O que os alemães podem aprender com o Brauly?

O que os alemães podem aprender com o Brauly?

Fátima Lacerda

02 Novembro 2017 | 12h11

José da Cruz Silva, vulgo Gleyfy Brauly, já era presença constante nas redes sociais, mesmo antes do acontecimento que seria causaria uma reviravolta em sua vida. Depois que ninguém menos que Nick Mason, baterista do Pink Floyd postou um comentário em seu Facebook sobre a performance do piauiense com um dos sucesso atemporais da banda, “Quando você soa tão bem assim, você nem precisa saber todas as palavras”, o baterista contribuiu para o desencadear de uma avalanche na carreira de Brauly. O sucesso também se deve à  uma numerológa, que o aconselhou a colocar 3 ýpsilons no nome.

Prontamente o “Fantástico” foi procurar o performista. Brauly não é cantor, é um performista. Me lembro que a primeira vez que tomei conhecimento do gajo foi através de um vídeo que um amigo do Rio enviou com um video onde ele entoava a música famosa na voz da cantora americana Tracy Chapmann. Na legenda estava escrito:” Que língua é essa?”. No caso, era mesmo o velho inglês, mas de forma tão desestruturada, que não se constatava de inicio. Desde ai, me tornei fã de Bráuly, esse cara magrelo, que usa o óculos escuro enquanto o de longe, fica pendurado na blusa e que maltrata os teclados e canta como se estivesse em jejum há muitos dias- Porém, instiga pela garra com o que faz, acima de tudo, pela postura sem medo de ser feliz. Depois do comentário de Mason, Brauly declarou no “Fantástico” que as ofertas aumentaram consideravelmente e extrapolam as fronteiras nacionais. Brauly, do Piauí para o mundo!

Numa mistura de cara de pau, garra, motivação e, decerto lá atrás por falta de alguma opção, o piauiense ratifica o que pra mim, é a essência da alma brasileira: a capacidade de superação, tirar leite de pedra. Brauly também foi no programa do Fábio Porchat na Record, só para citar alguns.

O que os alemães têm a ver com isso?

Provavalmemte depois dos arrasadores 12 anos do Nacional socialismo de Hitler, os alemães trazem na alma, em sua cultura um crônico sentimento de inferioridade. O extremo desse sentimento que, durante décadas, foi incentivado nas escolas, no âmbito familiar e na opinião pública se exibe na fila de um supermercado ou num lugar onde haja uma grande quantidade de pessoas.

Em alguns casos, este quadro toma um aspecto esquizofrênico, num intercalar entre reações agressivas e submissa,  já que o equilibro entre potência e impotência nunca foi almejado.

Na Alemanha, os entreveres não acontecem na dinâmica insana e incessante como no Brasil e quando eles acontecem, “bate na porta” como prescreve um ditado popular, podem “quebrar” o alemão, fazendo-o cair e nao conseguir mais levanter. Avassalador é a paúra de pagar mico, de ser exposto, se ver constrangido. Todos os passos precisam ser, meticulosamente, planejados e nada, nadinha deve ser deixado ao acaso porque o acaso “nunca foi um bom conselheiro”. Essa característica arraigada culturalmente, estrangula o quesito espontaneidade, o famoso jogo de cintura sem o qual, no Brasil, não se sobrevive.

O medo do vizinho: o velho e o novo

Quando se tem um vizinho que desagrada, você conversa com um alemão massacrado por isso, ouve todas as histórias que vão de denunciação por ter ligado a máquina de lavar durante o período de silêncio estipulado pelas administradores ou a reclamação perante a administradora que as janelas das escadas foram deixadas abertas quando lá fora a temperatura beirava os 30 graus. Isso com uma veemência como se tratasse da politica externa de um pais, da taxa de juros e os cortes na aposentadoria. Certo dia, esse mesmo alemão te encontra, por acaso, na rua e conta que o tal vizinho vai se mudar e eu fico feliz por ele. Em sua voz sinto, porém, algo de amuado. Com o meu tom terapêutico e instigando alegria na veia dos alemães, digo eufórica. Poxa que legal! E você, feliz?!. Ele, com rugas na testa, responde: A gente não sabe se o outro vai ser pior”, retruca.

O Lenine tem razão quando canta: “Ninguém faz ideia de quem vem lá”, mas é exatamente por isso, é preciso louvar aquilo que os alemães chamam de “experiências de sucesso”. São exatamente elas que nos possibilitam tomar fôlego para o que vir na sequência. 

São percalços até mesmo de pequeno porte que quebram os alemães enquanto o brasileiro (e de forma ainda mais extrema, o carioca) arremataria o tema numa conversa de bar ou numa caminhada na beira da praia do Leme ou no degustar de frutos de mar na Rua Gustavo de Sampaio.

O brasileiro cai na lama, todo rachado, levanta com a calça rasgada, todo sujo e segue em frente. Seja ao pedir crédito no banco sem saber como poderá pagar “Deus ajuda”) ou ir no Ponto Frio ou nas Casas Bahia comprar uma geladeira, sem dinheiro no bolso, para pagar prestações a perder de vista. Quando a geladeira é entregue, a família se alegra pra somente bem depois, provavelmente com a chegada do boleto, pensar como resolver o abacaxi. Os alemães já queimam neurônios sobre como pagar a prestação de uma dívida que eles nunca irão fazer!

Os budistas ensinam de forma sábia: “A gente pensa nisso, quando tiver que atravessar a ponte”. Decerto que, quem vive num país, onde o “planejamento é a metade do aluguel” (ditado popular) não fica isento dessas injeções culturais.

No tempo em que eu deitava no divã, fazendo psicanálise em alemão (!), frente aos meus conflitos diante de duas culturas tão dicotômicas, a psicanalista aconselhava:” A ciência é juntar as duas percepções: a carioca, a alemã e torná-las uma unidade em harmonia”.

É sempre aconselhável ter na cartola, um Plano B e ter em mente o que, sabiamente, ensina Djavan em “A Carta”: Não vá levar tudo tão na boa. Brigue para obter o melhor”.

Bombando!

Com um respeitável repertório de 1000 músicas e até mesmo rascunhos com as letras escrito em língua desconhecida para quem vive fora do universo brauliano, depois do comentário de Mason o piauiense virou celebridade. Entre as músicas do vasto repertório, a “Winds of Change” (Ventos de Mudança) de autoria da banda alemã “Scorpions”, originariamente da cidade de Hanover. A canção foi número 1 na parada de sucessos em 1990, logo depois da queda do Muro de Berlim e inúmeras vezes executada pela banda, na frente do Portão de Brandemburgo. Se Brauly tem conhecimento do significado e simbologia dessa música? Tanto faz. O que importa é o Feeling, é a intenção, a forma.

Em entrevista para o “Fantástico” ele alegou que tem pedidos de show, além de Teresina, no Uruguai, Paraguai, Chile e até mesmo Portugal. Brauly avisou que até já comprou a mala. Só falta os portugueses trocaram o show de Reveillon de Fafá de Belém, tradicionalmente, no Casino de Estoril, por uma noite com Brauly!

A dobradinha de trilhar o infactível, ousar o imperfeito, fraquezas e não ter medo de dar a cara para bater (resultante de uma necessidade ou de teimosia ou das duas) como faz Brauly seria infactível para os alemães, povo que precisa de garantias já no início do andar da carruagem, controle total sobre tudo e todo o tempo e que, não suporta ser colocado na berlinda, como forma de constrangimento. A pior de todas as coisas para um alemão é se tornar centro de atenções e o exemplo mais crasso disso é a fila de supermercado. Por isso, será muito difícil você presenciar um alemão pedindo para o gerente da loja abrir um novo caixa. Se você presenciar isso em qualquer lugar da Alemanha, a probabilidade que seja um estrangeiro é de 90%. Socializados em outras culturas não sofrem da paúra de se ficar na berlinda.

Brauly é um magrelo desengonçado e sua performance deixa duvidar a existência de uma veia artística no senso restrito e acadêmico. Os critérios que regem abaixo da Linha do Equador, são bem outros.

Se o conteúdo não é dos melhores, a forma pode torná-lo secundário ou até amargurar na insignificância. Como o sucesso causa inveja e admiração, o sucesso atingido pelas laterais, por caminhos tortuosos, também. Hoje, Brauly é uma celebridade procurada por aqueles que vem com pauta ou um Selfie com ele, audiência e momento celebridade, garantidos.

Na Alemanha, a ousadia para a imperfeição e para seu culto, é raríssima. Na melhor das hipóteses no programa similar ao “The Voice Brasil”, (DSDS) a imperfeição chegando à total falta de talento de candidatos/aspirantes à celebridade, irá gerar audiência para aqueles que se encontram na zona de conforto oferecida pelo sofá da sala da própria casa se divertindo com o constrangimento alheio.

No Brasil, os presentes nos shows de Brauly, se orgulham de fazer cenário para o piauiense e tirar uma casquinha do sucesso, dançar coladinho e tomar um ar de internacionalidade com sucessos ever-greens como o de Pink Floyd. Que o conteúdo dessa música é uma ácida crítica ao ensino escolar hierárquico, a maioria dos admiradores de Brauly não sabe. A invencibilidade da forma e solos tropicais é algo infactível em solos alemães, onde não há o desprendimento para ousar a imperfeição e os riscos que ela traz.