Merkel na linha de fogo de partidos populistas de direita

Fátima Lacerda

09 Outubro 2015 | 18h26

Não foi dessa vez que Merkel levou o Prêmio Nobel da Paz. Melhor assim. A chanceler está no meio da sua Tarefa de Hércules, que é manter seu foco na situação dramática dos refugiados. Viesse o Prêmio, mesmo que por poucos dias, o foco teria sido desviado. Merkel precisa de toda a minuciosa atenção para o seu maior desafio desque que ocupa o cargo de chanceler. As forças populistas e direita estão tentando a todo o custo tirar capital da situação já de olho nas eleições regionais no início de 2016.

A já por vezes aqui mencionada coletiva do 31 do mês 08, quando Merkel ousou a mudança de paradigma, pelo menos uma vez: tomou clara posição sobre um tema e até agora, e isso deve ser contabilizado positivamente na conta da chanceler, ela mostra firmeza. A coletiva, na qual Merkel divulgou “Nós conseguimos topar esse desafio” é ainda mais importante do que a concedida quando recém-eleita em 2005. Na época, Merkel apelidada pela imprensa como “Fria como gelo”, foi indagada por uma repórter da BBC: “A Sra. acabou de ser eleita chanceler da Alemanha, a primeira mulher no cargo na história do país. Como a Senhora se sente?“, indagou a repórter aquilo que o país inteiro queria saber e não tinha coragem de perguntar. Depois de uma pausa sentida de horas, Merkel respondeu com toda a calma e neutralidade dos adeptos das ciências naturais: “Comigo, tudo bem”. Isso foi tudo. Ali se mostrava o estilo de governo que se desdobraria durante 10 anos, até que numa discussão transmitida pela TV com Merkel em conversa com alunos de uma escola da cidade de Rostock (nordeste do país). Merkel é pega de surpresa ao se deparar com uma menina palestina, que topa questionar a mulher mais poderosa do mundo e isso, dominando um alemão para berlinense nenhum botar defeito. Um alemão que ela não “somente” domina na sintática e na semântica. Keem encorporou a língua de Goethe e Schiller e desconcertou a chanceler, que revidou: “Nem todo mundo tem um talento desses”. Ter levado a menina a chorar a declarar que “não podemos receber todos que querem vir para o país”, gerou a Merkel críticas duríssimas, até mesmo do tabloide Bild, auto-declarado admirador da chanceler.

Em programa de cunho político da noite de quarta-feira (07), Merkel confessou à jornalista Anne Will que a experiência da conversa com a palestina Keem, a fez refletir muito.

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E agora Frau Merkel?

As forças políticas populistas de direita e a das que já disseram Auf Wiedersehn para os parâmetros constitucionais, massacram a chanceler com ideias oportunistas e sem qualquer base jurídica. Hoje, mais uma vez, Horst Seehofer, chefe do partido bávaro, o CSU, usou as luzes do circo político ameaçando processar contra a União, se a mesma não “reduzir radicalmente o fluxo de entrada de refugiados no país”. Seehofer argumenta que, com o “fluxo desregrado”, a União prejudica o âmbito estatal. As chamadas Länder, na Alemanha ao todo 12, tem total autonomia em vários setores, como por exemplo na educação. Para ratificar que é “A voz bávara em Berlim“, ele convocou hoje (10) uma reunião extraordinária do gabinete do seu governo. Como exatamente o “Rei da Baviera” irá recorrer à justiça, ele não concretizou. Quanto à reivindicação de “fechar as fronteiras” e despachar os refugiados sem visto para a Áustria, Seehofer conta com a ingenuidade dos eleitores. Como vários expertos alertaram nos noticiários ao longo do dia, a proteção da fronteira interna da Alemanha é de responsabilidade da polícia federal, que por sua vez está subordinada ao Ministério do Interior, ou seja, no âmbito da União. O que o âmbito político regional permiete, é a prisão de refugiados infratores que já dentro do país. Nada mais.

Seehofer é um egocêntrico vaidoso e perigoso ao semear o ódio e a inveja na população quando difere entre “Refugiado bom” e “Refugiado ruim”. Ele joga tudo no ventilador sem pensar duas vezes e sem pensar nas consequências. Além disso, quem o ouve falar, poderia até pensar que ele não faz parte do governo e sim fala da perspectiva da bancada da oposição. Porém, o contrato de coalizão entre o CDU, partido de Merkel, os social-democratas, o SPD contém reivindicações do partido de Seehofer, muitas delas absurdas, mas tem a “assinatura bávara, sim.

