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Entenda a diferença entre a direita multicultural-liberal e a direita jeca-conservadora

gustavochacra

12 Maio 2014 | 12h02

Há pelo menos duas direitas hoje no mundo. A primeira é a direita defensora do livre-mercado, das liberdades individuais e de um mundo multicultural. Esta direita combate o preconceito religioso. Defende que pessoas do mesmo sexo possam se casar. É a favor da legalização de imigrantes sem documentos. E não quer se intrometer no que cada um consuma dentro de sua propriedade privada, desde que não viole a liberdade e a segurança dos outros.

A segunda é a direita jeca, provinciana, islamofóbica (anti-muçulmana), antissemita, ultrapassada, homofóbica. Defende uma política fracassada de combate ás drogas. Quer deportar imigrantes. E não suporta e ataca muçulmanos mesmo sem, muitas vezes, terem visto um muçulmano ao vivo. Vai do Tea Party nos EUA (a ala conservadora, não a libertária), ao regime saudita (neste caso coloque judeus e cristãos no lugar de muçulmanos) e Putin.

No Brasil, como escrevi em um post ontem, por algum motivo alheio à minha imaginação, combater a islamofobia virou sinônimo de esquerda. Isso mesmo se a pessoa for da direita multicultural, defensora do livre-mercado e sempre crítica de governo de esquerda em qualquer lugar do mundo. E virou sinônimo de direita ser islamofóbico. Parece que alguns acham bacana atacar muçulmanos.

Mas, na realidade, quem ataca a islamofobia (combate o preconceito contra os muçulmanos) pode ser da direita multicultural, mais associada ao Silicon Valley e a Nova York. Não existe relação entre defender o livre-mercado e as liberdades individuais e atacar os muçulmanos.

 Apenas ressalto, como já deixei claro aqui no blog,

1)   não é verídica a informação de que muçulmanos matam 100 mil cristãos por ano

2)   todas as principais entidades islâmicas do mundo condenam o terrorismo em nome do islamismo

3)   Todos os países de maioria muçulmana condenaram o 11 de Setembro (menos o Afeganistão)

4)   todas elas deixam claro que grupos como o Boko Haram e Al Qaeda não representam o islamismo

5)   Todos os países de maioria muçulmana combatem o terrorismo e quase todos em parceria com os Estados Unidos

 Para esclarecer, coloco o depoimento do meu amigo Samer Shousha, brasileiro e muçulmano, que faz PhD em economia na Columbia em Nova York – mesma universidade onde fiz mestrado em Relações Internacionais. Além da Columbia, Samer é formado em engenharia mecatrônica pela Poli-USP e tem mestrado em economia na PUC_RJ, tendo trabalhado por anos no mercado financeiro. Fluente em árabe, inglês e espanhol, apaixonado pelos EUA, pelo Egito, onde nasceram sus pais (e ele é extremamente crítico da administração da economia egípcia), e pelo São Paulo Futebol Clube (também critica o time do Morumbi), ele dá um depoimento curto, mas necessário

 “Sou muçulmano, de direita e estudante de PhD em Economia na  Universidade Columbia de Nova York, uma instituição que prima pela ortodoxia em economia. Logo, aos que escrevem barbaridades para atacar os muçulmanos, dou a sugestão que dou a meus alunos: estudem mais antes de ter opiniões preconceituosas (na acepção do termo) e entendam, de uma vez por todas, que ser de uma religião, torcer para um clube, etc, não determina se uma pessoa é melhor ou pior que a outra. Todo grupo tem pessoas ótimas, boas e ruins, o que não pode acontecer é só ressaltar as atitudes de poucos ruins em detrimento, nesse caso, de 1/4 da população mundial. Acho que com isso teremos um mundo que tolere melhor diferentes visões de mundo e onde tenha-se mais respeito por opiniões divergentes.”

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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