Jazzfest Berlin 2017: erros crassos de programação com poucas jóias musicais

Jazzfest Berlin 2017: erros crassos de programação com poucas jóias musicais

Fátima Lacerda

07 Novembro 2017 | 22h20

A programação desse ano do JazzFest Berlin deixou a desejar em vários quesitos: em termos de qualidade e em termos de curadoria, nos últimos tres anos assinada pelo jornalista, crítico e publicista Richard Willians. O inglês, decerto, não será lembrado com um divisor de águas do festival berlinense. O último ano de curadoria gentleman Willians foi cheio de boas intenções, porém cheio de péssimas escolhas. A ideia em juntar bandas de Londres e Berlim como nota política, já que no próximo ano as duas cidades estarão, geopoliticamente, em diferentes continentes, foi com as melhores intenções, mas como se sabe; delas, o inferno está cheio…

Em todos os anos que frequento o festival, outrora como aspirante de cantora, de cantora e depois de jornalista, eu nunca vi algo tão ruim como a banda apresentada no “Prime-time” do sábado à noite (04): Nels Cline Lovers, uma formação de estudantes de música alemães que acabaram de terminar a faculdade. A sofrência insuportável durou mais de duas horas naquilo que parecia um ensaio de orquestra quando se está afinando os instrumentos. Nenhuma unidade em nenhum âmbito: nem musical, nem de energia. Parecia um penca de músicos solitários no palco sem saber exatamente o que ali faziam. Entre os críticos e jornalistas e sensação era de consternação e a sáida de penca da tribuna de imprensa para tomar uma cerveja, fumar um cigarro ou simplesmente livras os ouvidos daquela tortura musical. Eu, que nunca saio de um show, senti um mal estar que se alastrou pelo meu corpo inteiro, uma coisa muito orgânica. Não consegui persistir ali mais do que 30 minutos, e esse foram os mais torturantes de todas as edições do Jazzfest que eu já presenciei até hoje.

Deleites escondidos

Na noite de quinta-feira (02) a Big Band da emissora NRD, agora sob a regência de Geir Lysne, um norueguês cheio de suingue e estilisticamente ousado proporcionou aos presentes um deleite musical.

No final da noite, no chamado Side Stage, a radialista da BBC World Service e cantora Mônica Vasconcelos, paulista radicada em Londres foi o melhor complemento da feliz noite já iniciada pela NDR Big Band. Um paradoxo aos anos anteriores. O primeiro dia do festival e sua sala tradicional no pacato bairro de Wilmersdorf foi o melhor dos cinco dias de duração.

©JazzFest/Camila Blake

No sábado, depois do amargura musical em forma de um ensaio muito mal estruturado, “Doutor” Loni Smith, o novaiorquino de 75 anos entrou de bengala com a formacao de trio e depois de dar uma saída para que Xavier Breaker pudesse fazer seu solo na batera, voltou ao palco, desta vez sem bengala e com um baixo que era mais fino do que o cabo de uma vassoura, mas tinha um beat instigante (para dizer ao mínimo), além de nos remeter para o deserto do Saara com um Beat jazzístico misturado com a musicalidade seca do baixo-vassoura.

©JazzFest/Camila Blake

Mônica Vasconcelos e a lembranca musical de tempos sombrios

A paulista trouxe para Berlim uma safra de músicos igualmente virtuosos e apaixonados. Não “somente” pelo que fazem, mas apaixonados pelo trabalho da radialista correspondente da BBC.

O Side Stage palco para ousadias experimentos estilísticos que tomam como referência o Jazz e com capacidade para acomodar até 200 pessoas estava lotado. Ao redor do palco, almofadas confortáveis para os menos elitistas e mais desprendidos. “Abre Alas pra minha folia” entoava enquanto eu me dirigia para o Side Stage. Tudo o que o show do sábado à noite, o horário nobre ficou devendo em sintonia, unidade, paixão e tesão, a banda de Mônica trouxe. Arranjos matematicamente alinhavados pela maestria de Steve Lodder, encurvado sob as teclas do piano.

