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Guia blogueiro para entender a Crise na Ucrânia

gustavochacra

03 Março 2014 | 13h41

Dá para resumir a história da Ucrânia?

A Ucrânia tem mais de mil anos de história, desde os tempos de Kiev Rus, que chegou a ser o maior país da Europa no século 10 e é visto como o berço do cristianismo eslávico. Nos séculos seguintes, sofreu invasões mongóis e foi dominado pela Polônia-Lituânia. No século 17, um novo Estado emergiu com o nome de Cossack Hetmanate, que durou cem anos. Aos poucos, o território ucraniano foi incorporado ao Império Russo.

Entre 1917 e 21, o país conquistou a independência, mas acabou sendo incorporado pela União Soviética. Com o colapso soviético, a Ucrânia se tornou independente em 1991 e concordou em repassar suas armas atômicas para a Rússia. Os russos, por sua vez, puderam manter a Frota na Crimeia. Em 2004, protestos conhecidos como a “Revolução Laranja” pareciam ser o início de uma nova era democrática na Ucrânia.  Os dois principais líderes políticos na época eram Yulia Tymoshenko e Viktor Yushchenko. Os dois dividiram o poder como premiê e presidente, mas entraram em choque.

Estas disputas permitiram que Yanukovych fosse eleito presidente em 2010. Posteriormente, Yanukovych bateu de frente com Tymochenko e ela acabou presa. Novas eleições parlamentares, nas quais há suspeitas de fraude, foram convocadas em 2012. Yanukovych expandiu bastante seus poderes

Como começou a crise?

O então presidente Yanukovych, em novembro do ano passado, optou por se aproximar mais da Rússia em detrimento de um acordo com a União Europeia. Esta decisão provocou uma série de protestos. Houve tentativas de resolução da crise. O presidente, os opositores, a Rússia, a União Europeia e os EUA concordaram com um governo de união nacional e antecipação de eleições presidenciais. Além disso, premiê e outros membros do gabinete seriam da oposição. Mas, no fim, os opositores ignoraram o acordo e depuseram Yanokovych, irritando a Rússia e a população russa da Ucrânia

Como é a divisão étnica?

Cerca de três quartos da população de 45 milhões é etnicamente ucraniana, com uma minoria de 17% russa. Mas os russos são predominantes no leste do país e também na Crimeia. A língua russa é falada por 24% dos ucranianos. Em teoria, quase todos são cristãos ortodoxos, mas existe diferenças sobre os que seguem o patriarcado de Kiev e o de Moscou. Na prática, muitos ucranianos não são religiosos. Além disso, politicamente, a divisão entre os pró e anti Rússia é algo mais recente.

E a Crimeia?

A Crimeia é um península no Mar Negro que sempre foi estratégica. No século 19, provocou uma guerra entre o Império Russo contra uma coalizão formada pelo Império Otomano, Francês, Britânico e a Sardenha. Até 1954, era território russo, mas Krushev decidiu transferir para a Ucrânia. Uma população muçulmana tatar foi deportada na época. Com o colapso soviético, houve um acordo para a Crimeia permanecer com a Ucrânia, mas sendo uma região autônoma e com a sede da Frota da Rússia para o Mar Negro. A população é majoritariamente de etnia russa e pró-Moscou, contra o novo governo de Kiev. Já os muçulmanos tatar, que retornaram para a região e são minoritários, são contra os russos e a favor do novo governo em Kiev

Qual o objetivo da Rússia?

Os russos, em primeiro lugar, anexaram na prática a Crimeia. A península é estratégica para Moscou pela presença da Frota e pela população russa. Moscou também quer um governo aliado em Kiev e garantia de segurança para os russos do leste ucraniano. Putin afirma que, entre os opositores que depuseram Yanukovych, há partidos fascistas

Como os EUA e os europeus podem reagir?

A Ucrânia é bem mais estratégica para a Rússia do que para americanos e europeus. Em segundo lugar, não dá para bater de frente com as forças russas sem provocar uma guerra de dimensões gigantescas – Moscou ainda é a disparado a segunda maior potência militar do mundo depois dos EUA e controla toda a área. Sem alternativa, a única opção para americanos e europeus é punir os russos econômica e politicamente. Por exemplo, com sanções e também suspendendo a Rússia do G8. Não existe opção militar

 Estas sanções podem ter efeito contra a Rússia?

Putin preza a sua imagem internacional e gastou bilhões nas Olimpíadas de Sochi para mostrar uma nova Rússia. Portanto o presidente russo não quer ficar totalmente isolado. Por outro lado, a importância da Ucrânia supera os riscos de ficar isolado. Na Geórgia, um país bem menor e menos relevante, a Rússia entrou em guerra

E o novo governo em Kiev?

As forças ucranianas não teriam apoio militar para lutar contra o poderoso Exército russo. Na prática, precisam buscar amparo político e econômico do Ocidente

Quem está certo na crise?

Difícil dizer. A Rússia está defendendo os seus interesses, assim como os americanos e europeus provavelmente defenderiam os seus. A Crimeia é muito importante Moscou. A Ucrânia é mais estratégica para os russos do que o Canadá ou o México para os EUA. Putin alega ainda que respeitou o acordo entre governo e oposição. Além disso, houve protestos a favor de Yanukovych ao redor do país. Os EUA e os europeus, por outro lado, afirmam que a população que foi às ruas defender a queda de um governo corrupto. E a Ucrânia integra a Europa. O temor é de Putin tentar reconstruir um novo império russo

Existe solução?

Sim, diferentemente do que ocorre na Síria. A Ucrânia pode se tornar um país como a Finlândia. Isto é, próximo da Europa e da Rússia. Putin também precisa ter garantias de que os ucranianos não integrarão a OTAN. Por último, a Crimeia deve ser mantida como autônoma, ligada a Kiev, mas como zona de influência militar russa. O problema é que os russos endureceram o tom  e querem anexar a Crimeia. Não há como impedir militarmente

Qual o maior risco?

Um cálculo errado que gere uma espiral de violência difícil de ser revertida. Especialmente se as operações forem além da Crimeia, incluindo o leste da Ucrânia. Milhares de pessoas podem morrer no que seria, segundo alguns analistas, a maior questão geopolítica do século 21. A bolsa de Moscou e o mercado de petróleo já foram afetados. Muitos gasodutos da Rússia para a Europa passam pela Ucrânia

Qual o papel de Obama?

O presidente americano é criticado, por um lado, por não ter sido duro. De outro, por ter sido duro demais. Os primeiros acham que Obama deveria agir com mais veemência contra Putin e o russo não o respeita. Os defensores do presidente lembram que Bush foi incapaz de impedir a Guerra da Geórgia. Outros, porém, acham que administração Obama não deveria fazer ameaças a Putin e a melhor alternativa seria agir junto com a União Europeia para impedir o conflito e implementar a solução “Finlândia”, citada acima. Por último, pesa contra Obama ele ter ironizado Romney em um debate quando o republicano disse que a Rússia era a maior ameaça geopolítica para os EUA

O conflito afeta as negociações no Irã e na Síria?

No caso sírio, Putin intensificará ainda mais seu apoio ao regime de Assad. Não haverá nenhum interesse em interromper o conflito e objetivo será consolidar a vitória de seu fiel aliado. Já no Irã, a Rússia não quer que o regime de Teerã tenha bomba atômica. Por outro lado, os dois países possuem boas relações diplomáticas e econômicas e Moscou foi responsável pela construção de usinas no país. Talvez, diminua a colaboração com os EUA

E o terrorismo?

A Rússia é um dos países que mais combate o terrorismo islâmico internacional. Mas a visão do terrorismo entre os russos é mais associada à Al Qaeda e ao extremismo sunita do Caucaso e contra Assad na Síria. Moscou, Assad e o Irã estariam, na visão russa, na vanguarda de combate ao terrorismo. Os russos também são vistos como os defensores dos cristãos no Oriente Médio. Os EUA, por sua vez, vê não apenas a Al Qaeda, como também o Irã como ameaças de terrorismo internacional. Ainda assim, os dois países tendem a seguir trabalhando em conjunto nesta área

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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