Merkel e Alexis Tsipras em Berlim recorrendo à velha diplomacia

Fátima Lacerda

24 Março 2015 | 06h36

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Nas últimas semanas, a principal manchete da mídia alemã foi sobre a veracidade de um vídeo gravado durante um congresso em 2013 na Croácia. O vídeo mostra o atual Ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis fazendo um gesto obsceno, acompanhado da frase “Fuxx Germany”. Varoufakis nega a veracidade ao mesmo tempo que alfineta: “A Alemanha merece uma mídia melhor”. O jornalista croata que fez a filmagem, confirma a veracidade do vídeo em post em sua conta no Twitter.

https://www.youtube.com/watch?v=ekwEl8nWnSg

A segunda mais vinculada manchete é a exigência da Grécia de reparações financeiras resultantes dos crimes hediondos causados pela a Alemanha socialista.

Merkel, mostrando soberania sobre toda a disputa midiática, convidou o Premiê Tsipras para viagem oficial a Berlim e isso, no melhor estilo merkeliano: sem alardes, mas seguindo, sim, o velho lema:”Se Maomé não vai a montanha..”.

A quebra do ritual

Qualquer recém-eleito chefe de estado dos países da EU tem em sua agenda, primeiramente, uma visita a Berlim. Tsipras fez diferente. Foi primeiramente a Roma e, na sequência, Paris, esperando tecer uma aliança contra Berlim. Nada feito. Os dois governos deixaram bem claro que uma solução com a Grécia precisa ser de toda a UE.

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O final da tarde de segunda-feira (23) era recheado de tensão e expectativa. Na mídia.Jornalistas e fotógrafos, presentes em massa.

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Haverá o duelo definitivo(?), se questionavam jornalistas enquanto aguardavam no jardim da chancelaria federal, a chegada de Tsipras. Esse, ratificando seu estilo de nadar contra a maré, no meio do trajeto em direção a Chancelaria Federal, desceu do carro para cumprimentar alemães e gregos que protestavam e outros que se confraternizavam ratificando a amizade entre os dois países.

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Duas equipes – Duas dinâmicas

Enquanto a equipe de 5 membros do protocolo alemão se mostrava soberana e simpática durante o rígido procedimento do protocolo, incluindo os minutos que antecedem as honras militares, a equipe grega se movimentava com tivesse prestes à ir pra guilhotina, muito segredinho, muita correria. 

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Tsipras escolheu o Hotel Maryott para se hospedar. Um hotel simples, comparando aos de luxo que hospedam Chefes de Estado na capital, que geralmente escolhem o Ritz Carlton ou o Hotel Adlon.

Pontualmente às 17 horas (horário local) Tsipras adentrava o jardim da Chancelaria Federal. Sorridente, uma postura legère e de quem vem de boa. Seu visível despreparo na hora do procedimento das honras militares foi gentilmente corrigido por Merkel. Ela, a sessentona, a menina do leste. Ele, 40 anos, enfant terrible e uma espécie de Robin Hood do período pós-moderno. Lá fora, os demonstrantes cantavam a o Hino Internacional Socialista.

A coletiva

Depois de aguardarmos uma hora e meia as consultações, Merkel é a primeira a se pronunciar. O tom foi über-diplomático. Ela ressaltou a importância dos dois países “membros da UE, parceiros na OTAN”. Enfim, ressaltou o óbvio para não ter que delinear as diferenças e essas, são muitas. Num pronunciamento bem mais autêntico, Tsipras delineou claramente as diferenças: “Quero deixar bem claro duas coisas: A política de austeridade de UE dos últimos 5 anos foi um erro, não obteve sucesso. Causou uma grande perda do PIB, um desemprego no percentual de 60% além de gritantes diferenças sociais”.

“Precisamos criar uma mistura saudável”, insinuou. Enquanto o olhar de Merkel ficava cada vez mais sisudo. O tom diplomático de Merkel no início da coletiva torcia para que Tsipras escolhesse o mesmo discurso, mas a fatura não fechou.

Precisamos dar fim aos estereótipos

“Não estou aqui como quem vem implorar por dinheiro. Que isso fique bem claro. Estou aqui para reativar o nosso relacionamento bilateral. E deixem me expressar: Precisamos desestruturar estereótipos que se arraigaram na mente das pessoas: nem os gregos vivem no ócio e nem os alemães são culpados pela nossa situação”.

Combate à corrupção

Enquanto em todo o seu pronunciamento, a chanceler foi o menos concreta possível e não cansou de ratificar que “não é responsável pelo veredito sobre a dificuldade da Grécia em quitar suas dívidias” mesmo que todos ali presentes, inclusive o próprio Tsipras sabe que isso não é verdade. O Premiê pediu oficialmente ao governo alemão, ajuda no combate à corrupção, principalmente no âmbito de sonegação de impostos.

Novas exigências

Um jornalista grego se alterou ao pronunciar a necessidade da Alemanha ressarcir a Grécia pelas atrocidades cometidas pelo regime nazista. Em voz calma e recheada de seriedade, Merkel se pronunciou claramente sobre a responsabilidade da Alemanha perante à sua história. “Eu já declarei que, ao ver do governo alemão, essas revindicações estão encerradas no âmbito político e jurídico. Entretanto, pela nossa responsabilidade histórica, vamos conversar sobre um eventual aumento de orçamento no “Fundo do Futuro”,  (Zukunftsfonds) criado para fomentar projetos que incentivam a consciência política, como por exemplo, patrocinando viagens educativas para jovens de toda a Europa, para suscitar o diálogo entre eles.

Não é uma questão de dinheiro. É uma questão moral“, enfatizou Tsipras. Porém fica difícil acreditar, quando essa temática foi levantada exatamente na época em que foi anunciado que a Grécia não conseguiria pagar seus credores.

Tirando os noves fora

A coletiva e, na sequência o jantar oferecido pela chanceler no salão de festas da chancelaria foram, como declarou Merkel “um início”. Entretanto esse início foi tardio. No final de janeiro, Tsipras tomou posse. Foram dois longos meses perdidos em picuinhas, vaidades pueris, disputas ideológicas e muito murro em ponta de faca.

As diferenças entre Merkel e Tsipras são imensas e de natureza cultural e ideológica Talvez fosse a hora do premiê grego confessar aos seus eleitores que não poderá cumprir as promessas feitas nos calorosos discursos durante a campanha eleitoral.

O mérito de Merkel

A chanceler mais uma vez mostrou que soberania não é sinônimo de arrogância, além de marcar pontos no quesito de não se deixar influenciar pela polarização midiática tão teimosa em dividir. Se tem alguém que saiu ganhando dessa visita, foi, claro, Merkel.  Com seu tato diplomático, ela se mostrou uma europeia convencida de que a “Casa Europa“, aquela idealizada por Helmut Kohl e François Mitterrand, ainda tem um futuro e que a Grécia deve continuar morando nela.

O próximo round, quando a diplomacia não for mais prioridade, veremos em Bruxellas e no mais tardar no próximo dia 09 de abril, dia do pagamento de mais uma parcela da dívida.