Retrospectiva exibe 17 filmes de Manoel de Oliveira em prestigioso cinema de Berlim

Retrospectiva exibe 17 filmes de Manoel de Oliveira em prestigioso cinema de Berlim

Fátima Lacerda

22 Abril 2017 | 19h33

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Obcecados pelas obras do mestre do cinema português não podem reclamar de uma vida produtiva curta do cineasta. Manoel de Oliveira morreu com 107 anos (1908-2015). Apesar de ter iniciado fazer cinema tarde, ele era um Workoholic antes dos marqueteiros terem inventado essa nominação para os que não conseguem parar de produzir, parar de trabalhar. Oliveira viveu duas guerras, vivenciou a revolução de 1974 e seus desdobramentos para a vida política e cultural de seu país. Vivenciou a unificação da Europa e a saída de Portugal do rótulo de ser a “Casa pobre da Europa”e também o desdobramento da política austera ditada por Angela Merkel.

Da esquerda para a direita:Ulrich Gregor é o segundo e Erika a baixinha no centro do grupo.

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Arsenal

O cinema de arquivo mais rico de Berlim, o Arsenal, fica no centro comercial e turístico da hoje capital, lugar que na época da cortina de ferro, era terreno minado das forças militares da Alemanha Oriental, os apelidados de Vopos (Volkspolizisten), fica no prédio do Museu Cinematográfico, mas a simbologia e a riqueza param por ai.

O arquivo do Arsenal abriga joias cinematográficas do cinema mundial. Essa empreitada igualmenta iniciou nos anos ’70 e foi uma ideia do casal Erika e Ulrich Gregor, juntos há mais de 50 anos. Ulrich foi o curador da mostra Forum da Berlinale por três décadas. Desde 2001, quem detêm o cargo de curador é Christoph Terrechte, porém “Os Gregors”, e como são carinhosamente chamados pelos obcecados cinéfilos de plantão que residem na capital, são mosca de cinema, estão sempre presentes na primeira fila do cinema em eventos oficiais, mas também em eventos de grande simbologia como a abertura da Mostra Retrospectiva Manoel de Oliveira. Além dos Gregors, estiveram presentes na noite de sábado (08), José Manuel Costa, diretor da cinemateca portuguesa e uma das favoritas atrizes de Oliveira, a talentosa e belíssima Eleonor Silveira.

Perguntado por mim sobre o momento de conflito na área de produção autoral de cinema que acomte Portugal referente à escolha dos jurados que decidem sobre o fomento de projetos no setor audiovisual independente, Costa se mostrou um homem igualmente comedido e preocupado e ratificou “a necessidade de manter o diálogo entre os adversários”.

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A nova Berlim

Desde a construção da área de comércio e turismo em volta de Potsdamer Platz e da mudança de toda a estrutura da Berlinale para esse lugar  no final do século XX, o Arsenal também mudou de endereço. Deixou o pacato bairro de Schöneberg, e com ele, muitas lembranças. Diretores como o finlandês Aki Kaurismäki e o português Oliveira tiveram suas primeiras participações em Berlim na Mostra Forum. Foi nessa dependência do Arsenal que eu o vi, em presença física, pela primeira vez, o Aki Kaurimäki depois de uma seção matinal de um dos seus filmes, do qual o nome, eu não (sinceramente) me lembro, mas a imagem dele, deslocado, olhando para os lados, sem jeito fumando um cigarro em cima da calçada, ficará na minha retina té o fim dos meus dias. O Arsenal sempre teve fome e foi em sua tela que novas linguagens cinematográficas tinha lugar em Berlim, e como mostra a foto, o cinema brasileiro também não poderia faltar. “Novidades do Cinema Brasileiro”. A Homepage parece ser de dias de outrora devido ao seu Design amontoado de detalhes num espaço pequeno e a falta de praticidade no navegar.

