Um ano do movimento PEGIDA e o conto do vigário dos “Cidadãos preocupados”

Fátima Lacerda

19 Outubro 2015 | 16h11

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Foi há um ano atrás, quase desapercebido, o movimento PEGIDA, conduzido e guiado por autodenominados “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente“. Comparando-se com o fluxo dramático de refugiados que se constata diariamente na fronteira alemã, o motivo do protesto que iniciou há um ano atrás era o de procurar um bode expiatório, era apostar na lei do mais fraco. Os neonazistas e os “decepcionados com os partidos estabelecidos”, os “Cidadãos preocupados” gozam da “legitimidade” e a proteção da dinâmica do grupo. O grande Cazuza, em sua percepção ácida da realidade, diria: “A tua piscina cheia de ratos!”.

Aquilo que inciou com uma etiqueta do tipo: “Eu não sou nazista, MAS…” e propagava o discurso sobre temas até então velados e que ao mesmo tempo já pegava emprestado um termo xingamento à imprensa, usado na época do nacional-socialismo. As TVs abertas, subvencionadas pelos próprios alemães com uma taxa mensal obrigatória de 17 euros (74 reais), ficou sendo a “Imprensa mentirosa” (Lügenpresse).

Antes e depois…

Mesmo o apelo da chanceler Merkel em seu tradicional discurso de Ano Novo para que os alemães “…não seguissem pessoas que só tem em mente o semear do ódio..” a peste política vinha angariando mais e mais o que na língua alemã tem um significado altamente negativo. O Mit-läufer, aquele que vai junto na passeata, não tem visão nem discernimento próprios, mas é assimilado pela voz da maioria e acaba entrando de gaiato na massa burra e/ou extremista de direita.

A falta de um plano B

Os políticos dos partidos estabelecidos, esses cada vez menos representantes de uma ideologia e mais associados a Realpolitik, a política em seu aspecto pragmático de forcas tarefa para resolver os problemas de acordo como eles vão surgindo, ou seja, bem no estilo de Angela Merkel desde que assumiu o cargo em 2005. Mesmo que agora, Merkel esteja oportunamente ressaltando o aspecto cristão do C, presente na sigla do seu partido, o CDU, ela o faz, também por um motivo pragmático. Quer se livrar das críticas de ex-aliados políticos dentro do próprio partido, mas principalmente do “irmão” da Baviera, o CSU, que também tem um C de cristão na sigla, mas é useiro e vezeiro em esquecer a serventia de uma simples letra.

A classe política, por falta de um plano B, ficou tempo demais assistindo as atrocidades do movimento de extrema-direita, conduzido por pessoas que já disseram há muito tempo Auf Wiedersehen para os âmbitos constitucionais.

Os serviços secretos também ficaram só assistindo de arquibancada. Agora, depois do fluxo dramático de refugiados na Alemanha, os países de direita populista ganham considerável número de membros, o movimento PEGIDA mostra a sua verdadeira face. A carapuça dos auto-batizados “Cidadãos preocupados” com o destino da cultura alemã ou até mesmo com a perda do seu país e com a extinção da salada de batata nas cantinas públicas das pequenas cidades do leste, resolveram comprar a briga. Alguns ainda juram defender a música de Bach e Beethoven. “Nós vamos reaver o nosso país. Nós estamos aqui pela Alemanha”, diz um dos condutores exibidos em tempo real via Internet. (Veja o link abaixo). A disputa do PEGIDA não acontece em forma racional e através discussão, seja ela recheada de controvérsia. Ela deposita seu adubo nas redes sociais, em grupos fechados que, por exemplo, se dividem em “patrulhar entrada de abrigo de refugiados” ou então de “assustá-los” com alguma ação espontânea na calada da noite. Agora, no contexto do aniversário de um ano e devido à complexa situação política do governo Merkel, a máscara de um movimento que sempre foi neo-nazista e racista, caiu para todos, até para o mais cego do políticos. 

Na passeata da última segunda-feira (12), foi exibida uma guilhotina feita de madeira. Em cartazes de papel, se anunciava: “Reservado para Angela Merkel” e “Reservado para Sigmar Gabriel”, o Ministro da Economia, que depois do ataque de neonazistas a um abrigo na cidade de Heidenau, na regiaã da Saxônia, chamou os protagonistas do caos semelhante à uma guerra civil de “Plebe”.