Ife Tolentino: guitarra

Andrés Lafone: baixo elétrico

Yaron Stavi: contra-baixo

Marius Rodrigues – bateria (no programa impresso escrito erroneamente “Rodrigue”

Ingrid Laubrock: – saxofone

©JazzFest/Camila Blake

O show teve roteiro meticulosamente preparado. O posicionamento dos músicos no palco, com Lodder quase escondido no escanteio do lado esquerdo, o baterista estrategicamente escondido pelo próprio instrumento. O foco era para ser na cantora e na tela que exibia documentos históricos sobre a ditadura militar enquanto Mônica arrendondava com composições de músicos da época (entre eles Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco & Aldir Blanc, Gonzaguinha, Geraldo Vandré), com especial destaque para o compositor Taiguara.”A ditadura arruinou a carreira dele”, explicou Mônica antes de executar a música.

E como os alemães gostam de tudo nos conformes e tudo mais mastigado possível, Mônica se mostrou preparada. Antes da execução das músicas, o texto em alemão era lido pelos músicos que dominam a língua de Schiller e Goethe. “Que diabo de banda é essa em que músicos de Londres falam alemão?” assim o ímpeto que me acometeu. Depois do show, enquanto aguardava Mônica receber abrações e beijos do público e uma expressão de grande carinho e respeito do britânico Williams, aproveitei para falar com o Yaron Stavi, elegante, certeiro e muito chique no contrabaixo e que leu a tradução de uma música em alemão e do the german way. Fazer a pergunta que fazem os alemães quando se veem irritados, suprerendidos com algo que não encaixa na gaveta. “Aonde você aprendeu alemão?“. Com pouquíssimo sotaque, o simpático que conversara com um ex-colega de universidade, revelou: “Eu fiz faculdade de música aqui!” “Aonde? “Na Academia das Artes, hoje, Universidade das Artes”, disse ele não escondendo orgulho em tom solícito e esbanjando simpatia.

Entre o número inflacionário de agradecimentos feitos por Mônica no palco, havia na lista, os tradutores, a equipe de som, os músicos e a fotógrafa Rosa Gauditano, especializada em fotografia indígena e foto reportagem e que disponibilizou as fotos de grande valor documentário sobre outros Brasis e sobre a parte mais cinzenta de sua história, a ditadura militar e resistência nas ruas.

A atual situação política de cunho trágico e de desabamento de premissas e crenças tidas como intocáveis, não foi tema na apresentação da paulista. As faixas com a escrita “Fora-Temer” e seus respectivos coros não se manifestaram, algo que causa estranhamento.

Depois do show, já depois da meia-noite, Mônica falou exclusivo com o Blog:

FL: Como você se sentiu no clime intimista do palco “Side Stage”. Você ficou surpresa. Gostou?

MV: É uma delícia ter a plateia em volta. Esse espaço é um prazer para qualquer músico. O espaço é criado, desenhado, traga o seu trabalho. É muito legal. O palco é desenhado para que a música seja o foco. Ter um espaço pensado para a música, é muito raro. Esse festival não tem como ficar muito melhor: em termos de profissionalismo e de nível. Eu estou muito orgulhosa de estar aqui, trazer essa banda com esses músicos incríveis.

©Imagem no telão: Rosa Gauditano/©Foto: JazzFest/Camila Blake

As fotos projetadas no telão são de Rosa Gauditano?

Ela é bastante conhecida Brasil, inclusive como fotógrafa de índios. Ele morou muito tempo com tribos indígenas acompanhando vários rituais. Ela conhece cultura indígena muito bem. Ela é uma fotógrafa das minorias, dos povos invisíveis. A gente pretende fazer um trabalho mais consistente com a Rosa. As fotos retratam o Brasil durante a época da ditadura. Ela, na época, era uma fotógrafa independente. Não era veiculada a nenhum jornal. Ela detém os direitos das fotos.

Por que a exclusividade em tratar somente da época da ditadura militar e não tematizar a atual situação política do Brasil. Você achou que isso tornaria o show político demais?

