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Guia blogueiro para entender as Eleições na França

gustavochacra

04 Fevereiro 2017 | 14h04

Por que as eleições francesas são importantes para o futuro do Ocidente?

As eleições francesas são consideradas as mais importantes de 2017 porque podem definir o futuro da União Europeia e também a consolidação de uma guinada populista-nacionalista no Ocidente iniciada com o BREXIT e a vitória de Donald Trump.

Por que a candidatura do conservador Fillon perdeu força e pode entrar em colapso?

Até semanas atrás, o favorito para vencer as eleições era François Fillon, do partido de centro-direita Les Republicains. um tradicional candidato conservador pró-União Europeia, defensor de reformas pró livre mercado, mas ao mesmo tempo anti-imigração e contrário às sanções impostas à Rússia pela anexação da Crimeia.

Mas Fillon se viu envolvido em um escândalo já conhecido como PenelopeGate, em alusão à sua mulher. Ela foi contratada no passado para o cargo de assistente parlamentar de Fillon e teria recebido cerca de US$ 1 milhão ao longo dos anos. Isso não é ilegal pelas leis francesas, que autorizam a contratação de familiares. Mas o grave é que, na realidade, Penolope não aparecia para trabalhar. Era funcionária fantasma recebendo dinheiro público.

 Quem pode substituir Fillon se ele deixar a disputa?

Este episódio tem enfraquecido a candidatura de Fillon, que pode entrar em colapso. Por enquanto, ele descarta deixar a disputa. Mas talvez acabe sendo a sua única alternativa. Caso isso ocorra, será preciso saber quem o substituiria como candidato do Les Republicains. O segundo colocado nas primárias do partido foi Alain Juppe. O terceiro foi Sarkozy. Há outros nomes sendo especulados.

 O colapso de Fillon pode fortalecer Marine Le Pen?

Não está claro se, sem Fillon, Marine Le Pen se fortalecerá. A expectativa era de um segundo turno entre os dois. E Fillon, mesmo sendo de direita, tenderia a ter os votos da esquerda, horrorizada diante do risco de uma Presidência de Le Pen. Ela é nacionalista e populista e defende um plebiscito nos moldes do BREXIT para retirar a França da União Europeia. É ultra anti-imigrantes, condena o livre mercado, critica a OTAN e quer uma aproximação com a Rússia. Mas há outros candidatos na disputa.

Quem é o jovem centrista Macron? Ele pode derrotar Le Pen no segundo turno?

Quem também se fortalece é o jovem e carismático Emmanuel Macron, de centro. Com apenas 39 anos, este ex-ministro da Economia com diplomas da Paris-Nanterre, Science Po e ENA, é um fenômeno político e criou seu próprio movimento – En Marche!. Tem posições de centro-direita em economia e de centro-esquerda em temas sociais. Seria próximo da Terceira Via de Tony Blair, Bill Clinton e FHC. Hoje, teria proximidade ideológica com a alemã Angela Merkel, o canadense Justin Trudeau e o ex-presidente Barack Obama. Curiosamente, é casado com a sua professora do Ensino Médio, 20 anos mais velha. Na média das pesquisas para o primeiro turno, aparece em segundo lugar, atrás apenas de Le Pen. Mas a derrotaria no segundo turno, segundo as pesquisas (veja abaixo).

E os socialistas não tem chance mesmo de manter a Presidência?

Os socialistas na França, por sua vez, estão enfraquecidos. O presidente Hollande sequer se candidatou para a reeleição e tem índice de popularidade de padrão de políticos brasileiros. O candidato Benoit Hamon tem carismo de um pepino, como diz um amigo franco-brasileiro, e dificilmente irá para o segundo turno. Para complicar, disputará votos com o esquerdista Jean Luc Melenchon. E perde votos para o centrista e bem mais carismático Macron.

 Como estão as pesquisas?

Segundo as pesquisas, o cenário atualmente assim (levando em conta média de pesquisas) – noto que ainda é muito cedo para cravar qualquer resultado e a campanha está em seu início

Primeiro Turno

Marine Le Pen (extrema direita nacionalista)) – 25,3%

Macron (centro) – 21%

Fillon (direita) – 20,2%

Hamon (centro-esquerda) – 16,2%

Melenchon (extrema esquerda) – 9,7%

Segundo Turno

Macron 64% x 36% Le Pen

Fillon 60% x 40% Le Pen

Macron 55% x 45% Fillon

Diante deste cenário, Macron, neste momento, leva vantagem se for a um segundo turno tanto contra Le Pen como contra Fillon. Le Pen demonstra ter uma sólida base no primeiro turno, mas enfrenta dificuldades para crescer no segundo turno. Nas bolsas de apostas, Macron lidera, seguido por Le Pen e Fillon. E Juppe já em quarto, embora ele tenha descartado inicialmente entrar na disputa após a derrota nas primárias. Mas talvez seu cálculo mude se Fillon em entrar em colapso.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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