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Como o baseball explica os EUA? Vale a pena entender este esporte

gustavochacra

18 Outubro 2015 | 19h23

Eu também já fui um brasileiro que possuía preconceito com baseball. Até vir morar nos EUA há dez anos. E descobrir que, para entender os EUA, é preciso entender um pouco de baseball. Entender que um home run no campo pode também ser um home run na vida. Entender que ter sido “strike out” no campo também pode significar ter sido “strike out” na vida. Entender que um relacionamento amoroso pode começar e terminar na “first base”, mas também pode passar pela segunda, pela terceira e completar o “run”.

O baseball é considerado o “principal passatempo” dos americanos. Da primavera até o início do outono, os times jogam todos os dias. Houve a Primeira Guerra, a Segunda Guerra, a Guerra do Vietnã, a Guerra do Iraque e a Guerra do Afeganistão. Mas o baseball nunca parou, assim como os EUA nunca pararam. O ano se mede pelo baseball. O inverno termina com “spring training” dos times. O calor do baseball começa a aumentar com o verão e a temporada termina com a chegada do outono e a “post-season”, dos playoffs, após cada time ter jogado 162 vezes.

Pais levam os filhos aos “ball parks”. Desde cedo, assim como o Brasil com futebol, as crianças torcem por um time e tem orgulho de vestir a camisa e o boné desta equipe. Compram luvas e tacos. Pelas cidades e subúrbios dos EUA, integram as “little leagues” do esporte mais democrático de todos. Democrático? Mais do que o futebol? Sim, o baseball tem atletas de todos os tamanhos e pesos. Tem baixinhos e tem altões. Tem gordos, magros e fortões. Tem negro e tem japonês. Tem dominicano e tem judeu. Tem até os três brasileiros Andre Rienzo, Paulo Orlando e Ian Gomes.

E o baseball também é tradição. Apenas os nomes dos times estão inscritos nos uniformes, além dos números e dos nomes dos jogadores. O material do uniforme mudou, mas o estilo segue o mesmo de um século atrás, parecendo pijamas. Na Fenway Park, o estádio do Boston Red Sox, o placar ainda é manual. E sabe os bonés que muitos compram em Nova York? O NY não quer dizer especificamente Nova York em homenagem à cidade. Trata-se, na verdade de New York Yankees e New York Mets. Os nova-iorquinos acham que as pessoas compram por causa do baseball, não por causa da cidade. E os estrangeiros acham que compram por causa da cidade e não por causa do baseball.

E o hot-dog? É a comida do baseball. Não existe ir a um jogo e não comer um, inclusive o “kosher” do Nathan’s aqui de Nova York, uma cidade com uma grande população judaica. Também, claro, o cracker jack. Muita cerveja, refrigerante, pizza e hamburger. Atualmente, também há opções mais saudáveis, incluindo saladas e frutas. Para completar, os chicletes, item obrigatório dos jogadores e dos técnicos.

E não se esqueçam das cerimônias. Antes do jogo de baseball, tocam o hino dos EUA. No intervalo do sétimo inning, cantam “God Bless America” e “Take me Out to the Ball Game”, que resume bem a experiência de um jogo de baseball. No Yankees, no fim do jogo, tocam “New York, New York”. No Red Sox, Sweet Caroline. No Mets, tem o “alongamento” do sétimo inning. No do Yankkes, tocam “It is Raining Man” para os responsáveis pela manutenção.

E tem a parte cultural do baseball. Não há um americano que não conheça a mágica esquete americana do “Who is on First”, de Abbott & Costello. Como ver episódios de Seinfeld sem entender de baseball? E o filme Campo dos Sonhos, que retrata uma triste história do Chicago White Sox de 1919, quando oito jogadores do time foram banidos do baseball sob a acusação de terem entregue o jogo na final da World Series – posteriormente, quando já estavam aposentados, foi provada a inocência. Mas tarde demais para eles reiniciarem a carreira. No Campo dos Sonhos, eles voltam para jogar depois de mortos. Como curiosidade, o White Sox ficou 88 anos sem ser campeão entre 1917 e 2005. O baseball, assim como a sociedade americana, era segregacionista até Jackie Robinson quebrar as barreiras como vemos no filme 42.

Aliás, o baseball explica como os americanos, diferentemente de brasileiros e espanhóis, não ligam se o time é o melhor ou não. Não ligam se ficam anos sem ser campeões. Faz parte da vida. Da cultura. De maldições. Ser torcedor do Boston Red Sox foi por 86 anos sinônimo de não ser campeão. O time venceu em 1918. Mas depois vendeu para o Yankees Babe Ruth, o Pelé do baseball. E ele jogou uma maldição dizendo que eles “nunca mais seriam campeões”. E não foram. Até 2004, quando o time finalmente saiu da fila. E os corintianos achando que 23 anos era muito…

Mas nada supera o Chicago Cubs. Time de enorme torcida ao redor dos EUA, eles não são campeões há 107 anos. Literalmente, um século e 7 anos jogando e perdendo, muitas vezes com requintes de crueldade. Mas a série de jogos entre o Cubs contra o New York Mets será o tópico do meu próximo texto sobre baseball. Não vou parar por aqui. Estou acompanhando os jogos da final da National League e irei acompanhar também a World Series. Ontem, enfrentei o gélido frio inesperado de Nova York para passar oito horas seguidas no Citi Field acompanhando entrevistas coletivas, aquecimento e o primeiro jogo do Mets contra o Cubs.

Meu objetivo é convencer os brasileiros de que vale a pena entender a cultura do baseball para entender os EUA.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires