Voar em tempos de terror, companhias aéreas e suas diferenças culturais

Voar em tempos de terror, companhias aéreas e suas diferenças culturais

Fátima Lacerda

06 Fevereiro 2017 | 15h36

Já faz muito tempo em que voar era símbolo de status ou de alegria.

O Concorde não existe mais, o charme da ponta aérea Rio-São Paulo também se foi desde que o Aeroporto Santos Dumont virou um campo de batalhas entre a máfia de empresas de táxis do Rio de Janeiro e o Ueber. Já faz tempos que a vista da silueta do Pao de Acuçar nos fazia suspirar ao aterrissar em solos cariocas.

Depois de 11 setembro de 2001, as medidas de segurança e de precaução nos oferecem uma palinha do que se tornou a aviação comercial.

Em voos para Israel a cabine do piloto e fechada por dentro. Nem mesmo a aeromoça, chefe de bordo, pode abrir. Essa mudança foi feita logo depois do ataque às torres do WTC em Nova Iorque.

Na noite de Réveillon de 2016/2017 um passageiro no voo da Austrália para São Francisco viralizou nas redes sociais por reclamar com a aeromoça ter sido colocado entre dois passageiros “com o mesmo sobrenome! que não paravam de falar num dos trajetos mais longos da aviação Internacional. Ao invés de contornar o problema de forma rápidas, soberana e decisiva, a aeromoça se deixou o influenciar por passageiros que já tiravam os celulares do bolso para protocolar os acontecimentos, incluindo o passageiro envolvido, ironizar :”Não seria um inusitado legal eu ser responsável pela parada especial do avião na Nova Zelândia?” e ainda ofendê-la. A aeromoca pecou pela relutância e pelo caminho mais fácil, tentando apelar para a coerência, que nesse momento, já havia caído por água abaixo. Os celulares prontos para “eternizar” o momento foram o estopim que faltava para que o passageiro jogasse tudo no ventilador.

Num outro avião da Delta Airlines, um passageiro foi removido da aeronave por ter falado em árabe com seu companheiro de viagem.

Tudo indica que os tempos de ataques terroristas ainda não foram graves o suficiente para que empresas aéreas investissem na otimização e preparo de comissárias e comissários para lidar de forma soberana e, acima de tudo, decidida em casos que podem atingir todos os presentes na aeronave e cauar imenso prejuízo. É preciso usar a coerência e não se deixar levar pelo medo, como no caso dos passageiros que “se sentiram incomodados” com os dois jovens falando árabe.

 

Lisboa-Barcelona pela TAP

No trajeto que dura um pouco mais de uma hora e meia, o voo daquela manhã de segunda-feira foi bem complicado. A abertura do portão de embarques no Aeroporto de Lisboa foi feita com atraso. Por consequência, a entrada dos passageiros na aeronave, esbaforida. Mas isso se tiraria de letra, não fossem uma mãe e filha portuguesas mostrando do um comportamento altamente associal. Sentada na quarta fileira, no assento 04D, fui, involuntariamente, testemunha ocular de um espetáculo deprimente, estarrecedor e evitável.

Por partes

Do assento 04 D presenciei a atitude bombástica de mãe e filha portuguêsas. Quando a filha percebeu que o compartimento acima do assento ainda exibia lugar vago (mesmo já contendo uma bagagem), enlouquecida e em tom de quem não está para brincadeira, ordenou à mãe:” Pega a mala! Pega a mala!!!” A mãe, obediente nadou contra a maré da fila dos que tentavam adentrar a aeronave e, ignorando a advertência da chefe de bordo, adentrou o compartimento fora do avião onde ficam armazenadas as malas. Voltou com 2 bagagens de um tamanho exacerbado para levar como mala da mão. A filha, muito ativa, pegou as malas, empurrou a mochila que já continha ali e empurrou as duas malas para dentro do compartimento mediante à força bruta. Um alemão, sentado na fileira atrás de mim e que já não encontrara lugar vago no compartimento acima da nossa fileira, com muita pressa e urgência tentou um lugarzinho no compartimento que, no momento, já havia sido avistado pelas duas estressadas. Ao ver o alemão se aproximar, a mãe gritou “Esse é meu!”, empurrando-o para o lado. Ele, irado, em inglês, mandou “FDP” o que foi ignorado pela mulher, mas sim, entendido por todos ao redor. Ele voltou para o assento com a cabeça roxa de tanta raiva. O clima entre os passageiros aumentava no quesito tensão. Aquelas duas eram uma bomba que poderia explodir a qualquer momento. Olhares tentavam disfarçar a curiosidade na esperança pueril de: “Aquilo que você não toma conhecimento, não existe. Quem dera fosse tão fácil.

TAPüb_Pro

Ana Paula, comissária chefe de bordo do voo TP 1038 do dia 02 de janeiro andava de um lado para o outro. Falava ao telefone. Falava com o comandante Ketan Nautamlal que várias vezes entrou e saiu da cabine sem um motivo claro. Cada vez a fisionomia da simpática chefe de bordo era de maior desagrado por estar sendo desafiada perante a todos os passageiros das primeiras filas da aeronave. Tentando manter a autoridade, Ana Paula se dirigiu ao assento da mãe e da filha (na janela estava sentada uma jovem mulher com o cachorro dentro de um compartimento e que cada vez mais expressa o desagrado de ter “entrado de gaiata no navio” e dava sermao nas duas abusadas e que, para disfarcar, quando Ana Paula terminou, disseram “Obrigada”.

