Politica europeia em tempos de turbulência e o recorrer à velha diplomacia

Fátima Lacerda

17 Outubro 2015 | 15h46

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©Reuters

Há 3 meses atrás, durante o verão europeu, a crise financeira da Grécia parecia o maior desafio já enfrentado pela UE. A dinâmica politica que se desdobrou na sequência não poderia ter sido visualizada nem pelo mais astuto dos seres terrestres. Em agosto, então, a UE se via perante o maior abacaxi político desde o Tratado de Potsdam, que sacramentou a divisão da Alemanha em setores, depois de capitular  por ter perdido a II Guerra Mundial.

O evento, organizado pela Fundação Friedrich-Ebert, e que aconteceu num dos mais sofisticados restaurantes da capital alemã, tinha o intuito de refletir sobre as discrepâncias da Europa, muito além da Zona do Euro. E como diz um ditado das terras daqui: Es kam ganz Anders, livremente traduzido como: ”A vida vai acontece do enquanto você esta fazendo planos”. O tema acabou sendo a crise da Europa no lidar com o fluxo de refugiados.

A Fundação, nomeada para homenagear o socialdemocrata Friedrich-Ebert, ex-chefe do partido e o primeiro presidente do Reich, na República de Weimar, atua no Brasil, na capital paulista há 30 anos .

Simpósio

Políticos de toda a Europa participaram durante 3 dias com os expoentes da socialdemocracia alemã. No evento de quinta-feira a noite, o social democrata, Ministro das Relações Exteriores e, certamente, o mais competente do gabinete do governo Merkel, falou aos 200 convidados presentes. Poucas horas antes de partir para uma visita ao Ira e a países da Arábia Saudita, Steinmeier, com exímio conhecimento analítico de um diplomata que não teve a chance histórica do liberal Hans-Dietrich Genscher, na Era Helmut Kohl (1982-1998) , e nem a retórica brilhante do verde Joschka Fischer no governo Gerhard Schroeder (1998-2005). Steinmeier é meticuloso, matemático, sempre excelentemente preparado e o melhor de tudo, não faz questão de holofotes. É, digamos o Weber, o tecedor em processos diplomáticos de grande complexidade. Na noite de sexta-feira (16), ele  partiu para a República do Irã, a primeira visita de um Ministro alemão, em 13 anos.

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A Europa esta à frente de dois caminhos: entre um continente que escolhe retroceder e voltar a egoísmos nacionais, ou um continente que vence pela solidariedade e age de forma conjunta, ou seja, um UE que foca na continuação do desenvolvimento da união econômica, com uma politica de imigração que tem o aval de todos os membros e que luta para minimizar os motivos de fuga nas regiões de crise. Ou nos continuamos na trilha por “Mais Europa” ou arriscamos o desmoronar da nossa casa comum“, avisou.

Em seu discurso, Steimmeier criticou o engajamento da Rússia no conflito entre a Síria e o Estado Islâmico, alegando que isso “aumentou ainda mais a complexidade da situação” e afirmou que esse aspecto “é só uma parte da moeda” e ainda deu nome aos bois: “Nós não precisamos fazer somente a Rússia e os EUA voltarem a dialogar, mas precisamos também da Arábia Saudita e da República Islâmica do Irã. Todos esses países precisam superar suas diferenças”, declarou.

No final do evento, o Ministro Frank-Walter Steinmeier falou rapidamente e –  exclusivo  – com o Blog:

FL: No dia 31/08, a chanceler foi perguntada se a Alemanha se tornou uma potência mundial e a chanceler respondeu que a Alemanha “tem responsabilidade”. Como o Senhor vê o papel da Alemanha concernente a solução da Crise dos Refugiados?

Steinmeier: Eu já me posicionei sobre esse assunto, há tempos, na Conferência sobre Segurança em Munique da seguinte forma. A Alemanha, como o maior país na Europa, economia robusta e democracia firme não tem a necessidade de procurar responsabilidade. Nós já temos essa responsabilidade e não podemos fugir disso. Mostramos isso na ajuda humanitária no contexto da situação dos refugiados, mas também no conflito na Ucrânia, onde nós tentamos fazer de uma situação hostil, uma situação pacífica.”

FL: Na segunda-feira (19/10), o movimento PEGIDA comemora um ano de existência. O Senhor considera o movimento uma ameaça para a democracia alemã?

Steinmeier: Eu só posso esperar que os que se auto-denominam porta-voz desse movimento, não tenham sucesso com essa propaganda. O que as pessoas recebem da ideologia marrom da PEGIDA são argumentos para dividir o país e nos descreditar perante à comunidade internacional.

O conflito na Ucrânia está longe de ser resolvido. No final do ano corrente, termina o período de sanções para a Rússia. A UE se vê contra a parede. Por um lado, Merkel continua batendo pé e não reconhecendo a anexão da Criméia, por outro, a EU sabe que sem Putin, não há solução para a Guerra Civil na Síria e que Assad não vai sair de livre e espontanea vontade e  presidente russo sabe disso e curte cada etapa de sua estratégia em tripudiar sobre a UE. Sem um acordo via Putin, o fluxo de refugiados irá permanecer alto, a casa europa prestes a desabar e o governo de Merkel continuará sendo foco de crítica acirradas, críticas essas que vem de todos os lados, até mesmo do próprio partido da chanceler, o CDU.

Quanto ao movimento racista PEGIDA, Steinmeier se mostrou impotente e sem um Plano B, como a maioria da classe política na Alemanha, que foi pega de surpresa no final de 2014 quando o movimento nascia na cidade leste de Dresden. A cartilha de que os neonazistas e os racistas vem do fundo da rede do Estado Social, não tem nível escolar e são pobres já não cola mais. Foi essa corrente de Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente que mostrou de forma clara, que essas correntes vem, também, de eleitores frustrados e decepcionados com os partidos estabelecidos, que, segundo analistas políticos “não conseguem alcançar os eleitores” e mantê-los no espectro político do centro, fiéis às premissas constitucionais.

No evento da noite de quinta-feira (15) em Berlim, Steinmeier delineou seu plano estratégico. No papel. O caminho da diplomacia é, sempre, longo. Nesse contexto da Guerra Civil da Síria e o número de protagonistas que devem se disponibilizar a sentar junto na mesa para diálogo, a força tarefa ainda é maior do que nas negociações sobre a crise da Ucrânia. O plano de Steinmeier é bom e o Ministro esbanja credibilidade até mesmo entre inimigos ferrenhos. Porém, a viagem desses dias ao Irã e à Arábia Saudita é só o início de um longa trajetória, da qual ninguém pode esperar um final feliz. Porém se o Ministro alemão conseguir fazer os adversários políticos voltarem ao diálogo, deixando para trás os egoísmos e vaidades por um motivo bem maior, há motivo para um otimismo comedido, mesmo que os encontros de Steinmeier no Irã e na Arábia Saudita, (do qual protocolo exigiu que o tempo de permanência do Ministro seja exatamente igual nos dois países) obrigem ao governo alemao, fazer vista grossa nos quesitos Direitos Humanos e democracia.

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