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A Rússia está certa ou errada na Ucrânia e na Síria?

gustavochacra

28 Fevereiro 2014 | 12h24

Criticam muito a Rússia. E há enormes motivos, especialmente em questões de política doméstica. Em política externa, porém, os russos são realistas, defendem seus interesses e observam os riscos de alguns acontecimentos internacionais, como agora na Ucrânia e também na Síria. Vladimir Putin se posiciona de forma antagônica à atual administração de Barack Obama, que mantém um isolacionismo idealista, no caso da Ucrânia – na Síria, Obama está correto em manter distância e buscar uma saída diplomática.

Na Síria, por exemplo, a Rússia, corretamente, não caiu no conto das manifestações “pró-democracia”. Primeiro porque não ocorreu absolutamente nenhuma em Damasco até hoje (sim tiveram protestos populares pró-democracia em Hama). Isso mesmo que vocês leram. Os protestos na capital síria, no início da crise, reuniam centenas de milhares de pessoas a favor de Bashar al Assad. Em segundo lugar, porque a Rússia sabia da presença de radicalismo islâmico ligado à Al Qaeda entre os rebeldes. Para completar, Moscou considera a Síria sua zona de influência, com importante população cristã ortodoxa, um regime cliente na compra de armas e uma razoável comunidade russa.

Agora, imagine a Ucrânia, ex-integrante da União Soviética, com cerca de um quarto do país tendo o russo como primeira língua, e controlando metade do território? Era óbvio que Moscou não deixaria e não deixará barato. A Ucrânia é mais importante para a Rússia do que o Canadá para os EUA. E os russos conhecem como ninguém os meandros de Kiev.

Primeiro, a Rússia, desde o início, sabia dos riscos de apoiar os manifestantes cegamente na Ucrânia, frisando que parcela importante deles é fascista. Em segundo lugar, porque o presidente deposto Yanukovych foi eleito democraticamente em 2010. Não houve fraude. Ele não era um ditador como muitos dizem. Sem dúvida, era um governante com um desempenho ruim e acusações de corrupção. Não muito diferente de alguns na América do Sul.

Por último, Yanukovych tinha total direito de se aproximar mais da Rússia em detrimento de um acordo com a União Europeia. Afinal, o Brasil não fez o mesmo com o Mercosul, em vez de se aproximar da Aliança do Pacífico. Pode ser um erro político e econômico. Mas não um crime para merecer deposição. O melhor era votar contra ele nas urnas.

Certo, tiveram também as mortes de dezenas de pessoas nas ruas. Estas deveriam ter sido investigadas e os responsáveis punidos, inclusive Yanukovych. Mas noto que os EUA, por exemplo, seguem dando ajuda bilionária ao regime do general Sissi, no Egito, que não foi eleito e matou mais de mil, além de prender milhares.

A proposta de uma saída negociada, com convocação de eleições para o final do ano, era a melhor existente. Yanukovych aceitou. Mas os manifestantes hoje no poder, não. Agora a Ucrânia corre o risco de ter uma guerra civil ou mesmo o separatismo na Crimeia e outras áreas com maiorias étnicas russas. Por último, acho que chegou o momento de nos perguntarmos se protestos devem ter mais poder do que o voto. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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