As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como o ataque dos EUA à Síria afeta Trump e Assad?

gustavochacra

07 Abril 2017 | 11h51

Escrevi ontem que seria lógico Donald Trump atacar o regime de Bashar al Assad

Pela lógica, Donald Trump ordenará bombardeios simbólicos (ordenou) contra alvos do regime de Bashar al Assad nas próximas semanas (foi nesta madrugada), mudando sua política para a Guerra da Síria. Estes possíveis bombardeios, se ocorrerem (ocorreram), não teriam o objetivo de derrubar Assad, acusado de ser responsável pelo ataque químico na Província de Idlib (o líder sírio nega). Os EUA sabem que não há uma alternativa aceitável para o lugar de Assad. Idlib, por exemplo, é controlado por um grupo rebelde anti-Assad ligado à rede terrorista Al Qaeda.”

Os benefícios que delineei para Trump ontem no meu texto eram

. “ O objetivo não seria derrubar Assad. Seriam (Foram) ataques similares aos ordenados por Reagan nos anos 1980 contra Kadafi. Serviriam como punição a Assad

 . Trump se posicionaria “como mais duro do que Obama”, que não bombardeou Assad depois de outro ataque químico atribuído ao líder sírio (na época, Trump também disse ser contra)

 . Trump se distanciaria de seus fracassos em política doméstica, ganhando força dentro do establishment republicano (foi elegiado até por McCain)

 . Trump mostraria que não tem medo de se posicionar contra Putin, buscando silenciar as acusações de conluio entre sua campanha presidencial e Moscou”

Portanto, teve total lógica a operação ordenada por Trump, que sai fortalecido no curto prazo. É cedo, porém, para saber se haverá custo para o líder americano no longo prazo.

E Assad? O líder sírio fica mais enfraquecido depois dos bombardeios contra a base militar perto de Homs. Na semana passada, até Trump estava resignado que Assad permaneceria no poder.

Mas este enfraquecimento não será o suficiente para colocar em risco a maior parte dos avanços que o líder sírio obteve no último ano. O leste de Aleppo, por exemplo, não voltará para as mãos da oposição. Mesmo assim, os rebeldes, especialmente os da Frente de Conquista do Levante (Frente Nusrah, a Al Qaeda na Síria), que controlam Idlib, se sentirão menos abandonados ao verem que podem contar com os EUA contra Assad.

Trump, no entanto, assim como Obama, não tem o menor interesse nestes grupos extremistas da oposição síria. O líder americano voltará a se focar no combate ao ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Assad, claro, falará que Trump apoia os jihadistas e extremistas islâmicos. Obviamente, isso não é verdade. Ser anti-Assad não significa ser pro-ISIS ou pro-Al Qaeda, por mais que estas organizações sejam inimigas do líder sírio.

E, em breve, vou me aprofundar no tema que sempre falam – “temos de remover Assad do poder”. Conforme expliquei na Globo News ontem, quem as pessoas pretendem colocar no lugar de Assad? A Al Qaeda, o ISIS? Algum líder opositor como Michel Kilo, com quase nenhum apoio interno (Assad tem popularidade nas áreas que controla e é o sírio mais popular do país)? Alguma figura decadente do regime como Walid Muallem? Ou o carismático general dissidente Manaf Tlass, atualmente playboy em Paris (no verão, em Cannes)?

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários na minha página no Facebook. Peço que evitem comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores. Também evitem ataques entre leitores ou contra o blogueiro.  Não postem vídeos ou textos de terceiros. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a minha opinião e não tenho condições de monitorar todos os comentários
Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor) e no Instagram