na sofrência por não estar no Circo Voador. Não consigo realizar que o Luiz desapareceu pra sempre. Eu acho que ele vai aparecer da esquina dizer que foi por ai, levando um violado debaixo do braço e que “perdeu a hora”.

Foram tantos encontros: Em Paris, quando voltando de um jantar depois do show numa espaçosa Van com toda a tropilha, sugeri aos músicos irmos nas catacumbas de Paris, lugar imperdível na capital. “Eu hein, vou nada!!!”, esbravejou ele no banco da frente da Van enquanto me olhava aterrorizado. Os outros músicos foram e adoram o caráter inusitado das catacumbas localizadas quatro metros abaixo da superfície e que contam a história urbana de Paris.

No Réveillon de Copa em 1999, no show na Barra, no Festival de Jazz de Montreux em 2004 onde Luiz demorou demais para se apresentar, apesar da existência de fim de semana de MPB que marcava a chegada de muitos artistas brasucas à beira do Lago Lemán.

Anos depois, numa entrevista exclusiva depois da passagem de som e antes do show (2012)que aconteceria em Berlim, eu levei ele e Jane Reis, sua esposa, para um restaurante Sushi no bairro de Prenzlauer Berg. Passamos a tarde toda juntos e eu na paúra do Luiz acabar de passar o som e o Christian não chegar a tempo para fazer as fotos. No fim, deu tudo certo. Depois fomos para um restaurante de Sushi no bairro de Prenzlauer Berg, pertindo do local do show para fazermos a entrevista. Ao pedir os diferentes tipos de Sushi e querer saber, detalhadamente, tudo sobre eles, Luiz quase levou o atendente alemão para bem perto de um colapso nervoso. O alemão não está acostumado (e nem mesmo conhece) o formato de “pedidos especiais” ou mesmo delongas na hora de fazer o pedido. Foi nessa tarde que fiz a entrevista exclusiva e vivenciei, um dos melhores e mais ricos momentos da minha vida, em todos os âmbitos possíveis.

A primeira parte da entrevista, eu nao encontrei nos arquivos, porém uma parte dela consta aqui.

http://www.dw.com/pt-br/do-est%C3%A1cio-para-o-mundo-40-anos-de-luiz-melodia/a-16076371

Hoje, acometida de uma saudade absurda e de uma vontade ainda maior de estar no Circo Voador na noite de hoje, conferi a entrevista e, de novo, me encantei com a autenticidade do discurso ao mesmo tempo em que me supreendi com a atualidade do discurso, mesmo depois de passados cinco anos.

Ainda depois desse encontro em Berlim, seis meses depois, já no Rio de Janeiro, o Guto me chamou para ir com a equipe para São João de Meriti. Luiz teria uma apresentação no Sesc. Passando a tarde toda ali, percebi o clima do Divino, o bairro retratado na novela “Avenida Brasil”. Já durante a passagem de som, a fila na escada e no jardim do Sesc não mostrava mais fim. A comunidade estava toda lá e até hoje eu nunca me conformei que a bateria da câmera acabou e, por isso, só foi possível uma mínima palinha.

Depois do fim do show, dois carros voltariam para a Zona Sul do Rio. Como eu e Guto queriam comer um cachorro quente (e para mim esse hábito me lembrava dos tempos de moleca), o Roadie ficou uma fera. Não estava a fim de esperar. Entre a conversa vai e vem com o dono da carrocinha, eu vislumbrei o Rodie e seu longo cabelo que lembrava o do Bob Marley, se distanciando cada vez mais da carrocinha até sumir na noite escura do subúrbio. Sem dar um pio. Sem olhar pra trás. Eu achei aquilo estranho, mas preferi a opção da boca de Siri. Quando finalmente haviamos deliciado o Cachorro Quente e Guto já contava com o táxi chegar a qualquer momento, comecou a chamar “Leo!, Leo!”. O Roadie estava p. da vida em esperar e preferiu pegar o buzão. Já quando estávamos no táxi, eu, Guto e um outro Roadie do qual não me lembro o nome, Guto tirou do bolso um dos seus dois celulares e ligou: “Onde é que você está?” Logo na sequência, uma voz consternada.”Você foi embooooora, rapaaaaaaaaaz?!” dizia ele com voz de quem acabara de sofrer uma desfeita. No banco de traz do taxi ,eu fazia de um tudo para não soltar gargalhadas homéricas sobre a cena novelística-melodramática que presenciava. Afinal, em solos luteranos, melodrama é algo inexistente. Depois de mais umas duas exclamações, Guto resignou, e no resto da viagem até a zona sul, ele se deu por vencido e não se falou mais sobre isso. Dialética carioca em seu ápice. Vida que segue. Numa outra tarde, estive na casa de Renato Piau e sua esposa, Renatinha e depois de, juntando toda a minha coragem e encher o saco do anfitrião, ele cedeu e topou me dar a chance de uma canja com “Farrapo Humano!, que ficou imcompleta no vídeo, mas inesquecível para a minha retina e meus ouvidos e de certa forma, sempre foi uma homenagem ao Luiz e ao Macalé, autor da música. 

 

Enquanto eu até hoje e nesse momento me delicio com essa expressão de imperfeição e flexibilidade, Guto e Jane, Renato Piau (vulgo Piali) prestam a homenagem ao Negro Gato no Circo Voador, solo que ele em 2012 teve um show memorável com o indomável Jardes Macalé. Me lembro que na época, massacrada pela diferença de fuso horário de 5 horasa, fiquei a noite toda no Twitter esperando um video, uma foto, qualquer coisa que me fizesse participar daquela noite que juntara duas almas gêmeas no âmbito musical. Meses depois, Macalé veio a Berlim apresentar seu filme, que tinha participação especial do Melódia e eu me reconciliava com o acaso. 

A última vez que estive com Luiz foi em São João de Meriti, no camarim no final do show onde fizemos uma foto.

No roteiro da noite desta quarta-feira no Circo Voador, digo, o primeiro ato, o poema feito por Jane Reis será lido por Elisa Lucinda. Uma parte dele diz assim:

“Se tivesse um avião

E eu pudesse ir

Cortando esse céu azul todinho

Montada num sonho

Atravessando as nuvens

E te encontrar

Se tivesse um avião que tivesse a viagem inversa

Servia também

Desde que pudesse ser nós de novo”

 

 

Luiz morreu. Viva Luiz!

Entre os convidados a homenagear o Negro Gato estão Elba Ramalho, Frejat, Alceu Valenca, Picassos Falsos, Flávia Bittencourt, Omar Salomão e Quinho, Duda Brack, Zezé Motta, Geraldo Azevedo, Jonas Sá (cantando Ebano), Martinália.

Instigada com a falta de Jardes Macalé na lista dos performistas, perguntei para o Guto. “Como é possível?”. Pensava no Jardes cantando “Meu pisante colorido, meu cavalo lá no morro, meu cachorro paraíba””Ele hoje tem um show em São Paulo, mas escreveu um poema que será lido pela Elisa Lucinda.

Hoje é um desses dias que meus pés queriam pisar em solos cariocas e homenagear aquele que, pra mim, antes de desencarnar, já era imortal.

Me lembro quando assitia Marília Gabriela se pronunciando sobre a morte de Elis e seu inconformismo sobre a partida tão trágica e tão prematura da maior cantora que o Brasil já teve. Mesmo três meses passados depois da morte do Luiz, eu ainda me recuso a acreditar que esse vozeirão agora está em outro plano e em dupla com a Cássia cantando “Juventude transviada”.

A cultura, música e cinema, artes plásticas é o que nos redime e nos impede de sucumbir no medíocre, do senso estrito, o mundo ficou mais medíocre sem Luiz. É nessas horas que a sabedoria mexicana pode auxiliar. Na ocasião da morte, os amigos e parentes fazem festa, com dança, comida e muita música para celebrar o morto e louvá-lo. No Circo Voador é isso que acontecerá. Um louvor. Uma celebração e que, depois de passada a dor dos primeiros meses, se torna um consolo.