Merkel e a “Grande Coalizão”: um casamento por conveniência para garantir o poder e evitar uma crise maior

Merkel e a “Grande Coalizão”: um casamento por conveniência para garantir o poder e evitar uma crise maior

Fátima Lacerda

12 Janeiro 2018 | 17h39

©Reuters

Quando está muita coisa em jogo, na política (e não só nela), é preciso fazer sacrifícios por algo maior. No caso das sondagens entre Merkel e os social-democratas no período de 5 dias e noite, o cenário tem esse aspecto.

Já foi noticiado pelo Blog que as sondagens para a coligação “Jamaica” fracassaram pela saída, à francesa, dos Democratas Livres (FDP, na sigla). Com esse passo, era dado inicio à maior crise politica da Alemanha nos últimos anos. Quem evita falar em crise esta tentando tampar o só com a peneira. Parceiros europeus, que outrora temiam a predominância alemã, expressavam a falta do pulso de ferro da chanceler Merkel. Enquanto isso, o presidente francês, Emmanuel Macron ia preparando o terreno para suceder Merkel na retórica e na coordenação da “Casa Europa”, que Macron quer de todo o jeito reformar e não cansa de dizer que “está pronto” para arregaçar as mangas para renovar a UE. A notícia de que a Alemanha se prontifica em depositar mais dinheiro na caixinha da UE, deve ter ensolarado a sexta-feira do presidente francês.

Desde a noite de 24.09.17, após os resultados das eleições gerais, o poder da chanceler vem sofrendo considerável erosão, poder esse que, até pouco tempo era tido como imbatível.

Por partes

Depois do fracasso das sondagens para um governo “Jamaica”, composto pela União (CDU & CSU), os Democratas Liberais e os Verdes, a Alemanha conheceu, pela primeira vez em sua história, semanas, meses sem conseguir formar um governo com os prejuízos na política externa que isso significa e o vácuo criado em Bruxelas. Foi preciso que, Steinmeier, o Presidente da República, fizesse pressão para que fossem evitadas novas eleições. A mensagem da classe política para os eleitores teria sido fatal: “Vocês não souberam votar. Votem de novo, mas agora certo”. A opção de novas eleições, favorizada por vários expoentes da política (inclusive Merkel num primeiro momento de choque) foram freadas pelo presidente. Frank-Walter Steinemer apelou pelo sendo de responsabilidade dos políticos em dar ao país um “governo estável”.

Segundo Round

Depois de “Jamaica” era a vez (e a última chance de evitar novas eleições) de requentar a “Grande Coalizão” com os social-democratas, exatamente o formato para qual eleitoras e eleitores deram o cartão vermelho nas eleições passadas. Mas a chanceler não seria Merkel se não fosse mestre em ignorar o que não lhe apetece, fazer vista grossa e esperar a tempestade passar. As sondagens com os social-democratas tem uma só motivação para Merkel: continuar no poder.

A hora da xepa dos social-democratas

Se é alguém que tem o nome amarrado na boca do sapo com um barbante poderosíssimo, esse é Martin Schulz, atual chefe do SPD e ex-presidente do Parlamento Europeu.

Na noite do fatídico 24.09., quando o SPD teve que contabilizar mais de 250.000 votos perdidos para o partido de direita populista e extremista, AfD, Schulz deu o maior tiro no pé de sua carreira, divulgando em formato Blitz: “A coalizão com a União acaba aqui”, colhendo aplausos eufóricos dos delegados na sede do partido.

Na política, como no futebol, o jogo poder dar uma guinada no segundo tempo (vide recente Derby BVB X Schalke 04 com o placar final de 4×4 na rodada de ida pelo campeonato alemão de futebol), na política também as pecas no tabuleiro podem mudar e novas constelações se delineiam, novas perspectivas e combinações se abrem ou se mostram inevitáveis. Esse foi o caso dos social-democratas. Schulz, há um ano atrás votado com 100% de votos dos delegados, desde setembro não goza de autoridade no partido. Para tentar salvar sua pele, aceitou fazer “sondagens com resultado em aberto” com os partidos da União para não agravar ainda mais a crise de identidade programática que atravessa o seu partido.

Nunca que Schulz pensou chegar em tal situação quando largou uma carreira de mais de vinte anos de burocrata do aparato que se tornou a UE, pensaria que teria que virar a noite de quinta para sexta-feira numa luta de foice para chegar a um acordo e não ter que se posicionar frente aos microfones, mais uma vez, derrotado.

Na madrugada

Um mar de microfones estava posicionado no corredor da Casa Willy-Brandt, sede federal do partido e que fica a três quadras da minha casa. A noite toda, sob um frio gélido do inverno berlinense, cinzento e implacável, esperava-se a noite toda por notícias. Se é uma coisa que a União aprendeu com a traumática experiência durante as sondagens para “Jamaica” foi manter o sigilo absoluto de tudo o que era falado dentro das quatro paredes. Por vezes, na sede do CDU de Merkel, por vezes na Casa Will-Brandt, do SPD. Desta vez não teve fotos dos documentos no Twitter e as declarações ao saírem dos carros para entrar nos prédios não poderiam ter sido menos concretas. A única constante era Merkel dando sua bolsa para sua assistente segurar enquanto falava aos repórteres ou passava batida sem nada a declarar.

