Os social-democratas alemães: a crise de identidade e a guinada de 360 graus

Os social-democratas alemães: a crise de identidade e a guinada de 360 graus

Fátima Lacerda

08 Dezembro 2017 | 13h17

AFP

Naquela noite de 24.09, no dia das Eleições Gerais e quando o primeiro prognóstico de intenção de votos foi divulgado, Martin Schulz, chefe dos social-democratas e ex-presidente do Parlamento Europeu deu o maior tiro no pé de sua longa carreira política: “Não vemos, em hipótese alguma dar continuidade a “Grande Coalizão“, declarou de forma precoce, com se constataria, na sequência.

Vaidades masculinas e a constante paúra

“A melhor defesa é o ataque” diz um ditado popular. Como havia perdido um percentual avassalador de eleitores, e de fato, ter perdido a eleição, Schulz decidiu ir para o ataque, sem mesmo esperar o dia seguinte para decidir de mente fria e clara. A ideia era ignorar Angela Merkel, por ela ter angariado todos os bônus de medidas tomadas durante a Coalizão, mas que eram ideias dos social-democratas, do SPD. A fatura não fechou. Foi Merkel que angariou pontos do eleitorado. Para a ira do SPD.


Schulz, que no início do ano havia sido eleito com 100% de aprovação em convenção nacional do partido, se viu contra a parede. Como perdeu as eleições, não “somente” por falta de competência de chegar ao eleitor como uma alternativa programática clara à chanceler, mas porque também sofreu (como todos outros partidos) com a ascensão vertiginosa do partido de extrema-direita populista, “Alternativa para Alemanha”. Desde que esse partido saiu vitorioso das eleições gerais, nada mais é o mesmo no cosmos partidário da Alemanha.

O fracasso de “Jamaica”

Depois do fracasso das conversas de sondagens, a erosão do poder de Merkel chegou ao seu ápice e ela não teve outra opção a voltar a bater à porta do vizinho que já havia batido com a mesma na cara dela.

Naquela segunda-feira (25.09.)de ressaca política, para dizer ao mínimo, a Alemanha, o país “estabilizador” e “determinador” das linhas na UE, se vê perdida e sem saber como formar um novo governo.

Esse terremoto impregnou tanto o discurso na sociedade alemã, que a palavra “Jamaika aus” (fracasso das sondagens para formar a “Coalizão Jamaica”, com os partidos de cores preta (União), amarela (Liberais Livres) e verde foi eleita, na manhã desta sexta-feira (08) a “Despalavra do Ano”(por sua abominação linguística e escolhida por um júri independente).

O presidente, o terapeuta 

Quando o parlamentarismo apresenta crise de identidade, é o Presidente da República, o primeiro na pirâmide do poder, que tem que “tirar as castanhas do fogo” (ditado popular). O também social-democrata, Frank-Walter Steinmeier teve que agir como um terapeuta que tenta colocar de volta à mesa de negociações, casais que se separaram por causa de declaradas “diferenças intransponíveis”.

Martin Schulz, sofrendo forte pressão da mídia e por consequência dela, da opinião pública e também alguns membros do próprio partido, que pouco a pouco iam saindo da toca e do armário, aceitou se encontrar com o presidente (seu parceiro de anos de trabalho no partido). Ter recusado o convite de tal patamar, teria sido o fim de sua carreira política.

Graças a Steinmeier e a mensagem de que agora o que importa é o país e não os interesses partidários, Schulz encontrou o melhor e o único álibi, digo, caminho de volta, sinalizando a disponibilidade de, sim, conversar com Merkel. Sublinhando o álibi oferecido pelo presidente, Schulz ainda usou de um argumento histórico, se referindo a vários períodos na história da Alemanha, desde sua fundação em 1875, por August-Bebel.

Se apoiando no sermão do presidente Schulz asfaltou o caminho de volta, porém seu poder dentro do SPD tem, no mínimo, o mesmo caráter de erosão que acomete a chanceler que, até bem pouco tempo, parecia inatingível e considerada pelo New York Times a “Última defensora dos valores ocidentais”. Pois é. A dinâmica dos fatos atropelou tudo. Atropelou todos. Inclusive Merkel, que por um crasso erro de cálculos, é uma das responsáveis pelo fracasso das sondagens para formar um novo governo.

©Cicero/

“Eu estou acabado. Nao tenho ideia de como iremos sair do nosso dilema” enquanto um delegado do partido, comenta: “Ninguém personifica melhor a alma do nosso partido. Devemos reegê-lo (diretor do partido).

Convenção federal

A mídia e analistas políticos eram uníssonos na percepção de que a convenção que iniciou na quinta-feira (07) em Berlim, seria “crucial” para o destino de Schulz, um erro crasso no cargo que ocupa e cada dia ele estrapola a paciência dos seus colegas e eleitorado, confirmando isso.

Em seu aguardadíssimo discurso, Schulz, em rotineiro tom de lamúria, como um trabalhador que está num emprego que só lhe da aporrinhação e que o qual ele acha que o exacerba, mas que por um motivo de orgulho, status e vaidade ou mesmo por temer prejuízo, ele opta por não jogar a toalha.

Para não perder o trem “Europa”

Mandando mensagem para os parceiros europeus, que se mostram preocupados com a atual situação em Germany, especialmente de território francês. O presidente francês Macron precisa da Alemanha para implementar sua visão da Europa ao mesmo tempo que é esperto o suficiente para não se mostrar, ainda, oportunista e ingênuo em querer ocupar o lugar, o vácuo (temporário ou não) deixado por Merkel.

Estados Unidos da Europa

Em seu discurso, o chefe do SPD, ainda naquilo que analistas denominam de “Departamento Ataque”, ele sugeriu a fundação dos EUA-Europa. As reações no Twitter sob o #Hashtag #sptbpt17 não demoraram a pipocar: um usuário LInus Manstein postou: “Quando você está na muito na merda, você precisa desviar a atenção na medida que você exige uma merda ainda maior, por exemplo, os Estados Unidos da Europa até 2025“.

A convenção ainda tinha em sua agenda, a votação do chefe. Desta vez, ao invés de 100% como nos tempos da Alemanha Oriental comunista, Martina recebeu 81,9% de apoio, o que comparado com o resultado do início do ano é um “bilhete de aviso para reflexão” (Denkzettel, em alemão), entretanto depois de muitos tiros no pé, o SPD mostrou disciplina em apoiá-lo, menos pelo que representa como chefe, mas para dar-lhe o respaldo e credibilidade ao encontrar com Merkel e Seehofer (CDU e CSU, União) para ver o que é possível. Schulz chegará ao encontro armado de um bilhetinho onde constam itens “essenciais” para que o SPD faca o “sacrifício” de ressuscitar a carne podre que já fedia.

Durante a convenção, foram horas de discussão sobre se o adjetivo “essencial” deveria ser modificado pelo item “inegociável”, que era o que pleiteava a ala jovem do partido, JUSOS, ala explicitamente contra a continuação da “Grande Coalizão”, mas que perdeu para o requerimento da direção do partido “Conversas de Sondagem com resultado em aberto”. Ainda usando do respaldo do partido para que sua cabeça não role, Schulz também reivindicou uma “Convenção Extraordinária” para pedir “sinal verde” para seguir em frente no intuito de formar um governo, mesmo que essa constelação tenha sido rejeitada pelos eleitores na última eleição. Esse trâmite burocrático-partidário irá alongar ainda mais a espera por um novo governo e sua posse.

Uma pesquisa atual sobre como os alemães veem o “requentar” da “Grande Coalizão” (GroKo, na abreviação) realizada pelo Instituto Wahltrend, mostra o seguinte quadro:

Dos membros dos social-democratas, o SPD

27,9% são a favor

56,5% contra

13% pela convocação de novas eleições, algo que o presidente da república quer evitar de todo o jeito.

Dos membros da União (CDU de Merkel & CSU da Baviera):

61,6% são a favor.

Isso não por gostar muito dos socialdemocratas, mas por temer a última opção de um governo de “Minoria tolerada”, o que obrigaria Merkel a sair pelos corredores do Reichstag batendo de porta em porta pedindo apoio de diferentes bancadas, todas as vezes que a União quisesse aprovar qualquer projeto de lei. Isso também significaria mais quatro anos de letargia no país.

Para os social-democratas está ainda muito mais em jogo o balanço mais não cai da cadeira de Martin Schulz, mas a existência do partido que, outrora era um “Partido Popular” e hoje não passa da marge dos 20%.

Já os bávaros precisam dos holofotes das sondagens já que, atualmente, a guerra pelo poder dentro do CSU se iguala aos tempos da Roma Antiga. As “Conversas de Sondagens” são fatores de prestígio para fazer campanha eleitoral em solos bávaros que terá eleições no outono de 2018, podendo afirmar ainda ser “uma voz considerável em Berlim” .

A cova dos leões

A “Grande Coalizão será a coalizão dos perdedores” é uma das frases mais ouvidas nas rodas de política. E essa frase não poderia exibir com mais clareza o Zeitgeist político em que vive a Alemanha. Os dois partidos (CDU e SPD) perderam vertiginosamente para o partido “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla). O requentar da “GroKo” será mais do que a retomada de um casamento por conveniência, depois que se disse como em “Trocando em Miúdos”: “Aquela aliança você pode empenhar ou derreter” ou “Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu”. No dito popular, isso se denomina “ter deixado muita terra queimada”. Mas quando o Presidente passa a cartilha de que não são os direcionamentos partidários e nem mesmo os biquinhos por ter perdido a eleição é o que conta, mas a necessidade de um governo estável no país de economia mais forte da zona da UE e que tem imensos desafios a encarar.