Luís Urbano: um agitador pelo cinema português autoral

Luís Urbano: um agitador pelo cinema português autoral

Fátima Lacerda

08 Abril 2017 | 18h24

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Imagine uma pessoa obcecada por cinema, não aquela de só ficar na sala de projeção e passar o pente fino das cinematecas, mas aquela pessoa teimosamente focada no cinema como um sinônimo de cidadania, de inclusão e participação social, em suma: alguém que vê o cinema como um utensílio de grande impacto político e social e isso tem tradição na cinematografia portuguesa.

O mestre Manoel de Oliveira, que está sendo homenageado a partir deste sábado (08) e durante todo o mês de abril no cinema Arsenal em Berlim, tinha um atento olhar para os lavradores, para os operários. No seu filme “Porto da Minha Infância” (2001), filme de abertura da Retrospectiva ele filma os operários saindo do prédio a ser construído em sua cidade natal, o Porto, a eternizando naquele ano quando foi Capital Europeia da Cultura.

Luís Urbano é um dos mais importantes produtores de filmes portugueses autorias e de alta qualidade, mas o amante da capital lisboeta é mais do que isso: é um agitador, um carro-chefe sempre quando se trata de se posicionar, de levantar uma bandeira. Luís já alcançou tal mérito e visibilidade no âmbito europeu como também no Brasil que não é acometido de quaisquer necessidades em ficar em cima do muro com medo de perda de benefícios ou tráfico de influência. Pelo contrário. Quando falo com jornalistas portugueses sobre o mais influente produtor de cinema português, a expressão de respeito e admiração, mesmo não assinando tudo em baixo do que ele pleiteia, é unânime.


Em solos lisboetas…

Quando estive no final do ano naquela que se tornou o caldeirão turístico da Europa, tive a chance de encontrá-lo para uma café à beira do Tejo durante o período mais tranquilo do calendário anual: Na rebarba do ano de 2016. Do Cais do Sodré, zona turística e da boemia lisboeta, passamos pelo “A Camponesa”, restaurante de encontro de cineastas e obcecados pela Sétima Arte. O dono, Miguel Falcón, sai do restaurante, avista Luís e a confraternização acontece ali mesmo no meio da rua. O filho do dono, trabalhou no filme “Lisbon Story” de Wim Wenders. O assunto lá é só cinema e culinária. Um delícia de lugar!

Na ocasião de minha passagem pela mais agradável cidade da Europa, conversamos sobre filmes, pessoas especiais desse ramo, com quem dividimos amizades, cumplicidades e momentos inesquecíveis. Demos muitas risadas sobre o único assunto conversado: cinema.

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Combinamos uma entrevista para durante a Berlinale, que teria presença maciça do Creme de la Creme do cinema português autoral (entre eles, Salomé Lamás, João Salaviza, Diogo Costa Amarante). Porém o início do ano trouxe um grande desafio para o setor audiovisual independente.

WIN_20170213_155603übwz  Salomé Lamas presente com “A coup de grâce” na mostra de Curtas da Berlinale2017

Cenário Berlim

O apelo de João Salaviza mostrara resultados e o cinema português esteve representado com 9 filmes na edição 2017 da Berlinale, a maior participação do país em toda a história do festival, o que foi motivo suficiente para que a organização do festival publicasse um comunicado, especificamente, chamando atenção para esse fato.

Encontrar Luís nos corredores do Mercado Europeu de Filmes (EFM, na sigla em alemão) no burburinho insano rotineiro durante a Berlinale foi bem diferente do cenário de Lisboa, não pela urbanidade nem pela paisagem, mas pelo andar do relógio e pela corrida contra o tempo de todos que estão ali.

A uma horinha de entrevista se tornara realidade no stand dos filmes portugueses, onde fiu ao seu encontro. Quando se quer saber a quais anda o cinema português, Luís é o cara. Sua maior luta, no momento, é conseguir evitar a regulamentação da lei do cinema e do audiovisual proposta pelo governo de Antonio Costa, que assumiu governo em 2015 depois de vencer as eleições de 04 de outubro daquele ano e que conta com o apoio do Bloco de Esquerda e do partido comunista.

Para a grande surpresa da classe do setor audiovisual, o atual governo não “somente” não quis reverter medidas questionáveis tomadas pelo governo de coalizão de centro-direita PSD/CDs-PP que o antecedeu, mas decidiu torná-las mais acirradas, gerando a ira e revolta do setor.

Mesmo depois de 2 meses depois do final da Berlinale 2017, uma brilhante e também premiada passagem do cinema português pelo maior festival de público do mundo, o drama concernente à política cultural portuguesa ainda não teve o desfecho desejado por mais de 500 assinantes da carta divulgada em fevereiro. Entre os realizadores estrangeiros da “Carta de Protesto e Solidariedade” estão representados diversos países e dois do mais relevantes diretores brasileiros não pestanejaram em se solidarizar com seus colegas.

Argentina: Lucrecia Martel

Brasil: Walter Salles e Kléber Mendonça Filho

Espanha: Pedro Almodóvar

França: Costa Gavras, Mia Hansen-Love, Christophe Honoré, Agnès Jaoui, Leos Carax, Phillipe Garrel e Frédéric Bonnaud, Diretor da Cinemateca Francesa.

Itália: Gianfranco Rossi

Romênia: Cristian Mungiu, Andrei Ujica

Entre os assinantes portugueses da carta,estão:

Associação Portuguesa de Realizadores

Sindicato dos Músicos

Sindicato dos Profissionais do Espetáculo e Audiovisual (CENA)

Festivais de cinema, como o Curtas de Vila do Conde e o Doclisboa

Realizadores: Marco Martins, Leonor Teles, João Salaviza, João Canijo e Salomé Lamas; Atrizes & Atores: Beatriz Batarda, José Raposo, Rita Loureiro e Maya Booth.

Produtores, programadores; montadores e argumentistas

Vale mencionar, que Pandora da Cunha Telles, produtora portuguêsa de grande influência que é produtora do lado portugês do file “Joaquim”, co-produção brasileira exibida na mostra competitiva da Berlinale, perguntada por mim durante a coletiva do filme, desconversou e tentou sair pela tangente alegando: “Todas as medidas novas causam, primeiramente, estranhamento”. E paradoxo é que uma co-producao no formato de “Joaquim” foi possiblidade com o formato de diversidade pleiteado por esmagadora maioria dos realizadores em Portugal.

Entenda

As 11 associações profissionais criticam na proposta governamental, em particular o trâmite envolvendo a nomeação de júris dos concursos de fomento da arte audiovisual independente e sobre a ação da Secção Especializada do Cinema e Audiovisual (SECA), é um órgão colegial que integra nos termos do artigo 6º do Decreto Lei n.º 126 A/2011, de 29 de dezembro, o Conselho Nacional de Cultura, órgão consultivo e, até agora, sem vínculos obrigatórios no determinante da política cultural do país. Os realizadores, alguns também membros da SECA são da postura que essa incumbência deve ser, exclusivamente, do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para que seja garantida a diversidade e independência nas escolhas do projetos a serem fomentados.

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Em entrevista exclusiva, Luís Urbano conversou com o Blog em Berlim:

FL: Quando o curta-metragem “Rafa”, do diretor português João Salaviza, foi premiado com o “Urso de Ouro” na Berlinale 2012, ele ofereceu o prêmio ao governo português como um voto de confiança para que o cinema português não sucumbisse. Na época, temia-se o fim do fomento do filme português, como um todo, e o discurso de agradecimento se tornara um grito de alerta para o cinema português que ecoou no mundo inteiro. Como esta a situação do cinema autoral português hoje?

LU: Em 2012 era o início da crise financeira. Portugal estava e ainda está nas mãos dos credores. Vivemos um inferno com o governo da direita fanática marcado pelo desenfreado desemprego, num tempo de escuridão, governado por uma coalizão de direita e de horizonte pequeno.

FL: Portugal está, há 2, anos, sendo governada por uma aliança de forças de esquerda e com estável maioria no parlamento. Isso influenciou, de forma positiva, o fomento das Artes Cênicas?

LU: Os contribuintes, as operadoras da Telecom portuguesa exploram os serviços de TV a cabo. O atual governo acha que membros dessas empresas devem fazer parte do processo de decisão sobre os filmes que devem receber fomento. Achamos que isso não e correto.

FL:Qual a critica concreta que a classe cineastas faz ao Ministério da Cultura?

O Estado não que assumir o seu papel de promotor da politica cultural aplicada ao cinema, mas quer partea-lá e até mesmo passa lá para interesses privados. Nos queremos que haja uma postura de Estado, o Instituto de Cinema (comparável à ANCINE no âmbito brasileiro), tenha os instrumentos necessários para prosseguir a política de apoio e fomento desta industria, desta atividade cinematográfica e atividade de audiovisual de produção independente e para isso tenha todos os instrumentos essa que permitam a regulamentação dessa atividade para garantir a diversidade que sempre a característica e marca principal do cinema português, e não ceder aos conchavos, não ceder as milícias, nem comissões que avaliam os projetos, constituídos por milícias, por grupos de interesse representam os grupos de interesses econômicos. Queremos uma clara posição das coisas. O Ministro da Cultura até nos convidou para fazer parte desse conchavo, nesse coletivo, nessa estrutura que nomeia as personalidades que irão tomar as decisões.

FL: Essa medida no âmbito político vindo de um governo de esquerda com base confortável no parlamento, surpreendeu o setor?

LU: Ai a nossa indignação redobrada. Aqui, não se entende porque não somente reverteram, mas também agravaram.

Já houve conversas com o Primeiro-Ministro português e com o Ministro da Cultura, mas, por enquanto, ainda sem resultados e definição.

Capítulos decisivos – O ápice do conflito

No dia 07 de abril, a Secção Especializada do Cinema e Audiovisual (SECA) realizou uma reunião com o intuito de botar a mão na massa e nomear os júris para julgar projetos em 2017 e o que, de fato, resulta numa privatização do ICA. Já que a SECA apresentou uma lista pronta que precisaria ser votada, num jogo sórdido de cartas marcadas que lembra bem o exemplo lamentável no Brasil com os membros da comissão para escolher o filme a representar o Brasil na corrida pelo Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Uma palhaçada. Um ritual indigno à cultural de qualquer país. Esse exemplo lamentável que ocorreu no Brasil e o que acontece, atualmente, em Portugal mostra de forma claríssima como é de importância-chave as pessoas que decide sobre fomentos e sobre potencial de visiblidade de obras destinadas ao público.

Entre os membros que compareceram à seção, se negaram a votar e tiveram que deixar a sala, estão

Filipa Reis, em representação da APR (116 realizadores associados)

Tiago Silva, em representação do SINTTAV (110 associados da área do cinema), CENA (400 associados) e STE (300 associados)

Salette Ramalho, em representação dos Festivais, Cineclubes e entidades do setor ( 31 cineclubes, 16 festivais, 4 entidades do sector)

Luís Soares, em representação da Associação dos Realizadores de Animação, TRUCA (24 associados) e

Luís Urbano.

Como informa o portal “Cenas Sindicato” a SECA escorregou na irregularidade com essa nomeação, já que trâmites necessários ainda não estão delineados e muito menos fixados para a abertura dos editais de 2017 “nem sequer, a aprovação da portaria de extensão de encargos que lhe permite usar a dotação orçamental para garantir o funcionamento” dos editais, como publica o portal.

Parece estar na moda, governos e secretarias tentando passar medidas duvidosas e cheias de segundas intenções na encolha, ou como atualmente no Brasil, na calada da noite em seções noturnas do Congresso Nacional.

A luta por grêmios compostos por personalidades que garanta a diversidade das artes visuais em Portugal ainda vai dar muito pano para a manga. Expoentes da área político-cultural se mostram a favor do pleitear da “Carta de Protesto e Solidariedade”, mas estão receosos em dar a cara pra bater e ficam na reserva. Cultura, como utensílio e que define a identidade de um país, precisa de político e cabeças pensantes que lutam de peito aberto. Sem conchavos. Sem jogo sujo. Sem fazer pacto com o diabo. Para isso é preciso muita coragem, determinação e, acima de tudo, não ter o rabo preso com ninguém ou como prescreve um ditado popular alemão: “Não ter cadáveres escondidos no porão”, qualidades essas que Luís Urbano, une e agrega. O cinema autoral português não poderia ter melhor advogado, melhor companheiro de luta para agitações e intervenções culturais. Decerto que, por vezes, o comedimento é a diplomacia se mostram bons conselheiros, mas não com uma ameaça iminente de uma vertiginosa mudança de paradigma, de um bem cultural de valor incomensurável: a garantia da diversidade do cinema português, que não pode e nem deve cair na incumbência de grupos que tem bem outros interesses além do cinema autoral de qualidade.

Links relacionados: Aqui você confere a lista, na íntegra, dos assinantes da Carta de Protesto e Solidariedade.

http://www.doclisboa.org/2017/noticias/carta_protesto_solidariedade/

 

http://arsenal-berlin.de/home.html