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De NY a Damasco – As quatro questões que definem Israel, os árabes e o Irã

gustavochacra

07 Julho 2011 | 10h23

no twitter @gugachacra

Os países do Oriente Médio precisam lidar com quatro antagonismos ao mesmo tempo. Secular versus Religioso; Sectarismo versus Identidade Nacional; Tribalismo versus Instituições; e Democracia versus ditadura.

Todos os Estados da região, incluindo Israel e os territórios palestinos, enfrentam pelo menos um destes antagonismos que são os principais vetores de crise na região. Vamos começar pelo Marrocos, que aprovou reformas democráticas nesta semana, sem a necessidade de revolução como no Egito e Tunísia.

O Marrocos precisa lidar com a questão secular versus a religiosa, pendendo para a primeira. O sectarismo finalmente passou a ser encarado com seriedade no referendo do fim de semana e o berbere passará a ser língua oficial ao lado do árabe. Ainda distante de ser uma democracia nos moldes escandinavos, o Marrocos, a partir de agora, tampouco será monarquia absolutista.


A Argélia também lida com todos estes problemas. A religiosidade foi enfrentada com dureza desde o fim dos anos 1990. Mas, em troca, a ditadura se fortaleceu em detrimento da democracia. Existem também questões sectárias (ou étnicas, neste caso) entre árabes e berberes.

A Líbia hoje é um Estado falido. Não existem instituições, com o tribalismo e o regionalismo determinando os destinos do país. A religiosidade também se acentua. O sectarismo não parece ser um grande problema, mas as pessoas se identificam muito com a região de onde são originárias, como Cyrenaica e Tripolitânia. Obviamente, não existe democracia.

A Tunísia passou a ser vista como a nação árabe com mais chances de ser democrática. A ditadura de Ben Ali acabou. Não há questões sectárias. O papel da religião é secundário e as instituições fortes.

O Egito, por sua vez, apesar de parecido, tem problemas sectários envolvendo os 90% de sunitas e os 10% de cristãos coptas. A religiosidade é um risco, especialmente depois da revolução. A ditadura acabou, e a perspectiva é de democratização. As instituições, como o Exército, são fortes.

Israel é uma democracia, com instituições consolidadas. Mas há problemas. Existem questões sectárias envolvendo a maioria judaica e as minorias muçulmanas e cristãs. Os religiosos possuem uma influência maior do que a sua proporção na população, com poderes em questões civis e educacionais. Há problemas internos de identidade, com imigrantes de diferentes partes do mundo, com alguns judeus de origem russa vivendo em um universo prórprio.

Os palestinos são um caso mais complexo. Existe um experimento democrático na Cisjordânia, com instituições fracas. Cristãos e muçulmanos vivem bem. Mas seculares e religiosos, não. Em Gaza, há uma ditadura do Hamas, com viés religioso e sectário sunita.

O Líbano é o exemplo clássico se sectarismo, como sabemos. A identidade nacional sempre está abaixo da religião. Os problemas entre religiosos e seculares não são graves. Algumas instituições, como o Banco Central, são fortes. Outras, fracas. Não há risco de ditadura justamente devido ao balanço entre as religiões.

A Jordânia é uma ditadura que busca se travestir com algumas liberdades. As instituições são razoáveis, mas há um forte tribalismo. A sociedade se divide entre refugiados palestinos e jordanianos. A religiosidade é um problema.

O Iraque está em uma transição para a democracia, com problemas sectários graves, conservadorismo religioso sunita e xiita e instituições fracas. A vantagem é que alguns destes problemas foram amenizados.

A Arábia Saudita é uma monarquia ditatorial, com disputas sectárias em algumas regiões, instituições poderosíssimas e, para completar, pode ser considerado o país mais religioso do mundo.

Omã e Emirados Árabes são monarquias absolutistas, com problemas entre nativos e expatriados, instituições fortes e religiosidade misturada a relativa liberdade para atrair turistas e investimentos. Qatar e Kuwait são parecidos, mas ensaiam alguns avanços democráticos.

Bahrain é outra monarquia ditatorial, com os mais graves conflitos sectários do Oriente Médio atualmente, envolvendo sunitas e xiitas. As instituições são fortes, mas a identidade nacional, quase nula.

O Yemen é um Estado falido, com instituições precárias, aumento da religiosidade, disputas sectárias e regionalistas e, por incrível que pareça, apesar dos anos da ditadura de Abdullah Saleh, com uma vocal oposição.

O Irã é um Estado teocrático, com um líder supremo. Existem eleições para o Congresso e Presidência, mas os eleitos estão sempre subordinados ao poder dos religiosos. Há problemas sectários não acentuados, as instituições são fortes e, depois da Arábia Saudita, é a segunda nação mais religiosa do mundo.

Por último, deixei a Síria, de propósito. Os sírios enfrentam todos estes problemas por serem divididos ao meio em quase todas estas questões. Existe um sectarismo, com divisões entre sunitas, alauítas, cristãos e druzos. Ao mesmo tempo, alguns sunitas se colocam ao lado de cristãos e alauítas na questão secular versus religioso. Antes um líder alauíta do que um radical sunita, na visão deles. As instituições são fortes, mas o tribalismo tem poder em áreas distantes dos grandes centros. Alguns alauítas e cristãos, assim como outros sunitas, preferem a democracia a uma ditadura que supostamente os defende.

Nestes meses, os sírios estão lidando com estas quatro questões. O ideal para eles e para o mundo talvez seja uma democracia, secular, sem problemas sectários e com instituições fortes. Não sei se este será o resultado. Na oposição, tem gente lutando pela democracia. Outros, contra secularismo. E quase todos, contra a corrupção das instituições.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios