Morre Erika Rabau: 40 anos fotógrafa oficial da Berlinale

Fátima Lacerda

12 Abril 2016 | 20h24

Nascida em Gdański “pouco antes do Natal” e sem nunca contar ninguém a sua idade, Erika Rabau era a personificação do Zeitgeist da Berlim Ocidental dos anos 70 e 80. Depois de desbandar para a Argentina com 17 anos, movida pelo amor, ela retornou a Berlim e nos anos 60, iniciou a carreira de fotógrafa profissional. Mais de um milhão de negativos ela teria em seu apartamento.

Foi Alfred Bauer, o primeiro diretor do Festival Internacional Cinema de Berlim, hoje rebatizada Berlinale que a descobriu em 1972. Bauer gostou das fotos e logo a contratou como fotógrafa oficial do Festival, que na época tinha seu cinema principal o Zoo Palast, cinema que ainda existe e foi reinaugurado no final de 2013 mantendo o charme do passado e aparelhado com o melhor de conforto e técnologia existentes no mercado.

Em incontáveis Berlinales lá estava Erika, com a jaqueta de couro preta ou azul, cabelos loiros longos e quase sempre despenteados com a franja cobrindo os olhos. Quanto mais fisicamente frágil ela se tornava, mais difícil era arrastar a mala com equipamentos que ela carregava consigo não “só” durante a Berlinale, mas também durante o Festival de Jazz e outros grandes eventos culturais em Berlim.

Em 2004, pelo seu mérito concernente ao fenomenal arquivo fotográfico sobre décadas do Festival formando assim um arquivo de grande importância histórica, ela foi condecorada por Dieter Kosslick com a “Camera Berlinale” (Berlinale Kamera).


Em 2014, estava eu na cerimônia de entrega do Lola, Prêmio do Cinema Alemão. Uma festa de arromba para mais de 4000 pessoas no teatro Friedrichstadtpalast, ex-teatro de revista e objeto de prestigio da ex-Berlim Oriental.

As gurias vindas de Hamburgo, coordenadoras das credenciais para a cerimônia de premiação de para o festão depois da mesma, em sua mais infame ignorância, deixaram Erika mais de meia-hora esperando e implorando pelo convite para acessar à festa, onde se encontrava a nata da classe artística alemã. Estavam todos ali e ela não poderia faltar. Também eu estava à espera do chefe que me havia confirmado um convite, do qual a guria do guichê também não tinha conhecimento. Vendo Erika sentada naquela cadeira à beira da escada que daria para o festão, eu indaguei: “A Sr. sabe quem é que está aqui à sua frente?” O sorriso amarelo dela entregou a resposta: “Erika Badau, há mais de 40 anos a fotógrafas das estrelas e fotógrafa oficial da Berlinale”. Com a cara na cor de beterraba, ela colocou uma fita prateada no braço de Erika, que pediu para eu acompanhá-la. A guria não deixou. Um segurança foi no meu lugar até o chefe voltar ao guichê de credencialmente, pedir mil desculpas pela gafe com a Erika e por ter esquecido de avisar à guria afoita sobre o meu convite. Ela, que estava se achando, por ter saído da pequena Hamburgo e ter ido trabalhar na grande e prestigiosa Berlim. 

Nas coletivas de imprensa da Berlinale ela era a única mulher fotógrafa com moral perante os abutres e alucinados que tomam posse da primeira fileira no centro de imprensa e quando alguém chega, nem tem conversa. A guerra de cotovelos é uma constante. Erika era a única exceção.

Nos dias do festival de jazz, ela arrepiava a plateia com seu visual nada convencional, nada arrumado. Além de atrás da câmera, Erika foi convidada por diretores alemães para participações especiais em seus filmes, além de ter dirigido alguns, um em especial sobre a vida louca vida da Berlim dos anos 80 antes da queda do Muro.

Enquanto a memória ainda ia de vento em popa, sabendo da minha origem brasileira, ela não cansava de repetir que, quando esteve no Rio, morou no Leblon, na Afrânio de Melo Franco. Perdi as contas quantas vezes ela repetia isso, sempre que nos encontrávamos. Nos últimos dois anos ela já não reconhecia os companheiros midiáticos, mas continuava tendo o privilégio, como a única, em estar ao lado de Dieter Kosslick, diretor do festival no tapete vermelho, podendo assim tirar as fotos da melhor perspectiva possível.

Como “Dieter” já havia mencionado: “Erika é a Berlinale e a Berlinale Erika”. No Twitter uma usuária postou: “A Berlinale de 2017 tem que ser adiada. A Erika não está mais aqui“. Mas o show precisa continuar. É igualmente certo que vai haver a Berlinale 2017 assim como o amém na igreja, adaptando um ditado popular das terras daqui. A causa mortis não foi divulgada e a idade de Erika era ocultada por ela às 7 chaves. Na última Berlinale ela já brilhara pela ausência por motivos de saúde. Nas últimas semanas passou no hospital e num abrigo. Somente hoje a organização da Berlinale enviou comunicado à imprensa.

Em 2014, fabricante de carros, o Audi, em seu primeiro ano patrocinando o maior evento cultural da Alemanha, entrevistou Erika, onde ela confessa a paixão pela cidade de Berlim: “Eu conheço várias cidades desse mundo, sério. Mas em nenhum lugar existe o flair dessa cidade, nem mesmo Paris. Não da pra explicar, é preciso você viver aqui pra saber”. O compositor Friedrich Holländer deu a ela o apelido de “Puck from Berlin”. “Não o puck do Ice Hockey, explica ela no vídeo, mas a figura de “Sonhos de uma noite de verão”, o fantasma da floresta que fica vagando por ai. Assim como eu”.

Agora é contar que “lá em cima” o tapete vermelho será desenrolado a tempo e sem dobras, senão ela, notória por não ter papas na língua, vai reclamar. Como em todo o lugar: o desejo de Erika sempre foi uma ordem e “lá em cima” não será diferente. RIP