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Como uma refugiada síria explica o nosso amor pela natação?

gustavochacra

08 Abril 2016 | 13h18

A “síndrome da faixa negra” é uma condição de muitos nadadores que passam a vida olhando o fundo da piscina enquanto nadam milhares de metros todos os dias. Para um nadador, “tiro” não é o que sai do revólver, mas do apito do treinador para nadar uma distância pré-determinada em velocidade máxima. Os famosos 10 de 200 crawl, por exemplo. Natação é ficar com o cabelo destruído pelo cloro e ter orgulho. É ter aquela preguiça antes de pular na água, pois sabe que sentirá frio nos primeiros metros até se aquecer e não querer sair nunca mais de dentro da água. Nadar é ir para uma outra dimensão, se desligar do resto do mundo. É como voar, deslizando pelas águas de borboleta ou olhando para o céu enquanto nada costas. As piscinas, para quem nada, são verdadeiros templos religiosos.

Eu nunca fui um grande nadador. Tanto que acabei no polo aquático, destino comum de quem é mais ou menos na natação. Mas, até hoje, não consigo passar um dia sem nadar, especialmente borboleta, conhecido com golfinho no passado. Minha mulher até se cansa de ter de perder momentos da viagem para pegar o metrô e me esperar treinar na piscina dos Jogos Olímpicos de Berlim. Ou em Lisboa, tendo de ir de carro até uma piscina distante em Belém. Ter de perder a manhã enquanto vou a uma piscina de uma academia em Beirute. E me ver triste por não ter me hospedado no Çiragan de Istambul com sua fantástica piscina diante do Bósforus.

Um dos meus maiores orgulhos é ser filho de uma campeã sul-americana de natação. Até hoje, minha mãe nada melhor do que eu. Ela tem aquele dom de deslizar quase sem fazer força, flutuando na água. É o dom de nadadores, como meus amigos Dabdab, Mario Marone, Henrique Erbolato, Samantha, Denise, Edu, Camila, Eric.

E hoje é dia da natação. Minha homenagem fica para a refugiada síria Yursa Mardini. Até anos atrás, a vida dela era nadar, nadar e nadar nos clubes de Damasco. Clubes não muito diferentes do Minas Tênis, do Pinheiros, do Paulistano, do Flamengo, do Tijuca, do Náutico do Recife, da Hebraica e do Clube Sírio de São Paulo. Colocava o maiô, os óculos e treinava. Mas a guerra mudou a vida dela. Imagine uma menina nadadora jovem, com um futuro promissor, cuja vida é nadar, ter de fugir para a Turquia. De lá, pagar contrabandistas para ser levada de bote para a Grécia. Mas o motor quebrar no Mediterrâneo. Ter de pular na água e, junto com a irmã, também nadadora, empurrarem e puxarem o bote para salvar a vida dos outros. Chegar à Grécia e tentar ir para a Alemanha. Ser presa, humilhada e chamada de terrorista ao longo percurso. Passar fome. Até, finalmente, chegar a Berlim. E, no campo de refugiados, perguntar onde era a piscina mais próxima.


Yursa acabou no Spandal, um dos melhores clubes de natação do mundo. O técnico decidiu treiná-la. E, agora, ela está perto índice para ir para as Olimpíadas no Rio. Não sabe se irá como membro do time da Síria ou sob a bandeira do COB em um time de refugiados. Mas estará nadando, embora ainda sinta saudades de nadar na piscina ao ar livre em Damasco junto com seus amigos. O sonho de nadar, porém, segue vivo porque a Alemanha a acolheu. Quantas pessoas como ela não ficaram pelo caminho? Se ela não fosse nadadora, talvez tivesse morrido no Mediterrâneo como milhares de refugiados sírios.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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