O projeto iniciou 2014 com o aniversário do Golpe Militar. Eu escolhi músicas que ajudaram o Brasil a resistir aquele golpe. Eu não tinha ideia (!!!) de que o mundo seguiria pelo caminho que seguiu e o Brasil muito menos. O que eu acho é que as músicas são cada vez mais necessárias e relevantes. Eu não tinha ideia. Essas músicas são pra sempre! Os compositores que fizeram essas músicas pagaram um preço altíssimo pela arte deles. Pelo que eu entendo, pelo menos um dos compositores foi torturado. A carreira do Taiguara foi destruída pela ditadura. Todos os discos dele eram banidos. Um por um. Algumas das letras foram alteradas por conta da censura, mas as músicas são eternas. Eu acho, que essas músicas falam de temas que são universais e são muito além dessa coisa de direita e esquerda, dessa dicotomia. Essas são para qualquer ser humano que tem o coração no lugar. As mensagens dessas músicas pra mim são canções de liberdade, amor, justiça.

©Foto: JazzFest/Camila Blake

Aqui na Europa, todo artista brasileiro que se apresenta, existe grande expectativa e curiosidade do público brasileiro e alemão sobre um posicionamento concernente a situação política atual do Brasil. Você sente por parte do seu público uma expectativa que você fale sobre esses temas?

Olha Fátima, eu prefiro não me pronunciar. Eu prefiro que as músicas falem por mim. Não é possível que metade do mundo esteja certa e fica achando que a outra metade está errada. Ao dá pra você ouvir uma música como “Angélica” que foi inspirada na história da Zuzu Angel, não dá pra você sentir a dor da Zuzu Angel. Se você observar essas composições (da época da ditadura), essas músicas falam de Direitos Humanos.

Qual é a expectativa que você tem em relação a Berlim já que é a sua primeira visita?

Eu tenho vontade de vir morar em Berlim. (Risos). Berlim é espetacular. É uma cidade que tem um tamanho bom. Eu senti aqui uma grande apreciação pela cultura

 

São Paulo Tapes

O disco lançado em 03 de novembro pele selo Movas Music e que é resultado de um esforço vindo de um financiamento coletivo, tem composições que remetem à ditadura militar. A produção é de Robert Wyatt.

Minhas favoritas

Entre todas as 10 músicas, Mônica faz deslumbrante interpretação com “Disparada“, de Geraldo Vandré, ponto alto também no show, em versão bem mais reflexiva e melancólica do que a gravada no disco.

Abre Alas” de Ivan Lins como música de abertura teve uma versão mais eletrizada e energizada no show do que no disco. Outro exemplo de visceralidade presente em doses cavalares no show e bem menos no disco, a nota político-social do fabuloso Gonzaguinha com “Comportamento Geral”: Em executar a música o “você merece” tinha uma conotação neo-liberal-capitalista selvagem e um sarcásmo de causar frio na espinha.

Você deve notar que não tem mais tutu

e dizer que não está preocupado

Você deve lutar pela xepa da feira

e dizer que está recompensado

Você deve estampar sempre um ar de alegria

e dizer: tudo tem melhorado

Você deve rezar pelo bem do patrão

e esquecer que está desempregado

A saideira

Como não poderia ser diferente e não menos lógico por falar do estado temporário ou definitivo de ser imigrante e se ver no estrangeiro, “London London” do ex-exilado Caetano Veloso fechou o show. Um deleite musical De LUXE foi Steve Lodder no piano.

Enquanto a interpretação do baiano Caetano nos causa um frio na espinha ao ouvi-lo descrever em descrever a terra estrangeira com um olhar misturando curiosidade, receio e surpresa, a interpretação do ex-RPM Paulo Ricardo é sublinhada da sensualidade e dos segredos do desconhecido e o tesão que é desvendá-lo tendo o risco como algo bem-vindo. Na voz de Mônica, “London London” traz uma insustentável leveza de alguém que relata um cenário esteticamente bonito e onde tudo se encontra no lugar em que deve estar. “London London” é uma metáfora para qualquer solo que possa parecer estrangeiro: Paris, Madagascar, Casa Blanca, Rio de Janeiro.

A edição de 2017 do JazzFest não entrará para a história dos melhores. A NRD Big Band, o Doutor Loni Smith e, last but not least, Mônica Vasconcelos foram o melhor da última edição realizada por Richard Williams, dos quais a maioria dos críticos e jornalistas não sentiram muita falta.