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Como anda a Guerra da Síria?

gustavochacra

18 Janeiro 2018 | 20h04

A Turquia ameaça invadir a cidade de Afrin, em uma área controlada pelos curdos-sírios do YPG, que são apoiados pelos EUA e adotam como forma de propaganda o nome de “Forças Democráticas Sírias” mesmo não sendo democráticos. Segundo os turcos, o YPG é um braço do PKK, uma organização separatista curda na Turquia, responsável por dezenas de ataques terroristas.

Os EUA argumentam que os curdos do YPG foram fundamentais para derrotar o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico e Daesh, sendo necessários para manter a estabilidade nesta região síria, evitando que os terroristas se reagrupem. Além disso, são os únicos aliados americanos na Guerra da Síria neste momento.

Os turcos rejeitam o argumento americano. Afinal, diz a Turquia, se combater o ISIS dá imunidade, o Hezbollah também deveria receber apoio dos EUA (note que é uma ironia, já que o Hezbollah é inimigo da Turquia). Mas os americanos consideram o grupo libanês inimigo apesar de terem lutado contra o ISIS porque a organização é acusada de atentados terroristas. Para a o governo em Ancara, literalmente a mesma coisa que o YPG que os EUA apoiam.

O regime de Bashar al Assad, por sua vez, diz que abaterá os caças turcos caso estes sobrevoem o território sírio na ofensiva a Afrin. As forças de Assad, assim como o Irã e o Hezbollah, possuem uma relação de neutralidade em relação ao YPG, aliado dos americanos. Afinal, os curdos nunca seriam uma ameaça à “Síria que interessa”, em Damasco, Aleppo, Homs, Hama e a costa mediterrânea porque, basicamente, quase não há curdos nestes lugares. Servem também para incomodar a Turquia. Ao mesmo tempo, Assad considera grupos rebeldes aliados da Turquia como seus maiores inimigos e diz corretamente que alguns deles são aliados da Al Qaeda, como o Tahiri Al Sham (antiga Frente Nusrah).

Ironicamente, portanto, Assad estaria do mesmo lado dos EUA nesta questão de Afrin, apesar de o secretário de Estado americano ter dito mais uma vez que seu governo quer a queda do líder sírio. Claro, Washington, tanto no governo Obama como no de Trump, adora falar que quer o fim do regime de Assad, mas no fundo sabe que o líder sírio, apesar de acusado de crimes contra a humanidade, é necessário para evitar a chegada de grupos jihadistas radicais em Damasco, além de proteger minorias cristãs e alauíta e de manter a estabilidade nas áreas sob seu domínio.

A Rússia tem o interesse de manter Assad firme em Damasco. Mas também em sua agenda política a presença dos EUA nas áreas curdas não é bem vista. Por este motivo, a Turquia está dialogando com Moscou sobre a ofensiva em Afrin em busca de um aliado. Embora os dois estejam em lados opostos na guerra, mantêm em um diálogo bilateral e tentam encontrar uma resolução para o conflito.

Antes de terminar, não custa lembrar, a Turquia é integrante da OTAN, tendo estreita relação militar com os EUA. Trump e Erdogan têm uma relação de respeito, mas a relação entre os governos de Washington e Ancara se deteriorou muito há risco de rompimento. Para complicar, existe a questão entre Israel e Palestina, que se agravou com o reconhecimento feito por Trump de Jerusalém como capital israelense.