O “Zeitgeist da Nova Berlim” no CCBB RJ: para inglês ver

Fátima Lacerda

05 Abril 2016 | 13h11

Zeitgeist é sempre um termo que evoca atenção, não somente por ser na língua dos imortais Schiller e Goethe, mas pela essência do próprio substantivo: fisgar o espírito do momento: na política, no estilo de vida, nas artes plásticas. Com esse chamativo, o CCBB prometeu em sua filial carioca, um apanhado, um flash da atual Berlim com a exposição que foi até ontem.

Quem não foi conferir as pecas de Frank Thiel, Reynolds Reynolds e Friedericke von Rauch, não perdeu muita coisa.

CCBB

O prédio de arquitetura austera na rua Primeiro de marco número 66, no igualmente, caótico e efervescente centro do RJ já se mostrou o total contraponto à dialética berlinense. Nos corredores e na entrada do Centro Cultural, estão posicionados seguranças e, por vezes, policiais fardados. O prédio é lindo, mas tirando as Mostras de Cinema, como a recente “Mostra Livre” é um lugar frio. Não pelo público, mas pelas salas.


Teria combinado com a atual Berlim (e talvez a Berlim de sempre) se a exposição tivesse acontecido num lugar que não possibilitasse hierarquias, nem por dentro, nem por fora.

“29 artistas de Berlim” assim informava o site do CCBB, não conseguiram dar à exposição a cara da capital da Europa. Na parte traseira dos ônibus da capital fluminense e nos arredores do centro cultural, era prometido uma mostra sobre a atual Berlim, cidade tão indefinível e, por isso, tão instigante.

Berlim é indefinível exatamente por estar sempre em movimento, por ser uma metamorfose ambulante. Tudo isso confere. Porém a curadoria, feita por Alfons Hug, há mais de 10 anos diretor do Instituto Goethe no Rio de Janeiro. Antes, foi diretor do mesmo instituto em Caracas, na Venezuela. O conheci na época em que fiz um estágio na Casa das Culturas do Mundo, em Berlim. Na época, ele ocupava o cargo de diretor do departamento de Artes Cênicas

Dois empecilhos

Há quase 20 anos, Alfons Hug não vive em Berlim. Mesmo visitando a cidade regularmente e com toda a sua sensibilidade artística ele se deixou levar pelo previsível, pelo terreno seguro. Não correu riscos.

O conteúdo da exposição, num lugar frio, especificamente no primeiro andar do CCBB foi um chover no molhado e a mostra de uma Berlim que existiu num período de tempo já passado.

Quantos brasileiros já não vieram para Berlim fazer da noite o dia e badalar nos clubes noturnos de música eletrônica? Num tempo de outrora, o templo dessa música que é tão a cara de Berlim,  era o “Tresor“, (Cofre) e que teve que ser sacrificado “em prol” do projeto urbano e comercial que hoje é Potsdamer Platz. No “Tresor” você chegava às 07 horas da manhã de domingo e a festa estava no seu ápice. Toda hora era hora. Hoje, é o Berghain (Uma brincadeira linguística que une o nome dos dois bairros mais efervescentes da capital, Kreuzberg e Friedrichshain), o  endereço “cool” que consta no guia turístico e é  inclusive procurado por globais que visitam a capital. Não “somente” depois de “Império” e “A Regra do Jogo“, onde Berlim foi várias vezes mencionada e já quase virava enredo das novelas, Berlim se tornou a cidade tal e tanto, mesmo que esse marketing, praticado teimosamente do lado de cá e de lá do oceano, já venha exibindo critérios de saturação.

E que o curador da exposição no CCBB usou uma colagem fotográfica de DJs do Berghain ratifica a minha tese de que a exposição pecou pela superficialidade, pelo óbvio. O caráter cinzento, sombrio da cidade e com beats de música eletrônica ao fundo e até mesmo uma salinha imitando o lugar de um clube noturno (Club Berlin) faz da exposição algo desconfortante num lugar altamente inapropriado para a mesma. Em contraponto, as telas xxl de obras na Alameda Leipziger Platz, pareciam “encaixadas” nas salas minúsculas. A ideia da dicotomia entre o apertado e apreensivo, a solidão de um lado e o largo como metáfora de algo novo que possa surgir ou até mesmo como sinônimo de Freiheit, não vingou. Também a tela denominada de “Fragmentos” (Fragmente) do artista plástico Frank Thiel em tons pastéis geravam, no mínimo, espanto. Se existe uma cor com a qual não se associa Berlim, é a cor pastel.

O clima com os seguranças ali na tua cola não poderia ser de maior estranhamento quando o foco temático é Berlim.

Frank Thiel e Friedericke von Rauch foram alguns dos artistas que participaram da exposição, que não poderia ter lugar mais errado. O exalar institucional e de austeridade do prédio do BB não poderia fazê-lo ser pior escolha. Divertido, para dizer ao mínimo, é que ainda tem gente que acha que, sendo convidado da festa de arromba que aconteceu no dia 19/03 com música de DJ’s berlinenses numa orgia musical-eletrônica, a qual foi prometida no site como: “uma invasão pelo underground techno dos clubes de Berlim“que estaria aspirando o Zeitgeist da capital cultural da Europa.

Os clubes berlinenses “Cookies“, “Gretchen“, “40 Seconds” “Felix” e até mesmo o  “Berghain” são nomes em check-list obrigatória para quem vem a Berlim e quer conhecer suas famosas “noites longas”, mas não tem nada de alternativo e nada do ueber-propagado Zeitgeist.

O Rio é uma cidade careta. Berlim não.

Antes do início da festa, você precisa pegar uma senha. Depois da uma festa que foi até as 03 da madrugada num local frio como o CCBB do RJ, você depende da boa vontade de um taxista para te levar em casa e topar fazer o teu trajeto. Encarar ônibus, nem pensar! O carro se faz imprescindível na capital fluminense. Para o medo de sair na madrugada ali nas redondezas da Candelária, a gente faz vista grossa, mesmo porque a cabine na frente do CCBB tem os vidros quebrados e os dois seguranças ali na porta são só pra constar.

É covardia mencionar que, depois de uma festa em Berlim, acabe ela a que horas for, você pega a sua bicicleta para voltar pra casa. Se precisar de metrô, vai ter em algumas linhas que viajam a noite toda nas madrugadas de sábado e domingo. Terá também S-Bahn, o trem que vai pela superfície, mesmo que o o intervalo de espera seja de 20 em 20 minutos.

Quem quiser conhecer realmente o Zeitgeist de Berlim precisa visitar exposições que não priorizem uma legitimidade institucional como se a mesma fosse a carta de alforria para o conteúdo a ser exibido. É preciso valerem outros critérios. Nein!

O Rio de Janeiro, possui sim, lugares que, pela arquitetura e cenário urbano, seriam bem mais felizes para uma exposição sobre Berlim do que as dependências do CCBB.

Tirando os noves fora

Para abrir um clube noturno em Berlim é preciso, acima de tudo, boa música, um DJ com especial faro para o Zeitgeist do momento, cerveja, um lugar bacana, de preferência à beira do Rio Spree ou algum lago na efervescente parte leste da cidade. O restante dos ingredientes são os convidados que fazem do local um lugar atrativo ou não.

Quem foi conferir a exposição no prédio do CCBB viu algo cosmético com a etiqueta de um Zeitgeist que, há tempos, já foi…

Links relacionados:

http://www.artnet.de/k%C3%BCnstler/frank-thiel/stadt-1287-berlin-a-01wTRXfCXLrsJaJnqlcbRw2

http://www.vonrauch.com/

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