As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como as torcidas de Constantinopla explicam o Fla-Flu e a Mancha Verde?

gustavochacra

06 Março 2017 | 13h14

Brigas de torcida não são um fenômeno brasileiro, como sabemos. Basta ver os hooligans ingleses ou os barra-bravas argentinos. E tampouco são um fenômeno contemporâneo, da era do futebol, iniciada no fim do século 19 e começo do século 20. Violência entre torcidas existe há milênios.

Em Constantinopla (atual Istambul), torcedores se enfrentam desde a construção do Hipódromo para corridas de carruagens no século 4. Havia torcidas organizadas conhecidas como “demes” que torciam para diferentes times de carruagens. As maiores eram a verde e a azul. Quase todos os moradores da capital do Império Romano (Bizantino) tinha um time, incluindo os imperadores.

Mas havia os torcedores mais fanáticos entre os 100 mil que lotavam o hipódromo em dias de corrida. Seriam os torcedores organizados. Seus gritos de guerra eram tão altos que, dizem, talvez com um certo exagero, era possível ouvir do outro lado do Bósforo. Isto é, os torcedores cantavam na Europa e eram escutados na Ásia.

Depois das corridas, muitos jovens embriagados saíam pelas ruas de Constantinopla (na área de Sultanahmet na atual Istambul) depredando o que viam pela frente e brigando com torcedores adversários.

O imperador Justiniano, que como todos os imperadores também estava sempre presente ao hipódromo, tentou conter a violência no ano 532 AD impondo multas e outras penalidades aos torcedores. Não deu certo. Posteriormente, ameaçou executar alguns torcedores verdes e azuis. Estes conseguiram se abrigar na Igreja dos Sagrados Apóstolos (atual Mesquita Fatih em Istambul).

As torcidas imploraram para Justiniano anistiar os torcedores, mas Justiniano não aceitou. O atrito se intensificou, com levantes pela cidade que ficaram conhecidos como a Revolta Nika, talvez a maior da história do Império Bizantino. Torcedores organizados verdes e azuis entoando o grito de “Nika” (conquista ou vitória) se uniram depredando tudo e destruindo grande parte de Constantinopla, incluindo a  Hagia Sophia – posteriormente, a atual magnífica Hagia Sophia foi construída no mesmo lugar. Ameaçaram invadir o palácio e quase conseguiram derrubar o Imperador Justiniano, mas sua mulher Teodora o convenceu a lutar. No fim, Justiniano saiu vencedor e milhares de torcedores que celebravam a possível queda de Justiniano no hipódromo foram mortos.

Este texto, basicamente, busca mostrar que lidar com violência de torcidas não é algo simples. Mas noto que, nos EUA, onde não há torcidas organizadas, pode-se ir tranquilamente a um jogo de baseball do Yankees e ver no meio torcedores do Red Sox, o maior rival, com camisa do time e celebrando pontos sem o menor problema. Sim, não há a magia dos cânticos das torcidas de uma Bombonera ou do antigo hipódromo de Constantinopla (que ficava bem perto da atual Mesquita Azul).

Interessante notar que, mesmo hoje, Istambul tenha talvez as torcidas mais fanáticas do mundo – Galatasaray, Fenerbace e Besiktas. Mas seus torcedores não possuem relação com os verdes, azuis e mesmo os vermelhos e brancos de outras épocas.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários na minha página no Facebook. Peço que evitem comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores. Também evitem ataques entre leitores ou contra o blogueiro.  Não postem vídeos ou textos de terceiros. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a minha opinião e não tenho condições de monitorar todos os comentários
Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor) e no Instagram