“Panama Papers” – Juergen Mossack. El alemán

Fátima Lacerda

06 Abril 2016 | 09h43

Há meses, um desconhecido enviou o arquivo de um volume de 2,6 terra byte, concernente ao período entre 2005 e 2015 para a redação do Jornal Suedeutsche Zeitung que prontamente compartilhou com as emissoras de TV abertas, NDW e WDR. Ao todo, 370 jornalistas analisaram o arquivo gigante e que, finalmente e depois de muitas análises, no último domingo (3), fez o mundo político tremer. Mais do que isso: trouxe à baila novas perguntas sobre o andar da carruagem do capitalismo, tema discutido na noite de terça-feira (05) na Casa de Culturas do Mundo em Berlim, lotada até o último lugar do auditório.

Paulo Mason, autor, ex- analista econômico da BBC e hoje chefe da redação de economia do Channel 4 News palestrou sobre seu livro “Pós-capitalismo, esboço de uma economia que está por vir“, recém-lançado pela Suhrkamp, renomada editora alemãMason está convencido de que, depois da crise financeira de 2008, “o motor do capitalismo está travando” enquanto se mostra certo de que “algo novo terá que surgir”.

A casa caiu

Os documentos que desvendaram as firmas “só pra constar” e aquilo que o jargão alemão chama de Briefkastenfirmen, firmas que só existem como endereço postal e, de preferência, nos paraísos fiscais. Ao todo, 212.000 firmas são desvendadas como praticando de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, para citar alguns delitos.


“Oh, como é bonito o Panamá!”

Oh, wie schön ist Panama!”, é o título de um livro de literatura infantil que não falta em nenhum lar onde há criança pequena. Porém, o Panamá descrito no bestseller conta que é o país sonhado por dois bichinhos, um tigre e um urso que, ao abrirem a caixa de bananas importadas e sentirem o cheiro, são imediatamente transportados para o país da América Latina e iniciam a fantasia de como ele seria. O antagonismo ao motivo pelo qual 12 ex- e atuais Chefes de Estado e 140 empresários e políticos na ativa escolheram o país,  nao poderia ser mais antagônico, profano e criminoso. Entre alguns dos envolvidos em delitos estão Petro Poroschenko, desde junho de 2014, presidente da Ucrânia e que assumiu o poder com o lema de combater a corrupção, um primo do ditador sírio Bashar al-Assad, Salman ibn Abd al-Aziz, Rei da Arábia Saudita e até mesmo o craque do Barcelona, Lionel Messi, o presidente russo, Wladimir Puitn. Nenhum deles resistiu a sedução do dinheiro ilegal num paraíso fiscal.

Os rastros que levam a Putin

Jornalistas do Nowaja Gaseta, um dos poucos jornais independentes no “Reino de Putin”, se debruçaram nos “Panama Papers” e encontraram rastros de lavagem de dinheiro no valor de 2 bilhões de dólares com a participação de estatais russas como a GazProm e da Rosnef, empresa de petróleo liderada pela oligarquia, pelos magnatas russos. A Rosnef está presente na bolsa de valores desde 2006 e chefiada por Igor Setschin, ex-chefe da Administração Presidencial no governo Putin, um caro do tipo Chefe da Casa Civil. Jornalistas do Nowaja Gaseta encontraram, nesses maracutaias, rastros que levam até o violoncelista Sergei Pavlovich Roldugin (1951), que além de ser amigo de unha e carne de Putin, não faz questão nenhuma de esconder isso. O músico, famoso mundialmente, também está presente na biografia autorizada de Putin. Nela, ele comenta que com o atual déspota, eles passavam o pente fino na vida noturna da então Leningrado, hoje, São Petersburgo e com Ludmilla (a ex-de Putin) elem iam ao teatro. Sergei é também padrinho da filha mais velha de Putin que nasceu pouco antes dele ser trasferido para a Alemanha, mais especificamente para a cidade de Dresden para atuar como chefe da KGB.

Segundo Roman Anin,  jornalista da Gaseta em entrevista à Rádio alemã Deutschlandfunk em 05 de abril, o envolvimento de empresas russas divulgado no Panama Papers mostra que o caminho para chegar até Putin, seria através de Sergei, que a partir de 1992 passou a mexer seus pauzinhos também na área econômica, se tornando, por exemplo, acionista da empresa PetroInterOil. Do banco Rossija, de comércio e indústria, também apelidado como “Banco dos Amigos de Putin”, ele detêm 3% das ações.

O violoncelista não poupa em aparições polêmicas e muito menos faz qualquer questão de esconder sua “conexão” com os “lá de cima”. Porém, depois da bomba político midiática que abalou o mundo no domingo (3), será nada factível que os amigos de unha e carne sejam vistos juntos nos próximos meses. Vai ser preciso deixar a poeira passar.

El alemán

Juergen Mossack é figura graúda no centro financeiro do Panamá. Nasceu em 1948 na cidade de Fürth, região da Baviera, sul da Alemanha.

No início dos anos ’70, sua família imigrou para o Panamá. No pais da América Latina, ele frequentou a escola e fez faculdade de direito. Até montar o seu próprio escritório de advocacia, ele trabalhou em várias outros até criar “Juergen Mossack Lawfirm“. Segundo fontes da imprensa alemã, ele já teria se especializado em “Firmas fantasma” desde o início de sua carreira. 1986 foi a vez de ampliar o setor de atuação e o tráfico de influência com o início da parceria com o então juiz e escritor, Ramon Fonseca Moro. O Moro do Panamá, assim como o Moro de Curitiba no Brasil, é uma figura pública, mas as similaridades terminam por ai. Nos últimos tempos, o juiz panamenho era vinculado na mídia como conselheiro de Juan Carlos Varela, o presidente panamenho, um marketing perfeito, um selo de qualidade e legitimação nos negócios.

Ainda segundo fontes do jornal Sueddeutsche Zeitung, ainda haveria um terceiro parceiro na empresa, o suíço, Christoph Zollinger, que por um faro imbatível, teria se retirado, quase totalmente, da atuação nos negócios de Off-Shore, com os quais ele não mais “conseguia se identificar”.

Segundo fontes do Network ICIJ,  Consórcio de Jornalismo Investigativo, a ida da família Mossack para o Panamá nos anos 70 se deve ao passado do chefe da família, Erhart Mossack, ferrenho e convencido nacional-socialista e ainda membro da Tropa de Elite de Adolf Hitler, a Waffen-SS, divisão SS Totenkopf (Cabeça da morte). Mais tarde, Erhart se ofereceu como espião para o FBI, assim afirma o Consórcio ICIJ, citando como fonte de dossiês disponibilizados pelo Serviço Secreto Americano .