Nova estatística constata: Berlim é a cidade mais perigosa da Alemanha

Nova estatística constata: Berlim é a cidade mais perigosa da Alemanha

Fátima Lacerda

22 Abril 2017 | 10h16

 Alex ©DPA/Kay Nietfeld

Tempos foram aqueles em que a metrópole financeira, Frankfurt, liderava a lista das cidades com maior índice de criminalidade. A Alemanha vive o imenso desafio de uma mudança de paradigma na sua pirâmide demográfica. Entre os desafios, estão o acomodar e integrar mais de um milhão de refugiados num país de população idosa e onde os jovens, à procura de uma vida melhor, deixam para trás municípios e cidades desabitadas e que acabam virando cidades fantasmas. Por outro lado, as grandes cidades e seus órgãos são colocados frente a grandes desafios para receber quem chega.

No resultado da pesquisa que será divulgada na segunda-feira (24) pelo Ministro do Interior, Thomas de Maizière, Berlim desbancou Frankfurt e aparece como a cidade com maior número de delitos do país.

Com 16.161 por cada 100.000 habitantes, Berlim lidera uma lista que, apesar de todas as mazelas ainda não liderava lista tão pouco prestigiosa.


Os números

De acordo com o número de Boletins de Ocorrência, no território da Alemanha, a criminalidade aumentou em 07%. O percentual de esclarecimento dos delitos continua na margem de 56,2%.

AnhalterBrückeJan2017_Pro

Berlim: Ovelha negra da República

No total, o número absoluto de delitos de roubo, diminuiu. Porém o número de furtos de bolsas, carteiras, lojas, carros e bicicletas. Quem tem bicicleta em Berlim sabe, e não é de hoje, que é viver no perigo. Decerto os roubos de bicicleta não são da forma escrachada como acontecem nas ruas do centro, quando o cara que já foi reconhecido por várias câmeras, sai com a sua ferramenta na mochila e, dia ou noite, corta os cadeados e sai fora com a bicicleta. Mesmo dando queixa na polícia, a probabilidade da bicicleta ser encontrada e tanta como o Vasco da Gama se livrar do Eurico Miranda, mesmo porque, a situação de recursos humanos da polícia berlinense é tão catastrófica e insuficiente, que eles já te escrevem uma carta dizendo que o caso foi arquivado “por falta de interesse público”. Não há um programa sobre seguranca que o porta-voz do sindicato dos policiais não apele para os governantes dos estados que contratem mais policiais. Em tempos de pré-eleicao esse é um elemento obrigatório no discurso de políticos. O candidato centrista Emmanuel Macron, na corrida pela presidência na França, é um exemplo bem atual dessa retórica.

Certa vez, eu dei queixa na polícia porque um cara da firma de limpeza, de pirraça porque minha bicicleta atrapalhou, por minutos, a passada do carrinho. O cara usou de uma ferramenta especial e fez, enquanto eu comprava legumes na loja do tuco, 24 furos (!!!) no pneu da minha bicicleta. Nem mesmo levando a câmara e tendo anotado o dia e horário do ocorrido e que tornaria factível encontrar o elemento na lista de plantão da firma, o caso foi arquivado mesmo assim. Em Berlim, e isso já valia bem antes da divulgação da mais recente estatística de criminalidade veiculada pela imprensa já na sexta-feira (21), ter somente um cadeado na bicicleta é pedir para o elemento levá-la. Tudo bem que dois cadeados não trazem 100% de segurança, mas dificultam bastante o finalizar do procedimento. Esse exemplo é para expressar que não existe “somente” os delitos criminosos, mas os delitos como válvula de escape para frustrações, solidão, sentimento de fracasso como também, no caso dos 24 furos no pneu da minha bicicleta, a necessidade de medir forcas, de esclarecer quem está por cima quando a autoestima é segurada por símbolos externos.

