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Como Trump lidará com o conflito Israel-Palestina?

gustavochacra

10 Fevereiro 2017 | 21h49

Depois de três semanas de mandato, Donald Trump alterou a sua postura em relação ao conflito entre israelenses e palestinos. Primeiro, o presidente americano dizia que mudança da embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém seria imediata. Agora a transferência foi postergada por um período indeterminado. Em segundo lugar, Trump não impunha obstáculos aos assentamentos israelenses na Cisjordânia. Mas, na semana passada, publicou um comunicado dizendo que, embora não considerasse os assentamentos um obstáculo para a paz, condenava a expansão destas colônias para fora dos limites já existentes. Agora, em entrevista, disse que os assentamentos não são algo bom para a paz.

Estas mudanças se devem aos seguintes motivos.

         1 . Netanyahu quer manter proximidade com nações sunitas – o próprio premiê de Israel Benjamin Netanyahu não vê necessidade de a mudança da embaixada ocorrer agora. Claro que publicamente o primeiro-ministro não dirá isso, mas o faz nos bastidores em Washington. Bibi investiu muito em uma aproximação com nações de maioria sunita do mundo árabe e também da ex-União Soviética como forma de conter o Irã. Ele sabe que os governos destes países, além dos do Egito e da Jordânia, que já possuem relações diplomáticas com Israel, ficariam em situação delicada domesticamente, com a mudança.

  1. Netanyahu quer conter radicais de seu governo – Na questão dos assentamentos, Netanyahu quer anexar o maior número possível em um futuro acordo de paz com os palestinos. Ao mesmo tempo, o premiê quer conter a voracidade de membros mais radicais de seu partido querendo inclusive a legalização de postos avançados (assentamentos construídos à revelia do governo israelense), o que isolaria internacionalmente o país. Netanyahu sabe disso. Antes, ele tinha o argumento de que isso irritaria Obama. Agora, precisava também que Trump colocasse uns freios em políticos como Naftali Bennett.
  1. A força do Rei da Jordânia – O rei Abdullah da Jordânia esteve em Washington e explicou para Trump que ele seria o maior prejudicado pela transferência da Embaixada para Jerusalém. Afinal, o monarca é guardião da Esplanada das Mesquitas/ Monte do Templo, tem relações diplomáticas com Israel e possui mais da metade da população em seu país de origem palestina. Obviamente, seria alvo de protestos. Abdullah, que é o líder árabe mais respeitado por republicanos e democratas em Washington, também explicou a Trump como o tema dos assentamentos é delicado
  1. Arábia Saudita e Egito querem proximidade com Trump (e vice-versa) – A Arábia Saudita e o Egito estão dispostos a trabalhar com Trump e evitaram criticar inclusive o decreto do presidente (derrubado na Justiça) proibindo a entrada de cidadãos de sete países de maioria islâmica e de refugiados de todos os países nos EUA. Embora os líderes destes países avaliem que certos membros do governo Trump como Steve Bannon sejam islamofóbicos e classifiquem o decreto como bloqueio aos muçulmanos, sauditas concordam com posições do president americano e em relação a um endurecimento com o regime de Teerã, maior rival de Riad. Os sauditas querem ainda mais apoio na Guerra do Yemen. Já o regime de Sissi, no Cairo, tem feito lobby para Trump incluir a Irmandade Muçulmana na lista de entidades terroristas do Departamento de Estado. Busca também, claro, manter a mesada que seu país recebe dos americanos
  1. Israel e Arábia Saudita querem negociar – Israel e Arábia Saudita também demonstraram interesse no médio prazo em uma negociação entre a Liga Árabe e Israel para a resolução do conflito entre israelenses e palestinos. A Autoridade Palestina, bem enfraquecida, seria, no caso, colocada em um segundo plano, com os governos árabes liderando o diálogo. Trump gostou desta via de negociação.
  1. O Establishment de Washington – Aos poucos, o establishment conservador de segurança de Washington começa a exercer mais força no governo Trump por meio do Departamento de Estado e do Pentágono não apenas em temas como o Oriente Médio como também em China. Aquelas duas semanas em que a política externa de Trump estava nas mãos de nacionalistas como Bannon chegaram ao fim, embora ele ainda exerça enorme influência sobre o presidente. E o establishment tem um consenso de que novos assentamentos e a mudança da embaixada para Jerusalém não trazem benefícios para o processo de paz e tendem a ser prejudiciais.

Mas vamos seguir observando. As mudanças têm sido muito abruptas para ter um cenário geral.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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