“O nosso programa é o protesto”, afirma em coletiva o diretor da Berlinale

“O nosso programa é o protesto”, afirma em coletiva o diretor da Berlinale

Fátima Lacerda

01 Fevereiro 2017 | 09h46

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Quando o cenário urbano da cidade começa a ficar repleta de cartazes com ursos em posições “suspeitas” tipo saindo do vagão do metro como em 2016 ou como na edição 2017, vagando pela calçada do Reichstag, prédio que abriga o parlamento alemão ou mesmo de uma garagem de cor laranja chocante e que me lembra do pulôver do Josino, meu professor de matemática do colégio GPI durante o curso do científico, isso significa que a Berlinale está chegando.

Um ditado popular alemão e, da perspectiva carioca subtropical, recheado de sadismo, prescreve: “A melhor alegria é a alegria antecipatória”. Uma coisa que o alemão não sabe viver é o presente; o aqui e agora. Ou ele vive a tal Vorfreude (alegria antecipada) ou ele não vive nada. Esse ano que iniciou numa dinâmica que nem mesmo o pior cenário de George Orwell em “1984” poderia desenhar, será palco da Berlinale mais tensa.

O mundo todo está em estado de choque, não “somente”com a primeira semana de um insano na Casa Branca. Também a Europa não consegue sair do estado de petrificação perante o desenvolvimento político na “Velha Europa”. Merkel e Hollande foi ontem! Agora, todos os olhares se voltam para Washington.

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A coletiva de imprensa

Sempre agendada para 10 dias antes do início oficial do maior evento cultural da Alemanha, a coletiva é um preâmbulo da animação.

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Só a entrada de Dieter Kosslick, diretor, alma do festival e garoto-propaganda da marca “Berlinale” com super cool Snickers com as cores do festival e seu sorriso de quem sabe vender seu peixe, é um Highlight pra muita gente, mas a euforia pré-festival, este ano, não aflorou. Não na autora desse texto.

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Dieter adentra a sala e, dirigido pela chefe da imprensa, em frente à mesa com os artigos temáticos, pega o ursinho, símbolo de Berlim e por isso, logicamente símbolo do festival, faz pose para os ávidos fotógrafos e senta na roda junto com outros diretores das mostras do festival que inicia no dia 09 de fevereiro.

O clima entre os jornalistas que já veem assistindo cabines desde o dia 15 de janeiro é bem diferente de todos os outros anos: mais silencioso, mais amuado.

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A euforia rotineira perante à coletiva, esse ano, não pintou. O dia 19 de dezembro, quando o terror chegou a Berlim ainda está muito vivo na memória e quando passo de bicicleta no local, não paro para ver o mar de velas que ali estão depositadas. A pergunta que não queria calar é sobre a segurança do festival. Nos últimos anos, o diretor, por razoes óbvias, evitara de mencionar sobre o “plano de segurança” para os 10 dias em que o mundo tem os olhos virados para o maior festival de público do mundo.

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Durante a coletiva, que reúne os diretores das diversas mostras, sempre salta aos olhos quantos jornalistas de rádio, tv e web se contentam com o papel de pontas num espetáculo midiático que, claro, todo festival de categoria A, precisa. Mas a minha veia jornalística não permite esse posicionamento passivo. Se eu vou numa coletiva, seja ela sobre qual tema for, é para colher informações. Esse é, sempre, o primeiro motivo.

Depois do dia 19 de Dezembro, nada será como antes 

As minhas duas perguntas não foram de âmbito de celebridades, apesar de eu, em âmbito pessoal estar curiosa para saber como ele conseguiu a confirmação do Mr. Right, Richard Gere, budista e presença rara nos tapetes vermelhos, para Berlim. A curiosidade permanece, mas na coletiva e no andar da carruagem do mundo político, essa pergunta ficou na gaveta, melhor, no meu caderno de anotações.

Nos últimos anos o Sr. evitou em falar sobre o plano de segurança para os 10 dias do festival (09.-19/02). Entretanto, depois do dia 19 de dezembro, a percepção do que é se sentir seguro ou não, mudou. A minha pergunta é precisamente se houve um ajuste ou uma mudança na concepção do plano de segurança para esta edição do festival“. Tendo balançado a cabeça afirmativamente quando mencionei sobre “a mudança da percepção de estar ou não seguro”, Dieter Kosslick nem tentou disfarçar sua preocupação. Mesmo assim. A única coisa concreta que ele declarou, em tom sério e conciso: “Nem todos que estarão ao redor do tapete vermelho serão convidados da Berlinale“, anunciando a presença de policiais à paisana.

A outra pergunta:

Vários países que estarão representados no festival passam por uma situação política, guardando os devidos graus de seriedade, “difícil” para dizer ao mínimo. Eu penso em países como a Turquia, o Brasil, Portugal (onde produtores e cineastas independentes se encontram em divergência com a Associação dos Produtores de Cinema Independente (APCI)) e, em âmbito mais grave, os EUA. É bem provável que haja vários protestos durante o festival. Como a Berlinale, festival essencialmente político, irá lidar com isso?”

Eu acho que não será necessário protesto. O nosso programa já exibe um protesto“, declarou, tentando botar panos quentes em momento de grandes turbulências.

Em outro contexto, quando falava da plataforma de talentos “Berlinale Talents”, que conta neste ano com uma robusta participação de jovens cineastas brasucas (o Blog noticiou), Kosslick elogiou a participação de “250 jovens cineastas de todo o mundo”, ratificando a liberdade de ir e vir e criticando, indiretamente, o bloqueio protagonizado por Donald T. no último fim de semana.

As críticas do diretor ao atual morador da Casa Branca se mostrou, ao mesmo tempo, econômica e sarcástica. Kosslick, não pronunciou nem uma única vez o nome daquele que, atualmente, deixa o mundo em estado de choque.

Embarcando no sarcasmo ele se referia ao presidente como “o futuro ex-presidente dos EUA” e aposta num Impeachment, posicionamento infactível da perspectiva de hoje. Seria um alívio poder ignorar o Donald. T como num passe de mágicas. 

Em entrevista ao principal noticiário da RBB, TV regional de Berlim, foi exatamente a minha pergunta feita pela manha sobre “potencial de protestos devido à situação nos EUA” que o ancora Sascha Hingst fez. A resposta foi um Vale a Pena Ver de Novo: “O nosso programa é protesto o suficiente“. Eu tenho certeza que não. Já existe nas redes sociais uma #Hashtag contra a visita de Donald T. na cidade hanseática de Hamburgo para o encontro do G20 em julho. Isso, é só o começo.

Kosslick garantiu que, apesar de “tempos difíceis” os filmes dessa edição da Berlinale instigam a confiança, a alegria e sim “é possível rir”. Antes de lançar essa mensagem coragem, ele leu um verso do poeta e cantor Wolf Biermann, figura-chave na resistência artística e política da Alemanha Oriental e que, depois de conceder um show na cidade de Colônia em 1976, foi impedido de retornar ao lado comunista.

Quem vem?

A página 18 da folhas na mão do chefe da Berlinale continha as informações mais cobiçadas e isso acontece todo o ano. “Quem vem?”. Quais são as estrelas que estarão desfilando ao longo do tapete vermelho em frente ao Berlinale Palast, cinema principal do festival e localizado no prestigioso endereço Praça Marlene-Dietrich.

Estrelas que marcam presença em Berlim:

Penelope Cruz

Richard Gere

Catherine Deneuve

Catherine Frot

Hugh Jackman

Robert Pattinson

Geoffrey Rush

Milena Canonero

Dados estatísticos:

Nesse meio tempo a Berlinale custa 25 milhões de euros, conta com 30 patrocinadores nacionais e internacionais.

Ao todo serão 399 filmes para serem vistos durante 10 dias, sendo que 74 deles são alemães.

A competição conta com 3 diretores alemães: Volker Schlöndorff, Andres Veiel e Thomas Arslan.