Mudança no Ranking

De acordo com a nova estatística, Berlim é a cidade mais perigosa, seguida por Leipzig (com 15811 delitos), leste do país e cidade natal de Johann Sebastian Bach. O terceiro lugar é a cidade de Hanover (15764) , com toda a certeza, a mais monótona de toda a Alemanha. Frankfurt, a ex-líder, passou para o quarto lugar com 15671 delitos registrados. A cidade mais segura da Alemanha continua sendo a capital bávara, Munique. Nela foram registrados “somente” 7909 delitos por 100.000 habitantes. Na capital bávara, cada décima terceira pessoa é vítima de um delito.

O que não é computado nas estatísticas 

O que não aparece nessa e noutras estatísticas é o imenso potencial de conflito interpessoal que se somatiza nas ruas de Berlim. No metrô, na padaria, na porta de um restaurante.

Um exemplo atual de imenso potencial de conflito latente e presente em Berlim é o caso veiculado neste sábado (22) pela imprensa berlinense: Dois homens (26 e 27 anos) bêbados, abordaram dois meninos, um de 11 e outro de 13 anos no bairro de Moabit e exigiram que o menino de 11 anos desse seu sorvete. Um dos homens valentões pegaram no colarinho de um dos dois garotos, que, por sorte e astúcia, conseguiu fugir. Sem ter obtido sucesso no empreendimento criminoso, eles destruíram uma vidraça do ponto de ônibus. (Os pontos de ônibus em Berlim são cobertos e protegidos da frieza climática com vidraças pelos lados).

Tipo de criminalidade por uma bagatela, seja um sorvete ou um celular eram atípicos em Berlim. Quando se roubava era em “grande estilo”, com ação meticulosamente planejada, por exemplo, roubos de apartamentos no período de férias escolares do verão. Nos últimos tempos, com uma mudança brutal em seu perfil urbano, social e, resultante disso, de infraestrutura, esses delitos por bagatelas se tornaram bem mais corriqueiros e bem mais dramáticos. Há poucas semanas, uma alemã fazia jogging no parque chamado Mauerpark. Lá pelas 21:30 hs quando já está escuro, a mulher foi atacada com uma pedra nas costas por um homem. Ela caiu no chão, mesmo assim ele ainda a agrediu com os pés no ombro e na cabeça querendo que ela tirasse a jaqueta para pegar o Iphone que estava dentro do bolso. Ele acabou levando jaqueta e celular e a mulher foi parar no hospital. Somente depois de muita pressão da imprensa, pelo teor de violência do assalto é que a polícia deu prioridade ao caso e acabou resolvendo. Ao vender o celular por 50 Euros (aprox. 168,00 reais), o autor do crime foi filmado pelas câmeras de segurança da loja, o dono avisou a polícia. Horas depois que a foto do suspeito foi divulgada pela polícia, ele mesmo foi na delegacia se entregar depois de se esconder na casa do tio.

Alexanderplatz, cartão de visita da cidade de Berlim se tornou um constante palco de crimes terríveis, perversos, sórdidos. Na maioria das vezes, em conflito interpessoal e de imensa crueldade.

Mesmo que as seguintes dicas pareçam um chover no molhado, para quem vem do Brasil, é necessário atentar pelo fato de que Berlim já não oferece segurança como em anos passados. Num clima de férias, acaba-se baixando a guarda e se tornando vítima de falcatruas e delitos.

Vale atentar para:

Quando andar de bicicleta, sempre prenda a alça ou alças da bolsa no banco ou com um cadeado. Quando fechar, fechar com outras do grupo.

Quando andar de metrô, certifique sempre que o lado do zipper da bolsa está para a frente. O melhor é ter toda a parte de abertura da bolsa, debaixo do braço. O melhor mesmo é levar uma bolsinha do tipo de alunos de colégio e que se pode enfiar dentro da blusa.

No correio e no supermercado: Sempre olhar pra trás e se certificar que há uma distância boa até o próximo cliente ou quando alguém vier com cara boa pedir informação ou quiser ajudar, mesmo que seja no Starbucks, não caia nessa armadilha!