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A repórter do Estadão em Tel Aviv analisa o conflito entre israelenses e palestinos

gustavochacra

27 Novembro 2009 | 10h32

A partir de terça, também estarei no Twitter, onde os leitores poderão aproveitar para indicar mais textos e artigos que acharem interessantes

Conheci a Daniela Kresch quando cobrimos a eleição israelense em fevereiro deste ano. Ela mora há quase uma década em Tel Aviv e é, na minha opinião, uma das mais preparadas correspondentes no Oriente Médio, independentemente da nacionalidade. As reportagens dela podem ser lidas na edição impressa do Estadão. Além de tudo, é uma grande amiga. Abaixo, a entrevista com ela para o blog. Lembro que a Dani, como convidada, merece respeito. Além disso, esta semana estou de férias e não fico perto do computador o tempo todo. Vou publicar os comentários, mas já adianto as desculpas pela demora. Também responderei todos os comentários do post anterior quando eu estiver de volta a Nova York na segunda. Aliás, farei um post especial apenas comentando as respostas

1) O Abbas afirmou que o Lula poderia servir de mediador para o conflito entre israelenses e palestinos. Você acha que o presidente brasileiro teria alguma possibilidade de sucesso?

Sinceramente, acho que ainda é cedo para que o Brasil seja levado realmente a sério como mediador do conflito no Oriente Médio. Tanto o presidente palestino, Mahmud Abbas, quanto o presidente israelense, Shimon Peres, falaram sobre isso nas visitas que fizeram ao Brasil, mas acredito que nenhum dos dois esteja considerando o presidente Lula para ajudar a desatar o atual impasse nas negociações de paz. O Brasil é considerado um país que circula bem entre árabes e judeus, mas muito distante da realidade do Oriente Médio. As questões no Brasil são muito distintas: pobres versus ricos, favelas, tráfico de drugas, falta de infra-estrutura… Esses problemas não têm nada a ver com o cotidiano de israelenses e palestinos, que lidam com fanatismo religioso, terrorismo, guerras e disputas territoriais. O presidente brasileiro é, para os líderes locais, uma espécie de celebridade diplomática “light”, mas não um peso-pesado. Quanto à possibilidade de sucesso de Lula num eventual papel de moderador, tendo a responder que ele não se sairia bem, pelo menos a princípio. O motivo, novamente, é a distância social, cultural, religiosa e de linguagem entre Brasil e Oriente Médio. Mas, quem sabe, ele poderia, com o tempo, acumular experiência suficiente para ser um bom moderador.

2) Como os israelenses e os palestinos viram as recentes visitas de Peres, Abbas e Ahmadinejad ao Brasil?

As viagens foram vistas com uma certa curiosidade, mas sem muita seriedade. O Brasil é símbolo, por aqui, de “samba” e “futebol”. Fica muito difícil superar esses esteriótipos na cobertura de uma viagem oficial ao país. É claro que os acordos econômicos firmados com o Brasil são considerados importantes, dado o tamanho e a importância do Brasil no cenário econômico internacional. Mas, apesar do recente upgrade do Brasil também no tabuleiro político mundial, nem israelenses nem palestinos vêem Brasília como um país-chave. A imprensa, por aqui, destacou as visitas, mas sempre num ângulo quase “exótico”.

3) O que falta para ser concluída a troca de prisioneiros entre Israel e o Hamas?

Falta muito pouco. Ao que tudo indica, Israel aceitou libertar 450 presos palestinos – o número exigido pelo Hamas há três anos e meio, desde que sequestrou o soldado Gilad Shalit. Em março, quando a troca quase saiu, o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert havia aceitado libertar só 320. Mas o Hamas acabou rejeitando a proposta. Agora, o problema não é mais numérico. O que falta é apenas acertar todos os nomes da lista de palestinos a serem libertados. Israel se recusa a soltar, por exemplo, um palestino de nome Abdula Barguti (não confundir com Marwan Barguti), que cumpre pena de 67 prisões perpétuas por participação direta em atentados terroristas. Já Marwan Barguti, o popular líder do Fatah, estaria na lista. Outro que Israel se recusa a libertar é Ahmed Saadat, da Frente Popular para Libertação da Palestina (FPLP), acusado de comandar o assassinato de um ministro israelense, em 2001. Mas, mesmo com todos esses obstáculos, tanto Israel quanto o Hamas querem fazer a troca. O Hamas enfrenta uma queda de popularidade e libertar presos é a melhor maneira de obter uma vitória política sobre os adversários do Fatah. Já o governo israelense tem sido pressionado para acabar com esse caso de sequestro, que já dura tanto tempo. Trazer de volta um soldado no cativeiro é algo importante para a sociedade israelense, onde quase todos os jovens fazerm exército e precisam ter certeza de que, se forem capturados por inimigos, poderão ter esperanças de voltar para casa.

4) Quais as dificuldades para um jornalista cobrir o conflito?

A maior dificuldade, claro, é a de locomoção. Desde que Israel se retirou da Faixa de Gaza, por exemplo, não pude mais voltar ao território. Tenho cidadania israelense e o exército proibiu cidadãos do país a pisar em Gaza. Ir à Cisjordânia é mais fácil, já que muitos postos de controle permitem normalmente a passagem de um lado para outro. Outra dificuldade é filtrar a “propaganda” de cada lado. Não me refiro apenas às mensagens oficiais que os governos querem passar aos jornalistas estrangeiros. Me refiro à cultura interna palestina e israelense. Os dois povos cultivaram, em todos esses anos, mitos e dogmas em relação ao conflito. Há tabus que não são questionados. Relativizar esses tabus, questionar esses dogmas, é a tarefa mais difícil de um jornalista estrangeiro.