Durante o decorrer da passeata, não houve nenhum participante que tivesse alertado a polícia, que teria identificado o autor que instigava ao crime de homicídio.

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Henriette Reker, a candidata a prefeita para a cidade de Colônia, foi esfaqueada por um elemento que, preso em flagrante, confessou na hora. O homem de 44 anos, desempregado do trabalho de pintura de domicílios e firmas, é velho conhecido do metiê neonazista e já havia saltado aos olhos da polícia, devido aos seus comentários de cunho nazista nas redes sociais. Vale lembrar que vários grupos do Serviço Secreto Alemão (BND), não fazem outra coisa a não ser espiar e localizar as cenas criminosas e seus planos de ação criminosa, tentando evitá-las. Henriette obteve a maioria absoluta. Como no momento ela se encontra em coma induzido, não se sabe quando ela poderá assumir o cargo.

O partido AfD, Alternativa para a Alemanha (veja no artigo http://blogs.estadao.com.br/fatima-lacerda/o-populismo-de-direita-na-cola-de-merkel/) é um primo sórdido e oportunista do movimento PEGIDA. Como o movimento que nasceu em Dresden é motivo de acirradas críticas pela classe política e pela mídia, a AfD é de bom tamanho. Um analista político resumiu: “O pessoal da AfD são os membros do PEGIDA vestidos de terno de linho“. O chefe da bancada do partido na região da Turíngia, da qual a capital é a cidade de Erfurt vem angariando muitos membros para o partido. Seu retórica é um verdadeiro estopim para instigar os até agora menos corajosos a “botarem a mão na massa”. Enquanto Björn Höke vai destilando seu veneno de maneira irracional, críticas sem dados concretos e tom cheio de pathos, os outros vão sujando as mãos com atos criminosos.

No dia em que PEGIDA completa um ano, os políticos, só agora, deram nomes ao bois e, como o Ministro do Interior, Thomas de Maizière, fala de “neonazismo”, algo que ele, um uma atitude imperdoável, demorou muito para pronunciar. O Ministro da Justiça, o socialdemocrata Heiko Maas, promete tolerância zero para os criminosos que serão punidos com toda a dureza dos instrumentos do Estado de Direito. Isso é muito pouco e as declarações vem de forma tardia.

Em recente conversa com o Ministro das Relações Exteriores, o social-democrata Frank-Walter Steinmeier, também ficou clara em sua declaração, a falta do Plano B. Merkel e Steinmeier estão de viagem, apertando a mão de déspotas e antidemocratas para tentarem diminuir o fluxo dos refugiados, para fugirem da crítica interna. PEGIDA, que da perspectiva berlinense fica láaaaaa em Dresden, acaba não entrando na lista de prioridades da vontade política do governo. Não basta punir os criminosos depois que os abrigos de refugiados tiverem sido incendiados, depois que pessoas, já traumatizadas por guerra e por perda de familiares, serem aterrorizadas no lugar onde lhes foi prometida uma vida em paz e liberdade.

Não é preciso de bola de cristal, para saber que os noticiários e programas políticos estarão voltados para a cidade de Dresden e de quantas ovelhas, quantos Mitläufer, vão seguir os autodenominados Führer do movimento. As imagens são sempre as mesmas, os xingamentos também. Os “cidadãos preocupados” com o apocalipse e dando vazão aquilo que há tempos, ficou escondido: a hostilidade a tudo o que não se conhece ou ao complexo de vira-lata, por anos escondido no armário como é o caso de Rosalinda Pessoa Mildner brasileira capixaba e residente nos arredores de Dresden e que decidiu tirar seu complexo de vira-lata do armário para “defender os valores alemães”.

A volta do populismo!

O número recorde de novos membros angariados pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), a vitória do SVP, partido populista de direta nas eleições na Suíça no final da semana que angariou 1/3 dos mandatos no parlamento superando assim o seu recorde de 2007, a cada vez mais escrachada brutalidade do movimento PEGIDA ratificam a realidade que o ex-chanceler e socialdemocrata Helmut Schmidt cansou de avisar sobre o considerável aumento de forcas de direta populista e extremista na Europa. O cenário visualizado por Schmidt é hoje, com poucas exceções, uma delas Portugal e Grécia, é realidade na Europa e um abacaxi político que ainda vai gerar muitos desdobramentos para a Alemanha.

Live Stream: https://www.youtube.com/watch?v=9Ngbgg2uzzQ