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Como Rafik Hariri e Michel Aoun explicam a política do Líbano?

gustavochacra

13 Novembro 2017 | 15h54

Antes de 2005, entrevistei duas vezes o atual presidente do Líbano, Michel Aoun, e o então premiê, Rafik Hariri, para a Folha. As entrevistas com Aoun, que vivia no exílio em Paris, foram por telefone. Com Hariri, teve uma por e-mail e outra pessoalmente em visita dele a São Paulo. Todas foram entre 2003 e 2005 para a Folha de S. Paulo, onde eu trabalhava na época. Estas entrevistas ajudam a explicar um pouco a confusão do Líbano.

Aoun, conhecido como o general, vivia no exílio desde o fim da Guerra Civil do Líbano (1975-90) por se opor à presença de tropas sírias no Líbano. Na época, havia na prática uma dominação da Síria do território libanês. Nas entrevistas, Aoun, que já era o maior líder cristão libanês, criticava o Hezbollah por possuir armamentos. Hoje, presidente do Líbano, Aoun é aliado do Hezbollah.

Rafik Hariri, por sua vez, foi premiê do Líbano ao longo de quase todos os anos 1990 e a primeira metade da década passada. Muçulmano sunita e bilionário, fez fortuna na Arábia Saudita. Foi em parte responsável pela reconstrução de Beirute na guerra civil. E, por muito tempo, foi aliado do regime de Damasco. Na entrevista, defendeu que o grupo xiita Hezbollah possuísse armas. Mas, em meados de 2004, rompeu com a Síria e renunciou ao cargo de premiê, se tornando um opositor à presença síria na Líbano.

Em fevereiro de 2005, Rafik Hariri morreu em um mega atentado em Beirute. Sua caravana havia acabado de passar pelos hotéis Phoenicia, uma espécie de Copacabana Palace local, e o Saint George, quando foi alvo de gigantesca explosão, que destruiu prédios ao lado, pouco antes de seu carro chegar ao Corniche, a avenida beira-mar de Beirute. Sua morte levou centenas de milhares de libaneses às ruas para pedir o fim da ocupação síria, no que ficou conhecido como Revolução dos Cedros.


As tropas sírias foram retiradas. Saad Hariri se tornou o herdeiro político do pai e o grande líder contra a Síria em Beirute. Aoun, naquele momento, voltou do exílio ao Líbano devido à saída das tropas sírias. Foi recebido como herói pelos cristãos. Mas não se tornou aliado do sunita Saad Hariri, que optou por soltar do calabouço e se aliar Samir Geagea, outro líder cristão e rival de Aoun – na guerra civil, forças cristãs aliadas a um e a outro se degladiaram na chamada batalha dos cristãos.

Obviamente, Aoun ficou irritado com a aliança entre Geagea e Hariri. Sempre com o sonho de ser presidente libanês (cargo destinado aos cristãos, ele decidiu se aliar ao Hezbollah, dando início à aliança entre cristãos e xiitas no Líbano. Deixou, claro, de criticar o Hezbollah por portar armas. Já Saad Hariri se tornou inimigo do grupo xiita, acusado por um tribunal internacional independente de ter sido responsável pelo atentado que matou seu pai.

Esta divisão entre, de um lado, o Hezbollah e os grupos cristãos ligados a Aoun, e de outro, de Hariri com outros grupos cristãos persiste até hoje. Mas, no ano passado, houve o acordo no qual todos ficaram satisfeitos. Geagea, mais jovem, fez uma concessão e aceitou Aoun como presidente. Todos concordaram que Hariri seria o premiê. E o Hezbollah manteve suas armas.

O certo é que Líbano não é simples de se entender. Tem de olhar as várias nuances, como a de Aoun, por 15 anos adversário da Síria e do Hezbollah, ser hoje o líder de uma aliança com o grupo xiita e o regime de Bashar al Assad. Em parte, que fique claro, porque as forças sírias e o Hezbollah defenderam cristãos na Guerra da Síria. Mas há outras motivações.