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Alternativa para a Alemanha?

Hoje também foi o dia de coletiva agendada pelo partido populista de direita, “Alternativa para a Alemanha” (AfD). Depois da recente racha ideológica de diferentes tendências do partido, que através de ex-chefe conseguia manter uma aura constitucional, o AfD “escorregou” ainda mais para a direita. O que restou são forças reacionárias e seguidores da ideologia marrom. Não faltam na lista de membros, ex-ativistas do partido nazista, NPD e da cena neonazista, especialmente das regiões da Saxônia, leste do país.

A coletiva de sexta-feira (09) protagonizada pela chefe do  partido, Frauke Petry e seu vice, Alexander Gauland (que mais parecia um funcionário de alto escalão do Politbüro da ex-Alemanha Oriental) anunciaria “medidas a serem tomadas de imediato na crise dos refugiados”. As medidas foram similares as exigidas por Seehofer. Certamente o partido bávaro nunca teve, ideologicamente, tão perto do partido mais questionável da Alemanha. Suas reivindicações são baseadas em exclusão social, hostilidade à aquilo que é desconhecido do europeu central e um pânico da Islamização do Ocidente, pânico esse que tem o mesmo denominador comum do movimento PEGIDA, que aterrorizou a Alemanha no final de 2014, levando mais de 15 mil pessoas às ruas, todas as segundas-feiras. Para não deixar barato, o AfD apresentou à imprensa uma declaração por escrito que expressa o intuito de abrir queixa contra a chanceler Merkel. A acusação se refere ao fato de Merkel ter dado o aval para os refugiados, então detidos pelo governo de Viktor Orban, na Hungria, pudessem imigrar para a Alemanha. Gauland, o vice-chefe da AfD acusa Merkel de “contrabando” e a coloca no mesmo patamar dos criminosos responsáveis pela morte de inúmeros refugiados no Mar Mediterrâneo..

A coletiva, tanto de Seehofer quanto do partido AfD vem especialmente como reação à entrevista exclusiva dada por Merkel num programa político de TV na última quarta.feira (07). Merkel foi transparente quando declarou continuar a sua política anunciada no final de agosto. Mais do que isso. Para mostrar que essa questão é de extrema prioridade em seu governo, ela passou toda a coordenação política entre os respectivos ministérios e os estados (Länder) para o âmbito da chancelaria federal, desbancando assim, o Ministro do Interior, Thomas de Mazière, o menos competente membro do gabinete Merkel e figura constante nos programas de sátira política.

Mesmo perdendo pontos de simpatia na lista de políticos, Merkel conta com o apoio dos alemães na medida em empresariar o Task Force, melhor, do seu braço direito,  Peter Altmeier, um dos poucos que goza da total confiança da chanceler. 

Quanto à um posicionamento as reivindicações de Seehofer, Merkel irá ignorar até a poeira passar e quando na noite de domingo (11), os Ministros do Interior do âmbito estadual estiverem aceitado o convite da chanceler para um jantar, Seehofer estará lá e tudo o que aconteceu hoje será “neve do dia anterior” ou Merkel vai, com algumas poucas frases, relembrar quem é que manda no pedaço. Seehofer é um cachorro que ladra, mas não morde. Entretanto, suas tiradas são perigoso estopim político e a perspectiva de angariar eleitores da AfD.

O “Barômetro político”, estatística divulgada sempre nas sextas-feiras pela rede aberta ZDF, atesta nesta semana que 46% dos alemães estão satisfeitos com a política dos refugiados de Merkel e 48%, são contra. Entretanto, a maioria continua achando que a chanceler faz bem o seu trabalho.

Com ou sem o Prêmio Nobel da Paz. A política merkeliana tem outra cara e é bom que continue assim. Nao “somente” a Alemanha não será o mesmo país, depois que o fluxo dramático de imigração os refugiados tiverem encontrado algo parecido com uma normalidade ou uma rotina. Também a chanceler nunca mais será a mesma. A “Merkel fria como gelo”, deu lugar a uma chanceler humana, de carne e osso, resultado de numa virada de 360 graus, com a qual ninguém contava, muito menos Seehofer, o auto-denominado “Rei da Baviera”.