Os Gregors e Oliveira ficaram tão chegados, que no filme “Visita, Memórias e Confissões” (1982/2015) o casal é  citado na prestigiosa lista lida pelo próprio Oliveira, das pessoas que visitaram a sua casa. Na noite de estreia, conversando com Erika Gregor, que como não poderia ser diferente, adora conversar sobre cinema e é sempre muito simpática, me mostrei surpresa sobre a citação tão prestigiosa. “É como uma condecoração!”, exclamei eletrizada e ela contou: “No dia em que estávamos na casa, estavam também outras pessoas e a esposa de Oliveira perguntou quem gostaria de conhecer os cômodos da casa e Erika, que já passou dos 75, ensaiou um sorriso maroto de mulher esperta e que entendeu o caráter histórico do momento e confessou: “Eu cheguei até a ver o dormitório”, diz ela se gabando. Durante a cabine para a imprensa, duas semanas antes da estreia, o wowww no cinema quando se ouviu o nome dos Gregors mostrou o caráter Upgrade. Não é qualquer um que é eternizado no filme de um diretor que viveu 107 anos e já é falecido.

Ao todo 17 obras do diretor português estão sendo exibidas no Arsenal. A largada foi com “Visita ou Memórias e Confissões”, filme que Oliveira rodou quando já tinha 73 anos. Um fanático pelo formato de documentação mesmo quando rodava filmes de ficção, o diretor, com enormes dificuldades financeiras teve que vender a casa na cidade do Porto e que havia construído logo depois de se casar e na qual viveu 40 anos.

Oliveira só aparece no filme bem mais tarde. Quando aparece sentado em sua escrivania e frente a uma máquina de datilografia e há o encontro com os expectadores, é gigante, ao mesmo tempo que de grande simplicidade com o diretor nos convidando para conhecer sua casa, suas memórias e a oliveira no pátio da frente da casa e a qual ele classifica como emburrada “como um porteiro”.

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Outros filmes sendo exibidos são “Vale Abraão” (1993), “Amor e Perdição”, “O Dia do Desespero”, (1992) “O Estranho Caso de Angélica”, uma coprodução Brasil-Portugal de 2010, e rodado quando Oliveira tinha 101 anos. Através da personagem do fotógrafo Isaac, Oliveira não extravasa na sua linguagem documentário histórica quando o hermético e inquieto fotógrafo sai do quarto da pensão para documentar lavradores que ainda exercem o trabalho na lavoura, sem o uso de máquinas. 

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Em “Non, ou a vã glória de mandar” (1990) pouco depois da mudança da ordem do mundo com a queda do Muro de Berlim, o plot é soldados portugueses em missão na África. No plano direto e de cumplicidade com a câmera , eles conversam diretamente com o expectador olhando de forma ao mesmo tempo fixa e arrebatados de ternura e questionamento. Em tempos de guerra que vivemos, esse filme nao poderia ser mais atual. Em forma e conteúdo de um argumento que merece, especialmente, o adjetivo de brilhante.

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A retrospectiva continua até o dia 30 de abril. No domingo (23), será exibido um dos meus preferidos filmes do mestre Oliveira: “Singularidades de uma Rapariga loira” (2009) baseado num conto de Eça de Queiroz. A primeira vez que assisti esse filme, foi numa seção muito tarde, num período de um frio gélido da Berlinale e no Cinema Paris, longe do centro comercial, onde se encontra a maior parte dos cinemas que participam da Berlinale. Me lembro que nem a bicicleta eu pude utilizar, tal era o frio que acometia Berlim naquela. Depois de chegar no cinema para a sessão de 22 horas, houve atraso, precisei esperar um bocado para adentrar a sala. O “Singularidades” é um filme que acomte todo o seu ser. Tal profundidade e os abismos humanos retratos nele numa linguagem de uma fineza e sensibilidade absurdas! Posso até ter esquecidos detalhes do filme, mas jamais a sensação orgânica e visceral depois de tê-lo assistido.

Abaixo, a entrevista de Manoel de Oliveira no programa “Roda Viva” em 2000.

 

Em 2009, Oliveira foi homenageado pela Berlinale com a “Berlinale Kamera”, prêmio para personalidades pela sua contribuição à Sétima Arte. Em seu discurso, o humor ácido se mostra presente.

 

http://www.arsenal-berlin.de/kalender/filmreihe/calendar/2017/april/23/article/6572/3004.html