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De Beirute a Jerusalém – Nova guerra não destruiria o Hezbollah, que é parte do Líbano

gustavochacra

08 Maio 2010 | 11h44

O Hezbollah não existia quando Israel invadiu o sul do Líbano no fim dos anos 1970 para combater guerrilhas palestinas. Nos anos seguintes, o grupo xiita, ainda sem nome definido, começou a emergir nesta área libanesa. Três motivos levaram à criação do Hezbollah. 1) A Revolução Islâmica no Irã, que decidiu apoiar os xiitas libaneses e treiná-los para lutar na guerra civil e também contra Israel. 2) A marginalização dos xiitas na sociedade libanesa, dominada, até os anos 1970, pelos cristãos maronitas e, em menor escala, sunitas e druzos. 3) A ocupação israelense do território libanês.

Ao longo dos anos 1980, o Hezbollah foi acusado de uma série de ataques e sequestros de estrangeiros. O grupo estaria inclusive por trás dos mega atentados contra os marines americanos e a embaixada dos EUA em Beirute – a organização nega envolvimento. Na década seguinte, lutou contra os israelenses e seus aliados cristãos e xiitas (isso mesmo que vocês leram) da milícia denominada Exército do Sul do Líbano.

Diferentemente do Hamas e outros grupos palestinos, o Hezbollah jamais realizou um atentado terrorista suicida em Israel. O grupo é acusado de ter cometido dois ataques em Buenos Aires, contra a Amia e a Embaixada de Israel. Muitos analistas, eu incluído, acreditam que na verdade as ações possam ter sido um acerto de contas da Síria com Menem (que é sírio), com a participação de neonazistas argentinos – há um em cada esquina de Buenos Aires.

No ano 2000, em meio à pressão domestica, Israel desocupou o sul do Líbano, permanecendo nas Fazendas de Shebaa – os israelenses argumentam que o território é sírio. A Síria e o Líbano dizem ser libanês. A ONU inicialmente dizia ser sírio, mas hoje investiga para definir. O certo, apenas, é que não se trata de território israelense.

O Hezbollah, nestas duas décadas de ocupação de Israel, nasceu e cresceu. Mais complicado, o Irã, nos últimos anos, elevou sua influência no Oriente Médio depois de os EUA terem ajudado Teerã ao derrubar Saddam Hussein, maior inimigo da história iraniana, do poder e substituí-lo por um regime próximo dos iranianos. Assim, o grupo libanês passou a receber mais ajuda. Em 2006, provocou Israel ao matar e sequestrar soldados israelenses, provocando uma retaliação que arrasou partes do Líbano, e provocou a morte de dezenas de civis e militares do outro lado da fronteira, inclusive em Haifa.

Hoje, o grupo xiita é aliado de facções cristãs libanesas moderadas, incluindo o líder cristão maronita Michel Aoun e o presidente Michel Suleiman. Além da milícia, possui rede de TV (Al Manar), creches e hospitais. As regras políticas libanesas também garantem aos xiitas (e todas as religiões) cadeiras no Parlamento. Estas acabam divididas entre o Hezbollah, e os seus aliados AMAL. Os xiitas têm direito ainda a determinados ministérios.

Não dá para saber qual o percentual de xiitas no Líbano, pois é proibido realizar censo. Acredita-se que seja pouco mais de um terço, superando os cristãos maronitas como a maior pluralidade do país. A quase totalidade destes xiitas, e muitos cristãos, apóiam o Hezbollah – com fraco suporte entre sunitas e druzos. Eliminar o Hezbollah implica em destruir toda esta parte da sociedade libanesa. Mais fácil seria transformar o Hezbolah. E a única forma seria pressionar o grupo para ser desarmado, integrando suas forças ao Exército libanês. O difícil é fazer isso em um momento em que se fala de guerra em Israel. Os israelenses contribuiriam bem mais se saíssem das Fazendas de Shebaa, tirando o principal argumento do grupo xiita para carregar armas. Um novo conflito serviria apenas para destruir Beirute e causar grandes estragos até mesmo em Tel Aviv. E qual o objetivo? Uma nova guerra em 2014, como uma Copa do Mundo? Insisto, Israel já ocupou o sul do Líbano por mais de 20 anos e não conseguiu nada. Na época, tinha apoio de parte da população local. Também tentou bombardear o sul do Líbano, em 2006, destruindo quase todas as vilas perto da fronteira. Tampouco deu certo. Uma nova guerra? Não dará certo. O Hezbollah continuará existindo.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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