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Para o bem ou para o mal, Brasil começa ter destaque no Oriente Médio

gustavochacra

13 Novembro 2009 | 13h38

Em janeiro, eu estava em Jerusalém cobrindo a guerra, quando o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, desembarcou em Israel, depois de passar por Damasco, para se reunir com autoridades israelenses e palestinas com o objetivo de contribuir na solução do conflito na Faixa de Gaza.

Na porta da chancelaria de Israel, em Jerusalém, estávamos apenas os jornalistas brasileiros à espera da reunião de Amorim com a então ministra Tzipi Livni. Não foi muito diferente em Ramallah, quando o chanceler brasileiro conversou com Sallam Fayyad, premiê da Autoridade Palestina. Mais tarde, na entrevista coletiva no Hotel King David, apenas repórteres do Brasil.

Mudança
Nestes onze meses, muita coisa mudou. O Brasil consegue aos poucos se destacar como um ator importante na política do Oriente Médio e o apoio brasileiro passou a ser disputado pelos países envolvidos em conflitos na região. Esta é a avaliação de órgãos de imprensa de Israel que cobrem a visita do presidente Shimon Peres a Brasília, São Paulo e Rio.

Nos Estados Unidos, o peso brasileiro também é sentido, com críticas a Luiz Inácio Lula da Silva por receber o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad ainda neste mês e por ter uma viagem agendada a Teerã no início do próximo ano. Outros vêem a iniciativa do presidente como positiva pela neutralidade do país, ajudando em um difícil acordo para a questão nuclear iraniana, prioridade da administração de Barack Obama. O Departamento de Estado pediu, por exemplo, para que o Brasil interceda junto a Ahmadinejad para que o Irã liberte três americanos detidos sob a acusação de espionagem.

Envolvimento diplomático
O governo brasileiro também tem sido ativo no conflito envolvendo israelenses e palestinos. No mês passado, o Brasil liderou, sem obter sucesso, uma proposta no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, para encontrar uma saída para a questão do relatório Goldstone, que acusa Israel e o Hamas de terem cometido crimes durante a guerra em Gaza no início deste ano.

A embaixadora brasileira nas Nações Unidas em Nova York, Maria Luiz Viotti, foi, na semana passada, uma das vozes mais fortes no debate sobre o mesmo tema nas Nações Unidas. A posição brasileira, nos dois casos, teve destaque nos principais jornais americanos e europeus, algo impensável desde quando o diplomata Osvaldo Aranha presidiu a Assembleia Geral da ONU na votação que criou o Estado de Israel, em 1947.

Em análise, o diário israelense “Haaretz” afirma que as “visitas dos presidentes do Irã e de Israel ao Brasil demonstram o crescimento da potência sulamericana no Oriente Médio”. Na avaliação do jornal, considerado de centro-esquerda em Israel, um apoio do Brasil ao Irã poderia dar credibilidade ao programa nuclear iraniano e os israelenses visam impedir justamente que isso aconteça. Em julho, já esteve no Brasil o ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman. O encontro de Lula com Ahmadinejad em Nova York em setembro recebeu ampla cobertura da mídia internacional.

Anti-Israel
Neste envolvimento na política do Oriente Médio, o Brasil é visto como anti-Israel. Em primeiro lugar, pela forma como Lula trata Ahmadinejad, considerado o principal inimigo israelense no mundo e que já deu declarações consideradas contra os judeus. O presidente brasileiro também já esteve em uma série de países árabes e visitará o Irã, enquanto evitou Israel nestes sete anos que está no poder. Para completar, a posição brasileira em relação ao relatório Goldstone foi vista como dura pelos israelenses. Na ONU, na semana passada, Viotti afirmou que “Israel precisa respeitar as leis internacionais ao se defender, especialmente em áreas densamente populosas”.

obs. Baseado em reportagem que escrevi para a edição impressa do Estadão