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O sucesso de Fatima e o fracasso de Nidal – as duas visões dos árabes nos EUA

gustavochacra

06 Novembro 2009 | 12h20

A imprensa árabe celebrou quando Fátima Shama se tornou o braço direito do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, na área da educação e, posteriormente, na de imigração. Uma muçulmana, filha de um palestino, havia sido escolhida para cuidar das escolas e, atualmente, dos imigrantes da cidade descrita como a capital do mundo.

O que ninguém comentou foi a origem do lado materno de Fátima e onde seus pais se conheceram. Jocélia, a mãe brasileira, casou com o marido, Mousa (Moisés, em árabe), em Teresópolis (RJ). Depois de morarem anos juntos no Brasil, se mudaram para Nova York. A filha, caçula de cinco, nasceu no bairro do Bronx, em 1973, mas desde esta época passa todas as suas férias com a família no Rio. “Sempre falamos português em casa. Até meu marido, que é sírio, se comunica na nossa língua. Também quero que meus filhos aprendam. Já comecei a falar com eles”, disse Shama em entrevista ao Estado, falando em português o tempo todo.

Poliglota

Secretária da Imigração de Bloomberg, depois de ter cuidado da educação, Shama é fluente em inglês, francês, espanhol, português, italiano e árabe. Aprendeu esta última língua na universidade palestina Bir Zeit, perto de Ramallah, não muito longe da cidade onde seu pai nasceu na Cisjordânia. Ele imigrou dos territórios palestinos para o Brasil no fim dos anos 1940, durante a guerra de Israel contra os árabes.

“Ele pegou o navio em Beirute [Líbano] e acho que nem sabia que havia chegado no Brasil. Ao desembarcar, o colocaram na fila dos turcos”, afirma Shama, se referindo à forma como imigrantes árabes tradicionalmente e equivocadamente eram chamado ao chegar ao território brasileiro. Fez amizade rapidamente, ganhou dinheiro como comerciante e, nos anos 1960, imigrou de novo. Desta vez, casado com Jocélia, escolheu Nova York.

Com diplomas das universidades Columbia, Binghamton e Baruch, e tendo largado direito para se dedicar à administração pública, Fátima viu sua a carreira decolar de maneira inesperada, quando ela trabalhava com comunidades da cidade na área de saúde pública. O convite veio do City Hall, como é chama a prefeitura nova-iorquina. Ela foi sendo promovida e conquistou a admiração de Bloomberg, que conquistou o seu terceiro mandato nesta semana.

“Fátima esteve no comando dos nossos esforços para reautorizar as leis do controle da prefeitura sobre nossas escolas, melhorar o nível de ensino e aumentar a participação dos pais, especialmente entre os imigrantes”, disse Bloomberg na cerimônia de posse da brasileira como secretária da Imigração, em agosto deste ano. “Uma das grandes vantagens de trabalhar em um ambiente aberto como a prefeitura é que você pode ver seus colegas em ação todos os dias. Trabalhando na mesma sala que Fátima, fiquei impressionado com a sua inteligência, visão e lideranças”, acrescentou o prefeito. Pode parecer um discurso comum, mas não é. A admiração de Bloomberg por Fátima é conhecida em Nova York e se deve acima de tudo à origem dela.

Israel e palestinos

Segundo ela, Bloomberg, que é judeu, tem enorme curiosidade pela cultura muçulmana. “Sempre pergunta muito”. Durante a guerra na Faixa de Gaza, no início deste ano, Fátima criticou para o prefeito as ações israelenses. Bloomberg havia estado na região e acompanhava de perto os acontecimentos. “Ele queria muito saber da posição dos palestinos”, disse a brasileira.

Fátima afirma ainda que Bloomberg ficou surpreso ao saber que nem todos os árabes e palestinos são muçulmanos. “Expliquei para ele que os árabes podem ser cristãos, muçulmanos e mesmo judeus”, disse. Porém o prefeito não questiona muito sobre os brasileiros “porque sua empresa possui escritórios e pessoas trabalhando no Brasil e ele conhece bem o país”.

Responsável pelos imigrantes, Fátima afirma que os brasileiros não costumam causar problemas, mas lamenta o pouco ativismo de pessoas que vieram do Brasil na política de Nova York, quando comparada a outras nacionalidades. Com a reeleição de Bloomberg, ela continuará no governo.

* versão mais longa de reportagem minha publicada na edição impressa do Estadão

E o major árabe-americano que matou 12 pessoas

Uma pena que o major Nidal Malik Hassan, que poderia representar uma história como a de Fatima, tenha estragado tudo. Um idiota, que matou aleatoriamente outros americanos, deixando pais sem filhos e filhos sem pais. Pior, coloca em risco a sua própria família e a de outros árabes e muçulmanos nos Estados Unidos. A imagem deste militar, que de forma alguma representa os muçulmanos americanos, acaba prevalecendo sobre a de Fatima e de outros árabe-americanos, incluindo o general John Abizaid, que comandou as forças dos EUA no Iraque.

A ação do major é pior para a comunidade árabe dos EUA do que qualquer tipo de propaganda preconceituosa espalhada pelo país. Aliás, ele apenas alimenta este tipo de publicidade negativa para os árabes (seguidores do cristianismo ou do Islã) e dos muçulmanos em geral. Imagine como se sente agora um soldado americano, de origem árabe, lutando no Iraque? Certamente, poderá ser visto com reservas pelos seus colegas. Uma pena.

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