Políticos alemães se dizem “aliviados” com a vitória do centrista Emmanuel Macron no primeiro turno

Políticos alemães se dizem “aliviados” com a vitória do centrista Emmanuel Macron no primeiro turno

Fátima Lacerda

24 Abril 2017 | 08h52

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Seria por demais ingênuo comemorar que a patroa da extrema-direita, Marine Le Pen, não ganhou o primeiro turno das eleições.

As eleições presidenciais na França mostrou que, ao contrário dos alemães, cada vez mais avessos às urnas, os eleitores franceses dentro e fora do país, ainda acreditam, piamente, na força do voto. Vários depoimentos veiculados em portais da mídia francesa como na TV FranceInfo e France 2 não deixam dúvida sobre isso. A tal famigerada Politikverdrossenheit, que em alemão significa uma crescente aversão, ceticismo e distanciamento da política como instrumento de real melhora na vida das pessoas, ainda não alcançou a França.

Ao contrário dos alemães, que nos últimos anos veem a eleição como um dever cívico, mas sem levar fé na capacidade da política em mudar para melhor a vida das pessoas, os franceses enfrentaram filas homéricas, em Montreal, em Londres e uma fila mais branda em frente ao Institut Francais em Berlim. Eles entenderam que essa eleição é de caráter-chave para o andar da carruagem na “Casa Europa” que está acometida de assombrações e ventos avassaladores provenientes da Holanda, da Hungria, da Polônia e da França.

aussenminister-sigmar-gabrielCopyright: DPA

Reações

Ainda na noite de domingo, políticos alemães se mostraram “aliviados” com a vitória de 23,75 sobre a Dama de Ferro do Front Nacional, com 21,53. O Ministro das Relações Exteriores, o social-democrata Sigmar Gabriel, que acabara de chegar para visita oficial a Jordânia, declarou: “Estou certo que ele (Macron) será o novo presidente francês. Ele foi o único que candidato pro Europa e que não se escondeu atrás de preconceitos concernentes à Europa”. Gabriel foi só elogios para o candidato do movimento En Marche: “Ele é um cara muito honesto e muito simpático“. Martin Schulz, outrora presidente do Parlamento Europeu e hoje candidato dos social-democratas à Chancelaria Federal nas eleições de setembro próximo, convocou os franceses para, “depois da derrota de uma antieuropeia e declarada racista” darem seu voto para Macron. Políticos alemães de alto escalão não fazem segredo sobre suas preferências para o candidato centrista liberal.


Até o momento de publicação desse artigo, a chanceler Merkel fez jus á sua postura de ficar na encolha, porém Peter Altmeier, seu cão de guarda, braço-direito, especialido em “tirar as castanhas do fogo” e ocupa o cargo de Chefe da Chancelaria declarou: “Estou convencido que o centro é mais forte do que os populistas acreditam“.Vale mencionar que no fim de semana, o partido de direita populista, Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla) desbancou sua diretora e “escorregou” ainda mais para a direita xenofóbica e cravou no seu programa eleitora, o intúito de sair da Zona do Euro. Se tornou um hábito da elite política em bagatelizar forças ocultas não bem-vindas e contra quais nao se tem um Plano B. Vindo de Altmeier, braço-direito de Merkel, essa declaração não surpreende.

O alívio é igualmente entendível e bem-vindo. Porém, comemorar que Marine Le Pen, no âmbito dos números, não saiu vencedora do primeiro turno é tampar o sol com a peneira. A França é um país altamente dividido, partido ao meio entre os “sacerdotes” de Macron e os pitbull de Marine Le Pen. E se a França chegou a esse ponto é porque quase o tempo todo que  governou, François Hollande (que entrará para a história como o presidente com menor percentual de aceitação da França e que) entrou no Palácio do Eliseu para ser o Robin Hood da Europa, tirar dos ricos para dar aos pobres, deixou abandonadas as periferias de Paris, um barril de pólvoras social, teve desemprego aumentado consideravelmente e não teve nenhum plano para contra-atacar a onda de xenofobia e de racismo que, há tempos, vem acometendo a França de forma gravíssima e visível no dia-a-dia.

Macron

Macron terá que ser muito hábil para reverter um quadro quase irreversível: unificar um país altamente dividido. A vantagem de Macron é que, ao contrário dos alemães que já estão saturados do governo Merkel e se distanciam cada vez mais da política, Macron tem a chance de começar de novo. Que Hollande foi seu Mentor poder ser um fardo, ou não. Tudo vai depender da habilidade do jovem de 39 anos e da promessa que feita por ele na noite de domingo (23) antes de festejar com seus aliados em restaurante no Quartier Montparnasse, de “ser presidente de todos os franceses”. Para isso, Macron precisa, primeiramente, sair vitorioso do segundo turno. Mesmo que ainda na noite de domingo, o candidato dos republicanos, François Fillon e o candidato da esquerda, Benoit Hamon, terem pedido para seus eleitores darem seus votos a Macron para “evitar Le Pen”, depois dos prognósticos concernentes ao BREXIT e á eleição de um louco para a Casa Branca em novembro de 2016, é melhor esperar o resultado final das apurações. O que sabemos hoje e adaptando uma frase de Renato Russo: Na França “tudo está perdido, mas existem possibilidades”.