Rolling Stones em Berlim e a bem vinda ilusão da eternidade

Rolling Stones em Berlim e a bem vinda ilusão da eternidade

Fátima Lacerda

09 Maio 2018 | 06h48

Agora é pra valer. No início do verão europeu, mais precisamente no dia 22 Junho, um dia depois da noite mais longa do continente, a melhor banda do mundo fará um show no Estádio Olímpico da capital alemã. Os cartazes já estão nas ruas, como (foto) em frente à estação de metrô de Kottbusser Tor, no bairro de Kreuzberg, sudeste da cidade. 

A simbologia em torno dos setentões é sempre imensa, em qualquer lugar que eles se apresentem: em Praga, no Rio de Janeiro, em Havana, na cidade hanseática de Hamburgo e provalmente onde há os mais loucos fãs dessa banda: em Amsterdã.

A última apresentação de Mick Jagger & Co em Berlim foi em junho de 2014 no Waldbühne, um palco localizado dentro de uma floresta. Nos tempos selvagens, em 1965, o show dos Stones foi interrompido por tumulto, deixou um Waldbühne destruído, um prato cheio para os burgueses de plantão numa Alemanha, na ´época um país reacionário. “Psicose de massa que não sabia mais o que fazia”, ensina a voz em OFF na matéria veiculada no noticiário regional em horário nobre.

Em 2014, já bem na chamada terceira idade o show acontecia num momento traumático, pouco depois da morte por suicídio de L’Wren Scott  ex-namorada de Mick Jagger que cometeu suicídio enquanto ele fazia turnê na Australia. O show  em Berlim foi o primeiro depois da morte da Designer. Como não podia ser diferente e apesar de toda a profissionalidade do Frontman dos Stones, o show foi morno, protocolar, nem um pouquinho a mais do que isso e ao meu redor, jovens tirando Selfies e bebendo cerveja na percepção de que é um Must e/ou super cool estar no show, ver e ser visto, tirar uma onda para postar no Instagram, mas que não tinham a mínima idéia da importância e da raridade do momento, quando foi anunciado ninguém menos do que Mick Taylor, que depois de ter feito as pazes, fazia parte da turnê, “14 On Fire“.. Meu coração, em eletricidade incontida, dava cambalhotas por vivenciar um momento tão único da minha biografia com a banda.

Me lembro que na época, apostei com o Christian que a música da largada seria “Start Me Up“. “Isso seria muito óbvio!”, disse ele, fiel ao seu ceticismo habitual germânica. Não me contive de felicidade, ainda na porta de entrada da imprensa ao ouvir os primeiros acordes da música carro-chefe que expressa a trajetória dessa banda que, na realidade é Against All Odds e isso sem considerar a entrevista de Charlie Watts na BBC nos anos 60 quando ele, com um sorriso sem jeito, declarava: “A gente não vai ficar nesse business por muito tempo”.

Ganhei a aposta em Berlim, mas viria perder, 3 anos depois em Hamburgo em setembro de 2017 no dia do nosso aniversário de casamento no show na cidade na qual muitos anos antes, escolhemos a data para, oficialmente, juntar os trapinhos. Nesse dia de aniversário e de uma simbologia para ninguém botar defeito, São Pedro foi solícito e enviou o sol duas horas antes do início do show (e depois com direito a lua e céu límpido) depois de dois longos e sofridos dias de chuva na cidade hanseática, eu perdia a aposta. “Sympathy for the Devil” foi a canção inicial no primeiro show da turnê europeia de 2017.

Mi Mi Mi

Foi uma lamentação sentido infinita das mídias berlinenses, quando ficou claro que seria a cidade do norte do país o Spot para  a prestigiosa turnê europeia. Depois para burguesinha Düsseldorf e pacata Munique sem passar pela capital? Sacrilégio! Na época, tanto o Estádio Olímpico tanto como o Waldbühne estavam com datas previamente agendadas e todas elas ocupadas. 

No café da manhã do hotel em Hamburgo estava Felix, um jovem rapaz sentado, bem comportadinho com os amigos na mesa, o que mostra claramente, que há tempos, os Stones se tornaram mais um Lifestyle. O grupo de, ao todo, quatro tinha camisas iguais com as escritas: “Start Me Up, I’ll never stop“. Em letras menores transparecia a paúra de todo o aficionado da banda inglesa. “Não se sabe se será a última vez”. Acomete o Luiz, irmão da Regina, obcecado pela banda, o Christian, a mim, o Norbert e Gerhard, meus amigos do sul da Alemanha. Para brincar com o próprio medo, se diz nessas rodas, quando morre um músico de prestígio e de importância cultural, alguém diz num sarcasmo ácido: “Temos que pensar que mundo queremos deixar para Keith Richards”.

Essa Fata Morgana, esse sonho da eternidade acomete a todos os fãs dos Stones que conheço. Por outro lado, a frequência com que os setentões saem pela estrada é igualmente impressionante e perigosa. Nos faz acreditar que isso será pra sempre e sim. Enquanto houver esses quatro obcecados, doidos, ambiciosos, tao iguais e tao diferentes, o mundo será um lugar melhor. Frases como “You can’t always get what you want, but if you try sometimes, you get what you need” não são “somente” a filosofia de milhões de pessoas, mas cada vez que ela é executada pelo melhor perfomista ao vivo da contemporaneidade, tudo faz sentido. É um encontro generoso com feridas que (às vezes cicatrizaram, às vezes não), mas que se tornaram silenciosas e ao ouvir as frases-chave, afloram, fazem “uma visitinha” e desaparecem de novo. As frases como “Anybody seen my baby?” com video protagonizado pela na época ainda desconhecida Angelina Jolie ou trechos de letras como “Gimme Shelter“, pouco digeríveis para formatos de rádio como “”(I Can’t Get No) Satisfaction” ou “It’s Only Rock ‘n Roll (But I Like It)“.

Como primeira música do LP “Let It Bleed” (1969),a música favorita do cineasta Martin Scorcese, foi gravada no Olympic Studios em Londres e ao longo da carruagem, foi incluída pela revista Roling Stone na lista das 500 melhores músicas de todos os tempos. “Gimme Shelter” tocava no nervo da época, tematizando em texto apocalíptico e dura musicalidade, a Guerra do Vietnã, o conflito de raças e o protesto estudantil levaria a Europa a um tremor de terra social e político.  .

O show em Berlim 1965 foi só uma preliminar do fenômeno que os Stones se tornariam nos anos seguintes. Hoje, em tom bem pouco político, a banda inglesa aposta nos efeitos de som e luz, sempre coordenados pelas melhores equipes do setor, o fator lenda/mito e claro, os Evergreens, além da arrepiante performance de Mick Jagger, seu figurino elegantérrimo com ele gesticulando de forma incontida e um correr de lá pra cá que soma quilômetros no final da cada performance.

A festa da música/Fête de la Musique

Em 1981, o então Ministro francês da Cultura, J. Lang teve a ideia de transformar o início do verão europeu, 21 de junho, no dia da música. Em 1982 acontecia na França a primeira edição da “Fete de la Musique”, que foi se expandindo por várias capitais europeias. Para quem vive em países de frios a gélidos, o início do verão tem um ritual de comemoração e a “Fete”, onde músicos tocam grátis em cima de caminhões, nas ruas, nas calçadas. Em 2018, o dia da música será uma noite antes do show dos Rolling Stones e deve, por isso, cair totalmente no esquecimento. Ao invés de guitarras elétricas intuindo musicalidade calexiana ou Remakes do Iggy Pop em seu repertório, exibido no asfalto kreuzberguiano, veremos pelas ruas de Berlim camisas e boné que mostram uma língua de pra fora. 

©Staff Images/Marco de Paula (Rolling Stones, RJ, 2016)

Ao todo, os Rolling Stones fazem dois shows na Alemanha: em Berlim e em Stuttgart. Não é preciso ter bola de cristal para saber que, a maioria dos fãs germânicos irão conferir o show em Berlim. Pela simbologia, pelo prestígio do qual goza uma capital da república. Como se isso não bastasse, Berlim ainda oferece simbologia-mór pelo palco do Estádio Olímpico, local dos “Jogos de 1936” sob a ditadura nazista de Adolf Hitler, local da Final da Copa de 2006 com um fulminante Alessandro Del Piero e com a Itália saindo campeã, várias finais da “Copa da Alemanha”, prestigioso torneio de futebol do país e também já várias vezes, palco de megashows: Pink Floyd, Robbie Williams, U2. Depeche Mode.

A turnê europeia dos Stones inicia 17 de maio em Dublin, na Irlânda e termina dia 08 de julho em Varsóvia, Polônia. Tomara que essa agenda não tenha considerado o jogo final da Copa, especialmente se a seleção brasileira chegar à final. Mick Jagger é o melhor Live Performer ao vivo, mas um notório azar, um pé frio, no quesito futebol.

©Staff Images/Marco de Paula (Rolling Stones, RJ, 2016)

No dia 22 de junho, numa sexta-feira de verão berlinense, a capital ferverá com os setentões que teimam parecer eternos.Nessa noite tudo será mágico para quando Mick Jagger pronunciar a frase das frases “Please allow me to introduce myself” ou mandar a insustentável leveza de “I know it’s Only Rock ‘ Roll but I like it!” e a ilusão de eternidade se fará presente. E que presente! Bem diferente dos tempos de outrora, os valores dos ingressos para a turnê na Alemanha sao, para dizer ao mínimo, astronômicos e que variam entre 121,00 euros (aprox. 511,00 reais) até 2.000 euros (aprox. 8.461,00 reais) com direito a Selfies com os membros da banda.