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Como Le Pen pode ser eleita matematicamente por meio da abstenção?

gustavochacra

05 Maio 2017 | 11h48

As pesquisas indicam que Macron venceria Le Pen no segundo turno por 20 pontos percentuais de diferença (60% a 40%). Os levantamentos, no entanto, pelo que entendi e me corrijam se estiver errado, não levariam em conta a abstenção. Portanto como Le Pen pode reverter esta diferença por meio de um menor comparecimento de eleitores de Macron às urnas?

Primeiro, suponha que 90% dos eleitores de Le Pen compareçam. Neste caso, ela teria 36% dos votos (90% de 40%). Deixa eu explicar melhor. Os 40% seriam o universo de pessoas que disseram ter interesse em votar nela. Mas nem todas necessariamente irão à urna no dia da eleição. Caso 9 em cada 10 eleitores de Le Pen votem, ela teria 36% do universo total.

Para ser vencedora, ela precisa que estes 36% do universo total (número total de eleitores franceses) seja igual ao maior do que 50% das pessoas que votaram. Logo, ela precisaria que os 60% das intenções de voto de Macron no universo total sejam equivalentes de no µáximo 36% dos eleitores que realmente votaram. Logo, seria Y x 60% = 36. Y (taxa de comparecimento de eleitores que dizem ter intenção de votar em Macron) seria igual a 60%. Isto é, apenas 6 em cada 10 eleitores que dizem pretender votar em Macron poderiam comparecer às urnas para Le Pen ter chance neste cenário. Neste caso, Le Pen e Macron estariam empatados em 50% a 50% dos votos validos.

Resumindo, Le Pen precisaria que 9 em cada 10 de seus eleitores comparecessem e, ao mesmo tempo, que no máximo 6 em cada 10 de Macron votassem. Claro que o cenário pode ser diferente caso as pesquisas estejam erradas e, na verdade, sendo otimista em relação a Le Pen, Macron tenha 55% das intenções de voto e ela, 45%.


Neste caso, com um comparecimento de 90% dos eleitores de Le Pen, a candidata da Frente Nacional teria 40,5% dos votos do universo total. Para Le Pen vencer, 40,5% precisam ser iguais a 50% do total de quem votou. Portanto a equação de Macron para Len Pen ser eleita seria de Y x 60 = 40,5%. Logo, Y=67,5. Neste caso, no máximo 67,5% (pouco mais de dois terços) dos eleitores de Macron poderiam comparecer para Le Pen ter chance de ser eleita.

Que fique claro, os números de 90% de comparecimento da candidata da Frente Nacional são aleatórios e nada garante que este será o comparecimento a favor dela. Jogo com a visão mais otimista para mostrar como matematicamente existe uma possibilidade via taxa de abstenção de ela vencer mesmo estando 20 pontos percentuais atrás. E também suponho que os franceses não façam pesquisas com os “likely voters” como nos EUA (me corrijam se eu estiver errado).

E, por favor, este texto NÃO É UMA PREVISÃO. Trata-se de um exercício matemático. Além disso, vale lembrar que as pesquisas nos EUA não erraram o resultado das eleições. A previsão, na média, era de que Hillary venceria no voto popular por 3% (venceu por pouco mais de 2%, dentro da margem de erro). Nos Estados, as pesquisas de grandes institutos acertaram em todos swing states (por exemplo, cravavam Ohio para Trump e colocavam a Florida como indefinida). O erro foi não ter havido levantamentos dos grandes institutos em Michigan e Wisconsin.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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