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Como Netanyahu e Dilma derrotaram Tel Aviv e São Paulo?

gustavochacra

19 Março 2015 | 18h29

Se as eleições israelenses fossem em Tel Aviv, o líder trabalhista Isaac Herzog seria o premiê, como bem lembrou o jornal Jerusalem Post. Sua coalizão de centro esquerda, União Sionista, obteria 41 cadeiras das 120 do Knesset, como é conhecido o Parlamento de Israel. O esquerdista Meretz  teria outras 16. Com o apoio de Yair Lapid, os israelenses teriam um dos governos mais liberais, no sentido americano da palavra, das últimas décadas.

Se as eleições brasileiras fossem em São Paulo, Aécio Neves teria sido eleito presidente do Brasil com 65% dos votos, quase o dobro de sua rival, a presidente reeleita Dilma Rousseff. E o PT deixaria o poder após 12 anos.

Tel Aviv é a cidade mais rica de Israel. São Paulo é a cidade mais rica do Brasil. Tel Aviv é centro financeiro, educacional e cultural de Israel. São Paulo é o centro financeiro, educacional e cultural do Brasil. São duas cidades que representam para seus países o que Nova York representa para os Estados Unidos. Mas estas duas metrópoles não conseguiram eleger os seus candidatos.

Netanyahu e Dilma, ideologicamente, são opostos totais. Também são líderes completamente distintos. Não dá para comparar o carisma do líder israelense com a brasileira. Na verdade, se alguém equivaleria em poder no Brasil ao premiê de Israel seria Lula, não Dilma.

Lula conhece seu público. Sabe falar a língua dos seus eleitores. Tem carisma. Netanyahu também conhece seu público. Também fala melhor do que ninguém a língua dos seus eleitores. Seu carisma é indiscutível. Lula e o PT derrotaram São Paulo. Netanyahu e o Likud derrotaram Tel Aviv.

As oposições, tanto no Brasil quanto em Israel, devem aprender as lições desta derrota. E, mesmo antes de perderem, ao menos deram indicações de que podem se reerguer. Os trabalhistas eram tidos como quase eliminados em Israel. Hoje Herzog desponta como o grande líder de oposição e, diante de um provável esgotamento de Netanyahu, tem tudo para um dia ser o premiê de Israel, ainda que precise esperar mais quatro anos.

Sem dúvida, neste momento, Herzog seria muito melhor para os israelenses no exterior. A imagem de Israel, sem Netanyahu no poder, melhoraria automaticamente, assim como a dos EUA melhoraram quando George W. Bush deixou o cargo. As relações com Barack Obama e com a União Europeia se tornariam bem melhores, já que praticamente nenhum líder do Ocidente tolera Netanyahu, como ficou clara na histórica conversa de Sarkozy com Obama.

Internamente, Herzog também teria uma preocupação maior com questões sociais e econômicas. Os árabe-israelenses certamente teriam uma relação melhor com o líder trabalhista, especialmente depois da bizarra declaração de Netanyahu às vésperas da eleição questionando eles estarem votando em massa. Os palestinos, idem. Afinal, Netanyahu, mesmo voltando atrás, foi claro ao dizer que não haverá Estado palestino enquanto ele estiver no poder. Tenham certeza, nunca esquecerão disso. Inclusive na Casa Branca. Em breve, talvez Israel perca seu grande defensor no Conselho de Segurança da ONU. Por culpa de Netanyahu. Seria diferente se todos os israelenses votassem como Tel Aviv. Israel tem de ser mais Tel Aviv e menos o assentamento de Ariel.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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