Á Ana Paula faltava o respaldo corporativo para agir como deveria ter sido feito mesmo depois da mãe ter desafiado sua autoridade, dizendo: “Eu posso falar com o comandante”, ( e obteve como resposta de Ana Paula “Quem manda na cabine sou eu!” Um comportamento desses causa, sem necessidade, um clima tenso e instiga agressividade e constrangimento, nesse caso para a chefe de bordo e o mais importante de tudo: poderia ter sido evitado com uma atitude clara e rápida para cortar o mal pela raiz, como manda a dialética alemã. Não tem bate-boca e nem muita choradeira, é anunciada a decisão e finalizado o conflito. Num âmbito de aviação comercial essa é a melhor maneira de evitar transtornos, atrasos e um estresse desnecessário para todos. Para se vingar do sermao anterior, durante o voo a mão se levantou, se plantou na primeira fileira e tirava satisfacão com a Ana Paula enquanto mostrava as costas para os passageiros, em sua esmagadora maioria nao entendia português. Ponto para a mãe e, até que se prove que fucinho de porco é tomada, a chefe de bordo, Ana Paula, parecia tomar um sermão, ao vivo e a cores. De novo: Por uma questao de relutância, sim, de mentalidade, a TAP nao poupou a sua chefe de bordo de um constrangimento terrível e desnecessário e não poupou seus passageiros de um espetáculo ridículo.

Quando o clima estava ficando insuportável, eu levantei, me apresentei à Ana Paula e informei que a agressividade estava aumentando e se não se poderia desacelerar aquilo. A chefe de bordo me contou toda a história (especialmente a parte de adentrar o compartimento somente permitido para funcionários do aeroporto) e declarou estar esperando resposta da TAP. “O comandante disse que se faltar espaco para a mala de alguém, as malas terao que ser retiradas”, assim a desculpa esfarrapada da companhia aérea.

TAP x Lufthansa: Diferençasculturais?

Voar pela TAP no trajeto Berlim Lisboa foi tranquilo, apesar do aeroporto internacional de Berlim a onda não estar pronto e só Deus sabe se um dia ele estará. E simplesmente incrível e (mesmo vivendo aqui por 28 anos) como os alemães sabem simplificar a vida!

Com o meu cartão de embarque digital, mostrei o celular, a funcionaria, mal olha do pra minha cara, acolheu as malas e me deu a etiqueta e isso foi tudo. A demora no Aeroporto de Tegel foi a fila e a hora de abrir a aeronave, mas nada dramático. Comparando Tegel com o saguão da TAP no aeroporto de Lisboa, e comparar o Vasco da Gama com o Borussia Dortmund. O número de pessoas que presenciei no saguão da TAP em Lisboa é um caso histórico e coisa de português mesmo. Um saguão para embarque para todos os destinos que a companhia faz com aproximadamente 1000 pessoas ali numa fila interminável. Certa vez alguém disse:” No balcão do Check-In você pode ter um infarto!” e ele, provavelmente será num aeroporto alemão, já que o alemão não discute: ele da ordem e se você estiver na onda do “Ihhh, foi mal” isso será desmembrado em problema, em desvantagem, para dizer ao mínimo.

Em Lisboa, eu percebi que na fila em que estávamos, a funcionaria precisaria de uma vida para fazer o procedimento com dois chineses. Mudamos de fila e a funcionaria deu o recado, mas era, constantemente, interrompida pela “outra” que ainda mastigava o abacaxi dos chineses.

Num avião da Lufthansa, não haveria nem um terço das discussões e do bate-boca entra a chefe de bordo e a passageiro associal e abusada. Só o fato dela ter burlado o regulamento de não poder acessar a área de cora do avião onde no compartimento de malas, seria o suficiente para que, a polícia entrasse na aeronave, as retirassem, fizessem um BO além dos bilhetes perderem a validade, ou seja, elas teriam que comprar outras passagens.

Que pena que a simpática chefe de bordo e a equipe ficaran de mãos atadas para tomar medidas de resultado imediato, evitando estresse, tensão e aborrecimento para muitos passageiros e sublinhando que um tipo de comportamento assim tão reprovável não e aceito.

Andar de aviao é muito mais do que uma tarefa logística que exige concentração o tempo todo; desde a chegada no aeroporto, que já no passado tinham um gosto amargo de despedida de quem a gente ama. No pós-globalizado e em tempos de terrorismo e de medos subjetivos e objetivos, o aeroporto, assim como voar se tornou mera necessidade para longas distâncias. Por isso, quanto mais autonomia e soberania a equipe de bordo tiver para, rapidamente, desacelerar o conflito, menos potencial existirá para que pessoas se comportem fora da linha e fora de qualquer âmbito de socialidade, além dessas medidas servirem como um aviso para aqueles e aquelas com imenso e perigoso deficit em competência social e empatia ou simplesmente cara de pau.

 

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