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Como eu vejo, dos EUA, a mudança na identidade brasileira?

gustavochacra

12 Abril 2016 | 11h16

Já escrevi algumas vezes que, ao nos mudarmos para o exterior, o Brasil e os brasileiros ficam, de uma certa forma, congelados na nossa memória no ano que partimos. Sem dúvida, continuamos em contato, visitamos o Brasil, lemos a imprensa brasileira e interagimos nas redes sociais. Mas não vivemos o dia a dia. Não sentimos exatamente como está o clima. Admito que presto mais atenção à eleição americana do que ao processo de impeachment.

Deixei o Brasil em agosto de 2005. Ainda éramos a seleção pentacampeã, muitos consideravam Ronaldinho disparado o melhor jogador do mundo, alguns diziam que, em 2006, nossa seleção com Ronaldo, Adriano e Kaká seria a melhor de todos os tempos. A investigação do Mensalão apenas começava, mas também apenas começava a surgir um Brasil cuja economia, com o boom dos commodities, se tornaria poderosa alguns anos depois. Havia pouca polarização. Não havia brasileiros com conta no Facebook e não existia o whatsapp e Twitter. O Tevez ainda jogava no Corinthians, que era alvo de gozação por não ter uma Libertadores.

A maior parte dos brasileiros, na época, pouco se interessava por política. Ainda nos achávamos como o melhor país do futebol no mundo, com uma sociedade alegre, do carnaval, das novelas e com os nossos ídolos da MPB. E também onde tudo acabava em pizza.

Este Brasil, de 11 anos atrás, deixou de existir. E eu não vivi nem o surgimento da nova classe média e tampouco o colapso da mesma. Não vi o Brasil “bombar” em 2010 e 2011, como diziam meus amigos do mercado financeiro. Não vi o Brasil derreter, como dizem estes amigos. Vi sim pela TV nosso futebol envergonhar a nação e deixar de ser uma potência. Acompanho à distância a polarização de uma sociedade bem mais politizada. Vejo ídolos da MPB serem hostilizados por suas posições políticas. E vi políticos e empresários serem presos e a Justiça ser mais transparente. Mais interessante, o ídolo nacional de hoje não é um piloto de Fórmula 1 como Ayrton Senna, um craque do futebol como Romário ou um músico como Tom Jobim – é um juiz chamado Sérgio Moro.


Não sei como ficará o Brasil. Apenas sei que a identidade brasileira mudou. O Brasil de hoje é bem diferente do de 2005. E só quem mora no Brasil pode me dizer se esta mudança na identidade foi para melhor ou pior.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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