Durante horas da noite de quinta-feira (11), as chamadas ao vivo do local das sondagens não trazia nenhuma notícia. Somente especulações. No finalzinho da noite afirmava-se que o clima de negociações teria ficado “tenso”. O fato dos chefes dos partidos terem-se recolhido para consultar o que estava sendo negociado foi o termômetro que suscitou a interpretação dos jornalistas. No meio da noite já se falava em “fracasso”, algo que para os dois chefes dos partidos seria fatal. O terceiro chefe do partido, o CSU, Horst Seehofer já é percebido como defunto político (carne podre, no jargão) só esperando a hora de cair. Porém tinha que estar em Berlim para poder olhar na cara dos eleitores da Baviera, que terá eleições regionais no segundo semestre de 2018. Seehofer já passou o bastao para o seu príncipe consorte, porém ainda teima em se manter chefe do partido. Pelo menos até à ida dos bávaros às urnas em âmbito regional.

O dia seguinte

O portal Spiegel Online fez uso de um ditado escrito em vários cartões postais sobre Berlim: “As noites em Kreuzberg são longas”. Kreuzberg, no sudeste de Berlim é o bairro de subcultura e de tradição convulsiva, política e revolucionária. Nesta parte de Berlim se encontra a sede do partido, porém numa rua que desde a primeira Guerra Mundial, cultiva a tradição meio perdida de ter sido O ENDEREÇO para redações de jornais e gráficas. O arquivo do jornal “Vorwärts”, ligado ao SPD, está preservado num prédio ao lado da Casa Willy Brandt, nome em homenagem ao ex-chanceler e ex-prefeito de Berlim.

No início da manhã de sexta-feira (12), apresentando olheiras, e a mesma roupa do dia anterior, os chefes dos partidos foram dar explicações aos microfones que aguardavam a noite toda.

Analistas políticos estão de acordo que o novo governo, apesar de cofres cheios, não aliviará o contribuinte, mas investirá um montante como nunca na história da Alemanha. Todos os três chefes dos partidos tentam vender as sondagens como vitórias para o seu eleitorado. Dessa maratona de cinco dias, Merkel saiu vitoriosa por ter conseguido fixar o maior número de itens programáticos de seu partido. Ao mesmo tempo, conseguiu evitar medidas anteriormente anunciadas como “inegociáveis” pelos socialdemocratas. Como por exemplo, o seguro de saúde para todos.

Angela Merkel (CDU)

Tivemos sondagens intensas, sérias e profundas. O documento que preparamos, não é algo superficial, mas o espelho da seriedade na qual trabalhamos hoje e no próximo governo para criar condições para que possamos viver bem na Alemanha nos próximos 10-15 anos.”

Martin Schulz (SPD)

Eu acho que tivemos excelentes resultados. O que está escrito nesse papel não é retórica. Como social-democratas o grêmio da diretoria decidiu, de forma unânime, sugerir aos delegados do partido a votarem a favor o início das negociações em concreto. Os últimos 5 dias e uma noite foram sondagens. O próximo passo serão as negociações,

Horst Seehofer (CSU, da Baviera) “Nos últimos dias, mostramos que a política é capaz de sondar, num trabalho em conjunto regado de eficiência” (CSU), em tom irônico alfinetando a fração dos Liberais.

A maior conquista

220.000 refugiados por ano. Esse era o ponto-ápice de Seehofer que há dois anos vem pleiteando a limitação na imigração de refugiados com status provisório (Proteção subsidiária e em sua maioria provenientes da Síria) deve continuar bloqueada até que uma nova solução seja encontrada, o número de familiares a entrarem a Alemanha será limitado para 1000 por mês. Críticos, incluindo delegados do SPD, apontam no documento, a falta da frase no documento, que a Alemanha é um país de imigração.

Ao contrário da vontade do SPD, não haverá aumento de impostos para os ricos.

O fracasso

Juntamente com Merkel, os socialdemocratas desistiram de alcancar a reducao de 40% de redução de gás carbônico até 2020. Os socialdemocratas tem um bom motivo para isso. A região da Renânia do Norte-Vestfália (NRW), a maior população regional é polo da indústria de carvão.

Obstáculos

Martin Schulz terá dificuldade em vender o peixe na base do partido social-democrata. Depois de esbravejar sobre “linhas vermelhas”, sinônimo para itens inegociáveis. Muito barulho para pouco resultado. Nem mesmo o seguro de saúde para todos os alemães, independente do valor do salário e da renda anual, o SPD conseguiu sacramentar. Um paleativo foi a volta do formato em que empregadores e empregados contribuem no mesmo percentual para a caixa do seguro de sáude.

O partido decidirá se aceita ou não o documento de 28 páginas no próximo dia 21 em congresso extraordinário em Berlim.

Analistas contam com a formação do novo governo no período da Páscoa. Depois do final das negociações o partido terá que aprovar o programa, de novo. Com isso, Schulz se assegura o respaldo da base do partido, atualmente, muito dividida entre sim e não à “Grande Coalizão”.

O papel de partido de oposição do SPD na bancada do parlamento atual e que vinha tentando retomar o seu perfil perdido em coalizões com o partido de Merkel, acabou.

Em Berlim, tudo novo de novo. Em Bruxelas e nos países da UE, o alívio pelo fim da crise política na Alemanha é certeiro. O discurso otimista do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, ratifica o alívio como de uma brisa de verão que passou hoje por Bruxelas.