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De NY a Islamabad – Índia, e não a Al Qaeda, preocupa Paquistão

gustavochacra

03 Maio 2011 | 08h54

no twitter @gugachacra

Nova York

A Índia, e não a Al Qaeda e o Taleban, preocupam o Paquistão. Para os paquistaneses, Bin Laden pode ter sido um problema, mas não a prioridade geopolítica. O terrorismo é grave para Islamabad. Até a mulher do presidente, Benazir Butho, que, assim como seu pai, governou o país, foi morta em atentado. Mas o que interessa para a população é o conflito com os indianos. E os grupos extremistas sempre foram utilizados pela ISI (serviço de inteligência) nas ações contra os indianos.

O Paquistão integrava a Índia quando o território era dominado pelos britânicos. No processo de independência, comandado Jinnah (muçulmano) e Nehru (hindu) no anos 1940, ficou decidida a partilha. As áreas de maioria islâmica ficariam com os paquistaneses; as majoritariamente hindus, com a Índia. Nesta época, Bangladesh era parte do Paquistão – o país se tornaria independente apenas nos anos 1970.

O problema é que a região da Cashmira, de maioria islâmica, ficou com a Índia. E os paquistaneses sempre reivindicaram este território. Os dois países travaram guerras e, nos anos 1990, conseguiram fabricar bombas atômicas. Apesar de uma maior aproximação atualmente, a rivalidade persiste. Para lutar com os indianos, de maneira indireta, Islamabad usa o terrorismo islâmico.

Depois do 11 de Setembro, os EUA conseguiram o apoio do Paquistão na luta contra o terror. Os paquistaneses colaboraram e foram vítimas do terrorismo. Mas, o tempo todo, Islamabad fez um jogo duplo. Combatia os grupos extremistas enquanto também os apoiava. Era uma tentativa de equilibrar seus interesses geopolíticos na disputa com a Índia com a aliança americana.

No imaginário paquistanês, a Cashmira é deles, não da Índia. Seria uma sensação próxima da dos argentinos em relação às Malvinas (Falklands), da Armênia com parte da Turquia, do Azerbaijão com Nagorno Karabach, dos sírios com as colinas do Golã e de diversos outros conflitos territoriais.

Nestes anos, o Paquistão, que apoiou os americanos, se sentiu traído pelos EUA. As relações de Washington com a Índia se aprofundaram. No ano passado, Obama defendeu a inclusão dos indianos como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Nem mesmo o Brasil alcançou este objetivo. Em parte, porque os americanos queria dar um recado para a China.

No caso, os EUA não estavam querendo provocar o Paquistão, mas a China. E, no terrorismo, Islamabad tampouco pretende irritar os americanos. O alvo é a Índia. De qualquer maneira, Washington não tem como manter as operações no Afeganistão sem a ajuda dos paquistaneses. Sem esquecer, claro, que o Paquistão é o único país do mundo islâmico com bomba atômica. Curioso que Bin Laden estivesse tão próximo dela.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios