Marcos Valle em Berlim: perfeccionismo, sonoridade elegante e autenticidade carioca

Marcos Valle em Berlim: perfeccionismo, sonoridade elegante e autenticidade carioca

Fátima Lacerda

13 Agosto 2017 | 12h52

O ex-surfista do Arpoador, o loirão de olhos azuis que tem um nome alemão entre o Marcos (Kustenbader) e o Valle e o outro lado da família de origem nordestina, foi a primeira atração brasileira no último fim de semana do Festival “Wassermusik” na Casa das Culturas do Mundo, localizada no centro de Berlim, à beira do Rio Spree.

O calendário do verão berlinense (com ou sem sol) é impensável sem esse Highlight da estação mais curta do ano. E quem disse que Deus não é brasileiro?


Em atitude de grande ousadia num Poker perigoso, a organização do festival decidiu pelo palco ao ar livre, apesar da ameaça de chuva que se estendeu por todo o dia de sábado (12). Em tempos de  vampirística escuridão em solos brasileiro, a crença, de fato pueril, de acreditar que Deus é brasileiro, se faz necessária até em casos mundanos no questionamento “Será que vai chover?”

Perfeccionismo

A turnê europeia iniciou dia 03/08 em Amsterdã, passou ela cidade francesa de Lyon, marcou dupla presença em Londres (Ronnie Scott’s & Jazz Cafe), seguida por Viena, Copenhague e, para fechar da melhor forma possível: Berlim.

Já durante a passagem de som na noite de sábado (12), a meticulosidade na postura do quarteto que acompanha Marcos Valle na turnê pela Europa, já se fazia visível. Sua esposa Patricia Alvi e também cantora da banda, era o ponto de comunicação entre os músicos e os técnicos de som. Demorou até que os microfones ficassem de acordo, enquanto Marcos se mostrava insatisfeito com o retorno dos teclados. A mesma passagem da mesma música era repetida várias vezes, com disciplina prussiana.

Plateia eclética

No terraço da Casa das Culturas do Mundo estavam não “somente” os brasucas fãs (Um deles andava pelos corredores gritando “Marcos Valle é uma leennnnnnda!”), mas os alemães obcecados pela Melange de Bossa Nova, Jazz e MPB somados à uma sonoridade requintada, arranjos meticulosamente ensaiados, mas também espaço para a improvisação. O trompetista da banda de Marcos Valle é, sem delongas, um arraso, além responsável pela rubrica musical e inegável do ex-surfista da Praia do Arpoador e um Bon Vivant na melhor época do Rio de Janeiro (antes da ditadura militar).

Ainda na conversa descontraída depois do show com duração de 1 hora e 15 minutos eu perguntei qual foi a sua inspiração para compor “Samba de Verão”. Foi alguma praia da Califórnia, foi o Arpoador`?” “Eu fui criado no Rio, numa época muito privilegiada”, respondeu.

Num texto de contracapa de um disco de Tom Jobim, Caetano havia mencionado “Samba de Verão” como um de suas músicas preferidas. “Eu vou gravar”, teria dito Caê em voz certeira para Marcos. Depois de cumprido o prometido, Caê, o chamou para ouvir. “O que você sentiu ao ouvir a gravação feita por Caetano?” quis saber na conversa informal sem ter o gravador ligado. Para expressar seu sentimento naquele dia, ele filosofou sobre os fins de tarde na Praia do Arpoador.

Pouco antes de “Samba de Verão” ser anunciada, o sol lascas de luz no céu berlinense e falando em inglês sobre a canção de fama mundial, ele apontou para os raios de sol que vinham do céu e que ficaram ali somente durante a execução da música.

O sol e a luz são algo raro na Alemanha, mas quando se tem a chance de juntar Berlim ao Arpoador na imaginação do que é um verão tropical com o céu de Berlim (que seria homenageado mais tarde também por Moreno Veloso) é tiro certeiro no peito carente de calor humano do povo berlinense.

Mesmo com músicas de caráter intimista e uma sedutora vista para o Rio Spree, o público não esteve disperso em nenhum instante do show. “Summer Feeling” para berlinenses a céu aberto.

Marcos Valle é um músico que tem plena consciência do que alcançou assim como de sua incontestável importância e relevância musical. Ele mostrou ser um Gentleman, ser solícito com apaixonados por música que o visitaram no Backstage. Nesse dia não poderia falta a foto documentando o encontro de Marcos e Moreno em Berlim. Memoráveis conversas depois do show: sobre política, partidos, perspectivas, Tom Jobim, Caetano Veloso e Marlon Brando.

Antes do show, Marcos Valle falou exclusivo com o Blog, logo depois da passagem de som:

FL: Qual é a sua expectativa em Berlim para esse festival que é o “Wassermusik”.

MV: Já toquei em vários festivais pelo mundo afora. Em grandes como no Glastonbury (Inglaterra) e inclusive no Rock in Rio em Las Vegas. No momento, durante a viagem da Europa, o meu maior público é a juventude. Mas logicamente tem as pessoas que me acompanharam nos meus longos anos de carreira.

A expectativa é de muita energia, um clima aberto, de Festival ao Ar Livre.

Tem algo que te inspira quando você se apresenta em Berlim?

Eu tenho avô alemão. Meu nome do meio é meio (Kustenbader) Valle. A ligação com a Alemanha eu sempre tive. Não falo alemão, mas a família falava muito. Vinham parentes da Alemanha, logicamente, sempre quando venho em lugares da Alemanha é sempre uma emoção e Berlim é da Alemanha, uma das cidades que eu mais gosto.

Por que?

Por é muito simpática, de passear, de sair por aí. Existe um clima descompromissado, cada um é de uma maneira. Eu gosto dessa coisa assim meio à vontade, cada um na sua e Berlim me traz essa impressão.

Em relação à situação política no Brasil. Como você vê a responsabilidade da classe artística nesse momento crucial pelo qual o país está passando?

A participação da classe artística no momento, é bem diferente, por exemplo, da época da ditadura militar. Para falar alguma coisa contra o regime era preciso usar as músicas, porque não havia liberdade de expressão. A gente não podia falar, então procurava expressar opiniões na música. No Brasil, hoje, tudo está muito dividido entre pessoas que gostam desse ou daquele partido. Se você me perguntar em quem eu votaria, eu não poderia te dizer. Eu acho que, atualmente, seria mais falar do que tocar. Quem tiver um posicionamento definido e quiser expressar isso, é uma maneira de ajudar.

O que a turnê na Europa vai render de bagagem para quando você tocar no Brasil? Você volta energizado?

Eu gosto muito do novo. Esse festival que eu ainda não toquei, é ótimo. Eu me alimento disso. Esse festival aqui (Berlim) vai ser mais um. Estou voltando amanha.

Fechando com chave de ouro em Berlim?

Com chave de ouro! (risos).