O Poker político em Berlim entrou na prorrogação e Merkel é só coadjuvante

O Poker político em Berlim entrou na prorrogação e Merkel é só coadjuvante

Fátima Lacerda

18 Novembro 2017 | 19h18

©DPA

Nas últimas quatro semanas, o circo político em Berlim exibe, de forma clar, que o tempos mudaram. Outrora, durante as chamadas “Conversas de Sondagem” que precedem as “Negociações de Coalizão”, a chanceler era a protagonista, mesmo quando representada pelos chamados Unterhändler, representantes dos respectivos partidos (CDU, CSU, Verdes e os Liberais Democratas). Esses quatro partidos, de programática dicotômica precisam encontrar um denominador comum para formar o novo governo. O primeiro prazo de apresentar o serviço era sexta-feira (16) ao meio-dia, horário local. Existe muito caroco no angú a ser cozido que as sondagens tiveram que ir para a prorrogação, na melhor dramaticidade de uma final de campeonato de futebol.

Um aspecto que, a priori, possa parecer mundano exibe a complexidade das sondagens. O chefe do Partido Democrata Liberal (FDP, na sigla em alemão) no auge dos ânimos exaltados com o tempo já avançado, nomeou as sondagens como “Negociações disfarçadas”. Na manhã de sábado, em frente à sede do CDU, onde as sondagens entraram na prorrogação, com toda a dramaticidade de um jogo de futebol que decide o campeonato onde muita coisa está em jogo, Christian Linder, falou à imprensa: “Estamos nessa lenga-lenga há quatro semanas! Numa hora tem que aparecer o resultado! Amanha (Domingo) às 18 horas é o ponto final“, disse ele enfatizando com voz  de quem está no limite e não “somente” pelo motivo de que foi degradado a expectador da disputa entre o CSU da Baviera e os Verdes. Os dois partidos, um na direita conservadora e o outro na esquerda liberal não poderiam ser mais antagônicos. Mesmo se o casamento por conveniência se realizar, é questionável se ele segura quatro anos de governo e com a estabilidade necessárias para arregaçar as mangas e delinear o futuro do país: objetivos climáticos, digitalização, prevenção de pobreza na velhice e a crônica falta de mão de obra especializada em inúmeros setores.

Um dos temas mais discutidos durante a semana e, visivelmente, uma pedra no sapato dos Verdes são questões imigratórias: se os que obtiveram asilo político poderão trazer suas famílias para a Alemanha ou não virou uma questão de ser ou não ser e considerando os dois partidos dicotômicos (CSU e os Verdes) isso é realmente uma questão crucial.

Alegando ser imprescindível uma “politica imigratória humanista”, os Verdes não estão dispostos a abdicar de certos parâmetros. Quando à famigerada lista dos chamados “Países de proveniência segura”, os Verdes estão dispostas a ceder e ampliar a lista dos países assim classificados. Requerentes desses países tidos como “seguros” não terão o direito de pedir asilo político no país. Com isso, o novo governo alemão (se ele for constituido) quer satisfazer os “corredores” da direita dos partidos de Merkel, o CDU & CSU que formam União, bancada mais forte do parlamento alemão,o Reichstag que teve sua Sessão Constituinte em outubro passado.

A Alemanha já viveu essa situação antes, ou seja, ter empossado o parlamento, que é o mais numeroso da história do país, sem ter um governo formado e empossado. Porém a situação atual mostra alta dramaticidade pelo fato das 4 semanas passadas não terem trazido nem o cheirinho de um denominador comum. O negociador dos Liberais e carro-chefe do partido na região de Schleswig-Holstein, costa norte do país, foi taxativo na manhã de sábado: “Entre os 100 itens que temos que sondar, acertamos dois e ficamos atolados no terceiro“.

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Merkel é só coadjuvante

O que também salta aos olhos claramente nessas sondagens é que ausência quase total de Angela Merkel. Quando muito, ela se posiciona na varanda da do prédio, ao lado do Reichstag (foto: a chefe do partido verde e negociador dos Liberais Democratas)  onde foram feitas, até a sexta-feira (17) as sondagens.

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A ausência merkeliana tem motivos bem mais do que “somente” estratégicos, do tipo, deixem os negociadores fazerem o trabalho pesado.

Merkel, ainda tem nas mãos o trunfo de, com a União, formada pelo CDU e CDU, a bancada mais numerosa. Segundo a legislação eleitoral, quem tem a bancada mais numerosa, ou seja, tem o milho, fica encarregado de fazer a pipoca. E de um jeito, que só ele (ela) pode fazê-lo. Porém Merkel precisa, agora mais do que nunca, do partido-irmão bávaro num casamento cheio de discórdia e incompatibilidade de gêneros.

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Um fantasma bávaro chamado Alexander

Fazer do defeito uma virtude” prescreve um ditado popular. Esse parece ser o lema de vida de Alexander Dobrindt, que no último governo ocupava a pasta dos Transportes e entrará nos anais da história germânica por ter sido o pior ministro desta pasta e também coerente com a política de bloqueio em frequência semanal,ao governo Merkel, do qual seu partido é o protagonista. Um colega do jornal espanhaol “El Pais” resumiu muito bem no período da grande coalizao com os socialdemocratas: “O CSU é a verdadeira oposição”. Agora, nesses tempos de Poker, de forma ainda mais pérfida motivado por regionalismo em detrimento dos imensos desafios que a Alemanha terá nos próximos quatro anos.

De ambição incontida, o baixinho sempre de ternos impecáveis e quase sempre na cor cinza tem ambições de herdar o “trono” de Horst Seehofer, o atual Ministro Presidente da Região da Baviera (Sul do país).

Xadrez político

Seehofer enviou Dobrindt, seu pau-mandado como chefe da delegação do CSU e negociador para a cova dos leões durante as sondagens como uma prova dos nove. Se ele conseguir dar mais contorno ao perfil programático do CSU, ele será bem remunerado.

O que se vê são os bávaros de olho nas eleições regionais em 2018 e os Verdes na batalha por manter a postura programática para poder enfrentar a base. Porém, enquanto os Verdes já se mostraram dispostos a compromissos, Dobrindt, a mando de Seehofer pratica um jogo sórdido. Por um lado, ele pensa nas eleições de âmbito regional da Baviera, por outro, para tirar o seu da reta ele vai tecendo o poker de uma forma para poder colocar a culpa nos Verdes caso até na noite de domingo (pode ser também pela madrugada de segunda) caso não haja consenso e o Presidente da República, o socialdemocrata Frank-Walter Steinmeier não tenha outra opção a não ser, dissolver o parlamento que acaba de tomar posse e convocar novas eleições.

No noticiário de sábado (18) às 19 horas horário local, jornalistas se amontoavam debaixo de chuva em frente à sede do partido CDU aguardando informações. O prazo para um resultado é de domingo às 18 horas, mas fora o chefe dos Liberais, ninguém conta com isso.

O que é fato

Os nervos da maioria dos participantes estão a flor da pela. O negociador dos Liberais, Wolfang Kubicki declarou, em entrevista na sexta-feira pela manhã na TV: “Eu tive que ligar para minha mulher em Kiel (norte do país) para me trazer mais camisas. Todas as que eu tenho em Berlim estão sujas” disse o Richard Gere da política alemã.

O que ninguém esperava, é que os Verdes, tidos pelos bávaros como os culpados das delongas das sondagens se mantém calmos, serenos e pragmáticos. No próximo sábado, em convenção federal, a base dos Verdes decidirá se irá ou não participar das “Negociações” para a Coligação Jamaica, que tem esse nome em homenagem ao país caribenho devido às cores dos respectivos partidos. Em toda a sua carreira política, Merkel nunca teve uma tarefa de Hércules como aquela que deve asfaltar o seu quarto mandato.

Jamaica ou novas eleições?

Transporte e depois Agricultura e Direitos do Consumidor e Questões climáticas são alguns dos temas em pauta. No domingo, o dia D e que decidirá se a coalizão Jamaica entrará na fase de negociações ou se o presidente alemão convocará novas eleições, será o dia de sondagem sobre Finanças incluindo a política de austeridade econômica defendida até agora por Angela Merkel. 

Assuntos em pauta

O partido de Merkel vendeu seu peixe afirmando ter conseguido progressos no âmbito da economia e desburocratização.

Quanto à política de imigração, os Verdes se mostram flexíveis e alegam concordar com a famigerada “Obergrenze” o número limite de refugiados permitidos a entrar na Alemanha mas exigem que o direito ao Asilo Político se mantenha, luta exaustivamente protagonizada por Seehofer, o autodenominado “Rei da Baviera”. Mas essa sugestão só ira valer e o partido bávaro concordar com o item que permite aos exilados políticos com requerimento deferido positivamente, mandar buscar suas famílias e levá-las para a Alemanha.

Da perspectiva da noite deste sábado, ninguém irá ousar um prognóstico daquilo que pode ser chamado como repescagem das conversas de sondagens, que são cronometradas de hora em hora pela mídia e pelas redes sociais. Até mesmo quando os negociadores dos respectivos partidos fazem uma interrupção de duas horas. Puro suspense no Poker do ano.

O tabloide Bild fez questão de dar seu pitaco. Na manchete da versão digital do sábado (18) está escrito: “Cheguem logo a um acordo. Não pode ser tao difícil!” assim o apelo do tabloide sensacionalista e que serve de adubo para discussões polêmicas na mesa do bar ou no refeitório da fábrica. Um outro jornal publicou aquilo que diz ser “o pensamento do povo”. “Como DISSO ai irá sair uma coligação? Que vexame!” com uma foto exibindo Merkel, seu braço-direito Peter Altmeier e a dupla que forma a diretoria dos Verdes, Göhring-Eckhardt e Cem Özdemir.